O próximo Grammy, exibido na noite deste domingo (1º), terá de escolher entre premiar a música de fora dos Estados Unidos, encarnada na figura do porto-riquenho Bad Bunny, indicado a seis categorias, ou se vai se acovardar para laurear os mesmos americanos de sempre, caso de Lady Gaga, não menos merecedora, nomeada a sete estatuetas. É pendência de gente grande, e, de certa forma, um embate político também.
Isso porque Bad Bunny faz uma ode a Porto Rico —um território dos Estados Unidos— e aos latinos no disco “Debí Tirar Más Fotos” e, a partir dele, vem travando uma guerra fria com Donald Trump nos últimos meses. Artista mais ouvido do mundo no Spotify, ele se recusou a levar sua turnê para as terras ianques por susto de que fãs sofressem repressão do ICE, o serviço americano que está prendendo pessoas imigrantes de forma violenta. Isso despertou protestos em toda a lado artística, inclusive entre atores que foram ao Mundo de Ouro no mês pretérito.
O Grammy já fez logo, de certa forma, seu próprio atestado contra a política anti-imigração de Trump ao incluir Bad Bunny entre os indicados das suas três principais categorias —disco, melodia e gravação do ano, estas duas com a filete “DtMF” —, um feito inédito para um projeto cantado em espanhol.
Dar a ele uma dessas estatuetas, principalmente a de álbum do ano, porquê apostam os especialistas, reforçaria essa oposição entre a maior premiação da música e o governo de Donald Trump.
Abriria espaço também para que o porto-riquenho faça discursos contra o presente, porquê Billie Eilish, também indicada nesta 68ª edição do Grammy, fez há duas semanas na premiação MLK Jr. Beloved Community Awards, para pessoas e organizações que se dedicam a uma sociedade mais justa. Ao receber um troféu por justiça ambiental, Eilish afirmou que, diante de tantas mortes de manifestantes, proteger o meio envolvente parece estar cada vez mais longe das prioridades do governo.
É verosímil, logo, que ela faça um protesto parecido no Grammy se vencer uma das duas estatuetas que concorre com a música “Wildflower”, em gravação e melodia do ano, esta entregue aos compositores —neste caso, a própria Eilish e seu irmão, Finneas O’Connell.
Ídolos de muitos jovens —Eilish tem 24 anos—, os dois estão entre os artistas que mais se manifestam publicamente sobre política. Na última terça-feira, ela usou seu perfil no Instagram, com 125 milhões de seguidores, para ironizar celebridades que estão caladas diante dos episódios envolvendo o ICE.
No dia seguinte, a rapper Nicki Minaj deu as mãos a Trump em um evento em Washington, onde pegou o microfone não para trovar, mas para expor que se considera a fã número um do presidente —e que não se importa com as críticas que ouve por sua posição política.
Quem também pode aproveitar os holofotes do Grammy para falar mal do governo é Lady Gaga, que —embora simbolize um tipo de música americana exaustivamente reconhecida no Grammy— é também uma antiga opositora de Trump. Na quinta-feira, ela interrompeu seu show em Tóquio para expor que voltaria para os Estados Unidos com dor no coração por justificação do estado em que se encontra o país, com pessoas sendo perseguidas e mortas.
Outro artista que sempre cruza música e política é o rapper Kendrick Lamar, o recordista de indicações no Grammy deste ano, nove ao todo. O americano não costuma dar nomes aos bois, porquê Gaga e Eilish, mas deixa uma série de mensagens de cunho social explícitas em suas letras. No Super Bowl do ano pretérito, onde fez um show visto pessoalmente pelo presidente, o rapper ergueu bandeiras da Palestina —à estação, a tensão entre EUA e Oriente Médio só crescia.
Lamar, que saiu vitorioso do Grammy do ano pretérito com os troféus de gravação e melodia do ano, encabeça a lista de indicados desta vez com o álbum “GNX”, que pôs em um novo patamar sua curso já há muito consolidada. No projeto, ele retoma sua antiga linguagem mais bruta, e menos conceitual, para falar, por exemplo, da pendência com Drake, outro gigante do rap, que levou a trocas de ataques por meio de músicas. O disco foi muito muito recebido pela sátira e tem boas chances de transpor vencedor na categoria principal.
A própria Lady Gaga é uma das artistas primeiro da corrida por disco do ano. Com “Mayhem”, ela também voltou ao início de curso, seu auge, unindo batidas dançantes a temas sombrios —numa embalagem mais sofisticada que nunca. Correm por fora, ainda em álbum do ano, Justin Bieber com “Swag”, que não empolgou nem fãs nem a sátira, Sabrina Carpenter, um tanto repetitiva com seu “Man’s Best Friend”, e Leon Thomas, que surpreendeu com o “Mutt”, mas não deve ter força o suficiente para vencer a categoria.
A música “Abracadabra”, carro-chefe do álbum de Gaga, é certamente o mandinga mais poderoso dela nesta edição, favorita à estatueta de gravação do ano. Sua grande rival é a filete “Apt.”, parceria da cantora de k-pop Rosé com o americano Bruno Mars, um dos queridinhos do Grammy. Se vencer, Rosé, que ficou famosa no grupo Blackpink, se tornaria a primeira artista de k-pop laureada numa categoria de peso —embora com uma música cantada em inglês.
A disputa tem ainda Sabrina Carpenter, que tomou o TikTok com a melodia “Manchild”; a rapper Doechii, que tem alguma chance de levar com “Anxiety”; e a união de Kendrick Lamar e SZA em “Luther”, que fez bonito nas paradas americanas. O páreo é duro.
Difícil é prever também quem vai vencer a estatueta de artista revelação, uma das mais cobiçadas. Se na estação do pregão dos indicados, em novembro, a britânica Lola Young despontava porquê favorita, tudo mudou com a explosão da também britânica Olivia Dean, que desde o término do ano assaltou as rádios, as paradas e as redes sociais com três sucessos de uma vez só. Dean, muito romântica, vem sendo comparada a Adele, o que já é credencial o suficiente para vencer um gramofone.
Young, que faz um pop rock muito geração Z, viveu um período de baixa no segundo semestre de 2025 em seguida desmaiar em um show, e determinar cancelar toda a sua agenda para cuidar da saúde. Ela inclusive desistiu de vir ao próximo Lollapalooza de São Paulo, em março, mas recentemente avisou aos fãs nas redes sociais que logo estará de volta.
Em categorias menores, são possíveis as vitórias do rock recíproco de Hayley Williams, que lançou disco fora do Paramore, de Miley Cyrus, elogiada pelo álbum “Something Beautiful”, e de Chappell Roan, que levou o troféu de artista revelação no ano pretérito, e agora tenta em performance de pop solo.
Dois brasileiros estão na disputa, os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia, que concorrem juntos em melhor álbum de música pop global com a gravação da sua mais recente turnê. Entre os rivais estão o nigeriano Burna Boy e o senegalês Youssou N’Dour.
