Grande Otelo: Ocupação revisita carreira do grande ator 06/12/2025

Grande Otelo: Ocupação revisita carreira do grande ator – 06/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Circo, trova, romance, música, rádio, teatro dramático, teatro de revista, chanchadas, Cinema Novo, televisão. Definitivamente, não é pouca coisa. E se a internet tivesse surgido quando ele ainda estava vivo, talvez Grande Otelo pudesse se transformar em influencer.

Sebastião Bernardes de Souza Prata foi um artista precoce e versátil, nascido em Uberlândia, em 1915, que conseguiu se ajustar a tantas atividades em seus 78 anos de vida. Os 110 anos de promanação justificam sua escolha porquê personagem de uma exposição no Itaú Cultural, em São Paulo, até 8 de março de 2026.

Grande Otelo morreu ainda em período de muita atividade e grande reconhecimento do público. Em 1993, foi vítima de um infarto fulminante ao desembarcar no aeroporto Charles de Gaulle, na França. O ator viajou para o Festival dos Três Continentes, em Nantes, no qual seria homenageado num tela devotado à negritude no cinema.

Se o grande sucesso popular vinha desde as décadas de 1940 e 1950, quando formou com Oscarito uma dupla de astros no auge das chanchadas no cinema brasílio, Otelo aos poucos foi consolidando sua atuação de permanente duelo a uma indústria cultural excludente e racista.

“As novas gerações não o conhecem. Queremos um resgate de sua figura. Destacamos cá sua arte e também essa combatividade”, explica Galiana Brasil, gerente do Núcleo de Curadorias e Programação Artística do Itaú Cultural. “Grande Otelo já discutia pautas que são de agora. Ele, por exemplo, denunciava as diferenças salariais entre atores brancos e negros.”

Na dupla de comédia que ele fazia com Oscarito no cinema, seus nomes dividiam a posição de destaque nos cartazes dos longas, mas ele recebia cachês menores do que o parceiro branco. “Estamos trazendo muito à exposição essa questão dos sindicatos, da luta pela profissionalização.”

Otelo chamava a propalada democracia racial no Brasil de “falácia”, e reiterava que seu sucesso era individual e à margem de uma discriminação potente no giro de arte do país. Ele tinha consciência de que era o primeiro artista preto brasílio a conseguir destaque em várias áreas criativas, e se mantinha publicamente em permanente alerta para a questão racial.

Entre os 160 itens na ocupação, muitos documentos resgatam essa resistência de Otelo. Um de seus embates polêmicos foi com o jornalista de novelas Gilberto Braga, depois leste declarar que o teatro iria findar. Otelo responde: “O teatro acabará se a TV continuar com a romance à noite, impedindo assim o povo de transpor à rua e ir ao teatro.”

“Será muito interessante mostrar aos visitantes essa faceta dele mais combatente, mais politizado”, comenta Brasil. Ela destaca as anotações de próprio punho de Otelo em exibição. “Ele mantinha muitos caderninhos, com ideias, poemas e rascunhos. E agendinhas”, acrescenta, mostrando uma com as anotações dos contatos telefônicos de Gilberto Gil.

Montada no primeiro marchar do prédio do Itaú Cultural, a ocupação tem consultoria de Deise de Brito e foi projetada visualmente por Kleber Montanheiro, que já foi responsável pela tarefa em outras edições da série, porquê as que homenagearam Laura Cardoso, Tônia Carrero e Lima Duarte.

No caso de Grande Otelo, ele teve muito material para repartir no espaço. “Com teatro, música, cinema e TV, a vida dele é uma viagem por imagens do século pretérito.” O currículo impressiona: 103 peças, mais de uma centena de filmes e 42 gravações em disco.

Com uma extensão médio que mostra uma terreiro carioca estilizada, a exposição reúne fotografias, roteiros, partituras, fotografias, cartas, roupas usadas no teatro e outros objetos. A maior segmento do material faz segmento do ror de Otelo guardado desde 2008 no Núcleo de Documentação e Pesquisa da Funarte, no Rio de Janeiro. Há também material vindo dos arquivos da TV Cultura e da TV Orbe.

E, porquê destaque, foi montado um pequeno cinema, com poltronas antigas, para quem quiser testemunhar a trechos de seus filmes. “No imaginário das pessoas, o cinema é a memorandum que chega mais potente”, afirma Galiana Brasil.

O destaque para seus filmes é evidente. Além de um site sobre a ocupação, que traz mais itens e recordações de Otelo que ficaram fora do espaço físico da exposição, há mais uma atração para visitas digitais.

O conduto de streaming gratuito da instituição, o Itaú Cultural Play, ajuda a complementar o perfil do artista. Estão disponibilizados ali filmes relevantes da curso de Otelo, porquê “Carnaval Atlântida” (1952), comédia na qual ele contracena com o parceiro Oscarito e outra mito do cinema brasílio, José Lewgoy.

Outro longa jocoso, de novo com Oscarito, é “Matar ou Percorrer” (1954), chanchada que tira vaga com os faroestes, a principiar pelo título, uma pândega com o clássico western “Matar ou Morrer”, de 1952, com Gary Cooper e Grace Kelly.

A versatilidade de Otelo pode ser conferida em dois dramas dirigidos por Nelson Pereira dos Santos: “Rio Zona Setentrião” (1957), com Jece Valadão, Paulo Goulart e a cantora Ângela Maria, e “Jubiabá” (1987), ao lado de Betty Faria.

Fazem segmento da programação “Também Somos Irmãos” (1949), de José Carlos Burle, com Jorge Dória e Ruth de Souza, atriz que foi parceira permanente de Otelo na resguardo de questões de negritude, e o policial “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977), estouro de bilheteria dirigido por Hector Babenco.

Mas a mostra não estaria completa sem “Macunaíma”, um clássico definitivo do cinema brasílio, realizado por Joaquim Pedro de Andrade em 1969. Na criativa e elogiada adaptação do livro de Mário de Andrade, Otelo divide o personagem protagonista, o “brasílio sem caráter”, com Paulo José.

Uma curiosidade: no cineminha construído dentro da ocupação, entre os trechos de filmes em exibição estão algumas cenas de “Carnaval no Incêndio”, filme de 1949, dirigido por Watson Macedo. Num incidente que muito poderia ser uma pândega com o título do filme, os rolos do longa queimaram em um incêndio, e só restou o trecho que será exibido ali. Uma relíquia cinematográfica.

Folha

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