Primeiro é uma correnteza de corpos. Braços, pernas e quadris, muitos quadris, se quebrando e lutando contra a manante. Os 22 bailarinos do Grupo Corpo avançam, param e recomeçam para subsistir e resistir nas águas de “Piracema”, novidade obra da companhia.
São três balés dentro de um, feito por dois coreógrafos a partir da trilha criada por Clarice Assad. A trindade coreográfica responde à música com três movimentos claramente diferentes —ou três rupturas, porquê define a própria Assad.
Na luz dourada de uma parede de escamas metálicas que compõe o cenário, a dança se desenvolve viajando rio supra pelos diferentes lugares propostos pela música, de alguma região mítica do Amazonas, passando por uma sala de concerto, até surdir numa grande metrópole envolta por música eletrônica.
O olhar precisa estar sengo nos primeiros 15 minutos, uma torrente de informações. Os corpos do Corpo são reconhecíveis em sua identidade e brasilidade contemporânea, mas há um pouco de novo —um movimento mais futurista, talvez. Amazônia e Novidade York.
O ouro do cenário é uma lustroso ilusão formada por 82 milénio latas de sardinha, as escamas de metal sobrepostas em uma montagem quase industrial —três equipes se revezaram em turnos de quatro horas para fabricar o quadro que chega a São Paulo e vai escoltar o grupo nas turnês pelo Brasil e mundo afora —os próximos espetáculos serão em Belo Horizonte, Porto Jubiloso, Rio de Janeiro e Florianópolis.
“Eu não vejo zero de dissemelhante, é mais uma estreia, e toda estreia é uma tensão”, diz Paulo Pederneiras, diretor artístico do Corpo, sobre a obra que marca os 50 anos do grupo, uma das mais longevas e festejadas companhias privadas de dança no Brasil.
Porquê se tudo isso fosse pouco. Num país em que as artes dependem das oscilações políticas e econômicas e que mal se recuperou das consequências da pandemia de coronavírus, manter uma companhia seguro com subida qualidade técnica e artística por meio século não é para fracos. E manter o interesse do público tampouco é trivial —por sinal, os ingressos para a temporada, que vai até o término deste mês, esgotaram em menos de um dia.
Tem mais. “Piracema”, vocábulo do tupi guarani que designa o período de transmigração de peixes, que nadam contra a correnteza para a desova, foi criado de forma totalmente inusitada. Idealizado a quatro mãos e pernas e duas cabeças, juntou Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches, que passaram meses trabalhando cada um com metade dos bailarinos da companhia sem se falarem sobre a coreografia.
Cada um, e cada grupo de bailarinos, não sabia zero um do outro. Com a mesma e única trilha de Assad, Abranches e Pederneiras criaram separadamente a coreografia para, depois de tapume de seis meses, ela principiar a ser unida em uma única obra no início de junho.
Não uma segmento da coreografia de um seguida pela do outro sucessivamente, mas a mais completa mistura das linguagens dos dois coreógrafos.
“Esta proposta indecente do Paulo foi a teoria mais maluca que alguém pode ter tido”, afirma Cassi Abranches. Rodrigo reagiu dizendo que não iria dar visível, mas aceitou o duelo. “Foi incrível. Depois que as coreografias estavam prontas, assistimos aos trabalhos um do outro e vimos que dava para encaixar. O que a Cassi tinha feito complementava a minha coreografia, e vice-versa”, afirma ele.
O quebra-cabeças coreográfico serve, pelo menos, a dois propósitos. Um é transpor da zona de conforto. O Grupo Corpo tem uma linguagem consagrada, considerada por muitos a pedra fundamental da dança contemporânea brasileira.
Uma coreografia típica da companhia é garantia de salas lotadas, no Brasil e no exterior, e é de certa forma o que o público espera —e será contemplado também no espetáculo de 50 anos, que combina a novidade de “Piracema” ao best-seller “Parabelo”, com música de Tom Zé e José Miguel Wisnik, a coreografia mais dançada pelo grupo desde a estreia da produção, em 1997.
Para sobreviver na dança por meio século, é preciso inovar também. Rodrigo Pederneiras, que é irmão de Paulo Pederneiras, assumiu porquê coreógrafo residente logo depois do sucesso de “Maria Maria”, estreia do Corpo em 1975 com a coreografia de Oscar Arrais, roteiro de Fernando Brandt e música de Milton Promanação, que ficou dez anos em papeleta.
Em cinco décadas, os irmãos, com Paulo Pederneiras na direção, na cenografia e na luz, foram criando as marcas da companhia, porquê a dança a partir de uma trilha sonora original de músicos brasileiros —com poucas exceções, porquê Johann Sebastian Bach, em 1996, e Ernesto Lecuona, em 2004, com trilha de Marco Antônio Guimarães sobre a obra do compositor teutónico e músicas do cubano, respectivamente—, além dos movimentos de quadril ou os ritmos populares brasileiros revisitados por técnicas contemporâneas.
Mas também é preciso buscar o novo, sem perder a identidade. É o que o Corpo tem feito ao longo desses anos. “Não interessa o que você sabe fazer, o interessante é o que você não sabe ainda”, disse Paulo Pederneiras à dupla de coreógrafos de “Piracema”. O outro propósito de inventar um novo jeito de coreografar em dupla é uma já falada passagem de pau de Rodrigo Pederneiras a Abranches, teoria pensada há uma dez.
Nos 40 anos da companhia, em 2015, o espetáculo teve duas estreias. À idade, a novidade foi uma coreografia de Abranches, “Suíte Branca”, seguida pela “Dança Sinfônica”, do parceiro. “Estou com 70 anos. Não vou parar, mas quero diminuir o ritmo”, afirma o coreógrafo. “Cassi vai dar ininterrupção ao nosso trabalho.”
