Guilherme Arantes celebra 50 anos de carreira feroz 01/02/2026

Guilherme Arantes celebra 50 anos de carreira feroz – 01/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Guilherme Arantes está lançando o álbum “Interdimensional”, com 15 faixas, muitas falando do paixão com um romantismo maduro, e começando uma turnê comemorativa de 50 anos de curso. Um dos maiores “hitmakers” da música brasileira, porém, admite não se encaixar no que o cenário oferece hoje.

Para ele, o lançamento de discos foi substituído por um mercado de shows, que ele critica e rotula porquê “show business”. A turnê deixou de ser exclusivamente o artista mostrando suas músicas. Tudo se insere num mundo de tecnologia e logística, enquanto as canções ficam pulverizadas no do dedo. Os festivais, com cada vez mais atrações além dos shows, ele labareda de “praças de sustento”.

“Há uma aceleração no tempo monstruosa, uma desatenção generalizada. Eu já estou vivendo num terceiro tempo, num bônus, logo resta me apegar ao que eu palato. Tento viver na minha bolha. Tenho que escolher uma quadra para viver, para subsistir. Eu palato dos anos 1950, palato do samba-canção do Tito Madi, da Maysa, da pronunciação da bossa novidade. Escolho ser assim, viver do jeito que eu imagino”, diz o músico de 72 anos.

Ele não se preocupa com o sucesso mercantil. Tanto que “Interdimensional” tem canções que ultrapassam cinco ou até seis minutos, na contramão da música breve do TikTok. E, numa ação que pode ser considerada retrô, o disco sai em do dedo, mas também em álbum duplo de vinil.

“Que se dane o que possa surtir de resultado, porque o que eu vejo é o resultado pífio generalizado. Meus ídolos também estão lançando discos. Mick Jagger e Paul McCartney estão lançando discos, e esses discos não combinam com o que temos para hoje. É uma verdade brutal. Só me resta viver do jeito que eu sempre fui.”

O novo álbum traz algumas versões pessoais de canções que fez para Gal Costa —”Puro Sangue”—, Alaíde Costa —”Berceuse”—, Boca Livre —”Toda Felicidade”— e Claudette Soares —”O Prazer de Viver para Mim É Você”. E tem muito material recente que ele produziu em Ávila, na Espanha, durante o ano pretérito. Depois de muitos tempo morando na Bahia, o paulistano Guilherme Arantes tem também um refúgio espanhol que cada vez mais ganha espaço em sua vida.

Na viradela para 2025, tomou um susto com um problema cardíaco. Resolveu logo cancelar todos os shows e partiu para Ávila. “Eu me sinto privilegiado de poder viver desse jeito. Fui para Ávila sem prazo de voltar. Falei com meu médico, tive problema com o coração, operei bacia. Logo parei com os shows.”

Arantes afirma que lá o mercado deu a ele tranquilidade e sossego. “Sem prazo para voltar, você se transforma totalmente. Eu tinha um dinheirinho guardado que dava para me manter. Pude estudar, fazer letras, fazer coisas muito feitas. Foi uma delícia, aos 70 anos, poder fazer isso.”

Em Ávila, ele diz que fica mergulhado em um universo no qual sua música faz sentido. “Porque eu não posso pensar mais em função de resultado. Isso é com a lucidez sintético. A IA é basicamente replicação de resultado, mas ela não replica o fazer. Ela replica o Van Gogh, mas não replica o drama do Van Gogh. E é o drama dele que faz o quadro valer US$ 100 milhões.”

“Eu não acredito na IA”, prossegue. “Evidente que nós vamos adotar muita robotização. É maravilhoso você poder encontrar tudo online. Mas o fazer é o principal. O reptador não é o resultado, aí é que está o equívoco desta quadra.”

Focado em imaginar músicas, ele se sente rejuvenescido. “Sou um noviço diante de um Tom Jobim, de um Johnny Alf, de um João Donato. Eu me sinto jovem. É a mesma empolgação do menino.”

Arantes relembra a puerícia e a mocidade, morando com o pai que fazia música com Paulo Vanzolini. “Ele tinha os discos do Baden Powell, do Edu Lobo, do Tamba Trio. Assim eu fui criado. O que me resta é buscar refúgio nesse tempo, naquilo que gostei, naquilo que absorvi.”

A turnê “50 Anos-Luz” já tem 12 shows marcados entre março e maio. Começa no dia 7 de março, em São Paulo, no Espaço Unimed. O artista se debruçou sobre mais de 20 álbuns gravados para selecionar o repertório. E sabe que não pode fugir dos hits.

“O público é mais tosco. Ele elege porquê favoritas as coisas que a indústria empurrou com o marketing. O público recebe com mais frieza aquilo que não foi grande sucesso”, afirma.

Embora vá resgatar músicas menos conhecidas, ele admite se preocupar com essa inquietude. “O show business é ignorante, ele é bruto. O público quer ver ‘Deixa Chover’, ‘Meu Mundo e Zero Mais’, ‘Amanhã’, ‘Êxtase’, ‘Trebelhar de Viver’, ‘Coisas do Brasil’, ‘Enxurro de Charme’, ‘Aprendendo Jogar’, essas todas.”

Arantes promete um show longo, de duas horas. Quer espaço para visitar o repertório de um período maduro, depois de seus 40 anos, no qual ele se sente “jubilado da indústria”.

“Os anos 1990 trazem outra ruptura, que marca a ingresso do do dedo e a chegada do show business moderno, com grupos pesados de investimentos. O agronegócio por trás do sertanejo, por exemplo. Hoje esses artistas dependem dessa propulsão do agro. Isso não é mais música.”

Folha

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