'Habitat': peça questiona linchamento nas redes 29/01/2026 Mise en scène

‘Habitat’: peça questiona linchamento nas redes – 29/01/2026 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

Num mundo onde a indignação é um espetáculo e a verdade é negociada nos bastidores do engajamento do dedo, o teatro ainda se permite o ato radical da reflexão. E é exatamente isso que “Habitat”, a novidade peça de Rafael Primot, oferece: um espelho quebrado, cujos cacos afiados refletem as fissuras da desumanização contemporânea.

Discípulo de Antunes Rebento, Primot herdou um comprometimento com o gesto preciso e a profundidade do subtexto. Sua curso multifacetada – entre atuação, cinema e escrita – sempre orbitou o “varão generalidade”, elevando o pormenor cotidiano a um conflito existencial. Agora, em “Habitat”, Primot dá um passo além.

A trama começa in medias res, com um delito brutal já consumado dentro de um supermercado. A estrutura, no entanto, é brilhantemente não-linear. Em vez de um relato direto, somos apresentados a uma série de encontros e entrevistas conduzidas por Nádia (uma Fernanda de Freitas expediente e calculista), jornalista-influenciadora que se especializou em direitos dos animais. Ela procura a “verdade” de Adailton (o próprio Primot, em uma atuação contida e devastadora), o segurança que confessou o delito. O terceiro vértice deste triângulo tóxico é Tite (Rogério Brito, soberbo em sua frieza corporativa), o executivo da rede que nega qualquer responsabilidade, atribuindo a violência a uma “má versão” de suas ordens.

Cá, Primot e seus diretores, Lavínia Pannunzio e Eric Lenate, fazem sua jogada mais inteligente. A peça nos força a consumir a informação uma vez que consumimos um escândalo online: aos pedaços, através de narrativas enviesadas. A plateia se transforma em detetive – ou, mais precisamente, em jurado. A escolha do Teatro Estúdio, com seu palco em redondel, é um golpe de rabino conceitual.

É na construção desses personagens que “Habitat” brilha uma vez que estudo social. Eles fogem de qualquer arquétipo simplista. Nádia personifica o ativismo de performance, onde a culpa serve ao ego e ao lucro. Sua parceria com Tite, negociada em uma mesa limpa e muito iluminada, é um dos momentos mais sórdidos e verossímeis da peça.

Adailton, por sua vez, é o corpo que executa a violência que o sistema demanda, mas que é rapidamente desprezado quando se torna inconveniente. A descrição de sua vivenda, impregnada por um cheiro insuportável que transborda do palco através da narrativa, é uma metáfora física poderosa da fronteira de classe.

Já Tite, é o vilão perfeito do nosso tempo: vegano, “woke” no exposição, um “patrão lítico” que utiliza a linguagem da responsabilidade social uma vez que escudo institucional.

A direção de Pannunzio e Lenate é um estudo de precisão. O cenário minimalista de Lenate – essencialmente uma grande mesa – é um espaço multifuncional e simbólico: é a sala de reuniões, a mesa de negociação, a quartinho de interrogatório. A iluminação de Sarah Salso e o figurino de Carol Bertier delineiam com frieza os mundos separados dos personagens.

“Habitat” argumenta que o cancelamento nas redes não procura justiça, mas uma catarse coletiva através do sacrifício de um quidam visível. É um ritual que permite que a máquina – e seus verdadeiros operadores, uma vez que Tite e Nádia – continue funcionando imune. O jogo de culpa expõe a lógica perversa de um “habitat” onde a empatia é um recurso seletivo, negociável e, frequentemente, farsesco.

Três perguntas para…

… Rafael Primot

O que veio primeiro: a vontade de falar sobre o habitat do dedo/julgamento virtual, ou a investigação de um caso concreto (uma vez que os incidentes em supermercados)? Porquê esses fios se entrelaçam no texto?

O impulso inicial veio de um caso concreto. Conversando com uma amiga sobre um dos episódios reais que inspiraram a peça, há alguns anos, ela me contou sobre uma imagem do criminoso sendo espancado no trajeto até a delegacia que ela tinha visto na internet. Ambos tínhamos nos manifestado também sobre o caso na internet, assinado petições. Mas quando vi aquelas imagens do criminoso fiquei estarrecido com a selvageria daquela cena e, ao mesmo tempo, ainda muito mexido com o horror do que havia sucedido dentro daquele supermercado. Era uma cárcere de violências, todas muito visíveis e muito públicas. Aquilo me atravessou de um jeito que eu senti urgência de ortografar. Parece que o texto saiu quase uma vez que um mecanismo de organizar minhas ideias diante daqueles eventos.

E escrevendo, percebi que existia um segundo fenômeno se impondo: o julgamento virtual, a dinâmica de espetacularização da culpa, o linchamento do dedo. Era isso, era sobre isso que precisava jogar luz. Logo os temas se fundiram no texto. Não era mais sobre um caso específico, mas sobre o envolvente em que narrativas se constroem, se distorcem e se consolidam hoje, o nosso habitat do dedo.

A direção em dupla trouxe uma combinação potente de profundidade psicológica e rigor visual. Porquê foi o processo de colaboração? A decisão pelo palco em redondel, que transforma o público em jurado, veio do texto ou foi uma proposta da direção?

Lenate convidou Lavínia para encaminhar com ele, e eu achei um acerto enorme. Lenate é um encenador nato: no primeiro tentativa ele já trouxe um caminho muito preciso para o espaço, o cenário e para a atmosfera. Lavínia, por outro lado, mergulhou nas intenções e nas sutilezas do texto — e juntos conduziram o processo com um misto de delicadeza e firmeza.

Eu também sabia que o personagem que eu faria era muito distante de mim e exigia uma formação de corpo, voz, tônus e prosódia, e precisava de diretores que topassem essa construção e confiassem nesse meu trajectória. Eles não só confiaram, uma vez que me ajudaram a ampliar a proposta e me deram segurança em minhas escolhas.

E sim, no texto eu sugiro uma redondel para a encenação, um tanto uma vez que um espaço neutro, rodear, quase uma vez que um ringue, onde as forças em disputa pudessem se enfrentar diante do público. Os diretores vieram e ampliaram essa teoria, trazendo o concepção de um refeitório de empresa que, ao mesmo tempo, preserva essa neutralidade e se transforma com a luz. Esse lugar híbrido produziu uma atmosfera muito rica: cotidiana, fria e tensa. Meio que um “habitat” onde o embate moral pode sobrevir à vista de todos, em um espaço que todos frequentamos e onde o caso real ocorreu.

E uma vez que responsável, eu deixei um pedido logo nas primeiras linhas do texto: que os personagens fossem interpretados com muita verdade, sem que os atores caíssem na tentação de criticá-los ou julgá-los com sua atuação. Eu queria evitar qualquer ironia ou caricatura por secção do elenco. Na peça, quem deve julgar os comportamentos é o testemunha — não os atores. Essa escolha, para mim, foi fundamental para que não deslocássemos o eixo da narrativa: não é o palco que aponta o dedo, é o público que precisa mourejar com o desconforto de fazer isso.

A peça faz uma sátira ferrenha ao “cancelamento” uma vez que espetáculo catártico que procura um culpado, não justiça. Qual seria o papel do teatro nesse ecossistema?

O teatro também tem a função de restituir “espessura” às coisas. Deve subsistir um propósito em toda produção, em cada texto e em toda encenação. Eu acredito e escolho projetos assim. Enquanto o cancelamento opera na simplificação (reduzindo um ser humano ao seu erro, ao seu rótulo, ao seu “recorte”), o teatro faz o movimento contrário: ele adiciona camadas, ele devolve tempo, corpo, silêncio, incerteza. Ele lembra que pessoas não cabem em manchetes. E nesta peça tentamos fazer isso, um chamado para a reumanização, para que pensemos antes de indicar o dedo e tenhamos mais informações antes da pena virtual.

Quando o cancelamento vira catarse coletiva, há uma ilusão de justiça, mas o que se procura, muitas vezes, é um refrigério emocional rápido: encontrar o culpado, estourar a bolha da indignação e seguir para o próximo caso. É uma justiça sem responsabilidade nenhuma e sem consequências para quem julga.

O teatro, por sua vez, nos obriga a mourejar com o indumento de que todos nós podemos ser vítimas, algozes ou testemunhas ou cúmplices, dependendo da cena e da narrativa que se constrói ao nosso volta. Esta peça não oferece saída fácil, mas oferece a possibilidade de pensar. No termo, é isso que me interessa, que a peça abra um espaço onde possamos pensar antes de sentenciar.

Teatro Estúdio – rua Mentor Nébias, 891, Campos Elíseos, região mediano. Ter. a qui., 20h. Até 5/3. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br



Folha

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