“(Um Clássico) Matou a Família e Foi ao Cinema” do Grupo XIX de Teatro opera a partir de um princípio: a encenação uma vez que processo de montagem e desmontagem de imagens, tanto as projetadas na tela quanto as construídas ao vivo. A peça faz uma colagem que coloca dois filmes marginais dos anos 60 em diálogo direto com o presente, usando-os uma vez que instrumento de estudo.
O trabalho do diretor Luiz Fernando Marques (Lubi) e do coletivo de artistas se assemelha ao de um arquivista que, em vez de preservar documentos, os sacode para ver que poeira ainda levantam. Os filmes-fonte – “Um Clássico, Dois em Morada, Nenhum Jogo Fora” (1968), o curta censurado de Djalma Limongi Batista, que tratava da homossexualidade masculina, e “Matou a Família e Foi ao Cinema” (1969), o treino de estilo transgressivo de Júlio Bressane – são tratados uma vez que provas de um delito não resolvido. A projeção de seus trechos no espaço industrial da Vila Maria Zélia cria um contraste deliberado: a imagem fixa do pretérito confronta a maleabilidade do corpo do ator no agora.
Um narrador-personagem, interpretado por Walmick de Holanda, é o mediador, um guia que incessantemente nos lembra do artifício que estamos testemunhando. Ele orquestra o embaralhamento entre as personagens dos filmes e os intérpretes no palco. Essa decisão desloca o foco de “o que” está sendo exposto para o “uma vez que” e “por quê” se conta aquela história daquela maneira.
A suposta interatividade, marca registrada do Grupo XIX, cá assume um tom mais reflexivo. O público não é chamado a intervir fisicamente, mas a completar mentalmente as conexões que a encenação propõe. A participação se dá na obrigação de edificar sentido a partir da justaposição de temporalidades e linguagens. É uma interatividade intelectual, que exige que o testemunha reconheça e avalie a intervalo – ou a perturbadora proximidade – entre as ansiedades sociais daquela quadra e as de hoje.
A peça sugere que a sonolência contemporânea talvez seja herdeira de traumas não elaborados, e que o entretenimento, muitas vezes, serve uma vez que anestesia para essa dor histórica. A força da montagem está em montar uma máquina eficiente de perguntas, usando o cinema uma vez que espelho quebrado e o teatro uma vez que a sala onde seus cacos são cuidadosamente colados para refletir nossas próprias fissuras.
Três perguntas para…
… Luiz Fernando Marques
Há um jogo jacente entre veras e ficção na peça. Uma vez que essa desconstrução da narrativa tradicional dialoga com a teoria de “anestesia” provocada pelo entretenimento?
Trabalhamos a tensão entre a ficção e a veras, ou entre o pré-elaborado e o que acontece de forma performática junto com a plateia. No teatro contemporâneo, infelizmente, prevalece uma convenção que coloca o público em um lugar passivo e soturno, restrito a testemunhar. Neste trabalho — e isso dialoga com a trajetória do Grupo XIX —, queremos colocar a plateia em um espaço onde possa testemunhar, ser cúmplice ou transformar, e, mais do que isso, perceber que o que está vendo é único.
Essa unicidade obriga o público a remontar o significado da obra, que pode ser transformado por fatores externos — uma vez que um evento fora da sala, as condições do tempo ou uma interferência de alguém da plateia. A peça possui vários espaços abertos justamente para que essa estrutura prévia, seja o filme dos anos 60 ou as gravações que criamos, possa ser modificada e colocada em jogo.
A termo “anestesia” é interessante cá, pois a teoria é tirar a plateia desse lugar passivo e colocá-la em ação, rumo a outro significado. De notório modo, a narrativa convoca o público a elaborar um novo final — dissemelhante da ficção, mas com correspondência na história real, principalmente na forma uma vez que é lida socialmente no Brasil desde os anos 60 até hoje. Fica, assim, um invitação à transformação e à interferência.
“(Um Clássico)…” parece solidar a linguagem do Grupo XIX. Quais são os próximos passos? Vocês pretendem continuar explorando o diálogo entre teatro e cinema?
É importante evidenciar que esse processo reflete um novo momento do Grupo XIX, que agora atua a partir de núcleos de pesquisa. Hoje, o grupo se multiplica e sua linguagem se expande. Se por duas décadas nos dedicamos à construção de uma linguagem por um coletivo inicial, agora nos abrimos para parcerias externas e alcançamos novos territórios criativos.
Em “Um Clássico…”, chegamos a um lugar; em “Interruptor, Dispositivos para Desligar A Manante”, de Ronaldo Serruya, o caminho é outro — o mesmo com Juliana Sanches e Rodolfo Amorim. Por isso, é quebrável falar em uma única linguagem do XIX hoje: vejo-a uma vez que plural.
No meu núcleo, por exemplo, ainda estamos experimentando com exalo e continuaremos a explorar — tanto no XIX quanto em outros coletivos — essas possibilidades que transitam entre cinema e teatro, entre o pré-elaborado e o performático. Ainda estamos percorrendo esse espaço de investigação.
A temporada de maio foi inicialmente pensada uma vez que uma despedida – por desculpa da incerteza quanto à permanência do grupo na Vila Maria Zélia – e agora se tornou um ato de resistência. Além da programação artística, estão previstas outras ações políticas ou simbólicas para fortalecer esse movimento?
Ambas as temporadas foram atos de resistência. Houve avanços, uma vez que a maior aproximação do Ministério da Cultura, que apresentou algumas possibilidades, mas ainda caminhamos em um campo de muita incerteza. É importante ressaltar que essa situação não é exclusiva nossa; grupos parceiros, uma vez que o Teatro de Contêiner, também enfrentam desafios similares.
Todos esses gestos de permanência e manutenção de espaços já consolidados uma vez que culturais são vitais. Muitos desses locais não tinham inicialmente essa vocação, mas a ganharam através da vivência dos coletivos. Nossa luta vai além de fazer peças na Vila; é pela vida e por aquele espaço de cultura e convívio. Trata-se de permitir que as pessoas conheçam uma vila operária em sua arquitetura e organização únicos, não somente para testemunhar a uma peça, mas para usufruir de outras atividades, repousar e testar o repouso.
Nossa prioridade é manter essas temporadas e buscar novos editais para viabilizar outras ações, uma vez que as oficinas pedagógicas que já realizamos há anos. Para isso, dependemos do base da Prefeitura e do governo estadual — é forçoso que abram os editais para que tudo possa sobrevir em sua potência máxima.
Vila Maria Zélia – rua Mário Costa, 13 – Belém, região leste. Sáb. e dom., 16h. Até 7/9. Duração: 80 minutos. Classificação: 18 anos. A partir de R$ 40 (meia-entrada) em sympla.com.br
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul inferior.
