Hermeto pascoal, morto aos 89, foi universal em sua música

Hermeto Pascoal, morto aos 89, foi universal em sua música – 14/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Uma mito da música brasileira, comemorado dentro e fora do país, Hermeto Pascoal morreu neste sábado (13), aos 89 anos. A motivo da morte não foi revelada.

Divulgado porquê o bruxo dos sons, tanto pelo visual com barba e cabelos compridos quanto pelas habilidades fora do geral com os instrumentos, Hermeto marcou seu nome na história com uma abordagem jazzística para a música brasileira. Ele compunha e tocava a partir da improvisação, tendo porquê base os ritmos musicais feitos no Brasil, e foi até a morte um protector ferrenho da espontaneidade porquê motor da geração artística.

Seu estilo único, razão do reconhecimento que recebeu por décadas ao volta do mundo, tornava difícil a missão de qualificar sua música em gêneros pré-estabelecidos. Em lojas de discos, era mais fácil encontrar sua obra na sessão de jazz ou de música brasileira, mas para Hermeto sua arte poderia ser definida simplesmente porquê “música universal”.

Mais do que a sonoridade de seus álbuns e faixas, a classificação resumia a maneira de o artista pensar e abordar a música. Ele não tocava muito somente instrumentos, mas qualquer coisa —uma chaleira, uma garrafa, um tamanco, um serrote, um porco, vegetação ou a própria barba. Em sua visão, havia música no fragor de insetos e do trânsito de São Paulo.

Isso não quer expor que Hermeto gravava ruídos e sons estranhos e os chamava de música. O exotismo de seus experimentos com essas texturas sonoras inusuais eram chamarizes para o coração de sua frase —as construções harmônicas intrincadas que impressionaram de Elis Regina a Miles Davis e serviram de munição para seus críticos.

“Só pode dar pancada em instrumento quem sabe o que é dó maior”, ele disse, em 2004, à revista Continente, de certa forma se defendendo da pecha de músico extravagante, que para muita gente o resumia à imagem de um maluco balbuciando sons em uma bacia enxurrada d’chuva.

Mas a verdade é que o próprio Hermeto não sabia expor o que é um dó maior quando começou a batucar insetos no interno de Alagoas. Ele nasceu em 1936 em Olho d’Chuva, um entre dezenas de povoados que integram o município de Lagoa da Canoa. Até 1962, quando se emancipou, era um província de Arapiraca, a segunda maior cidade do segundo menor estado do Brasil.

Se hoje a maior secção da população de Lagoa da Canoa vive na zona rústico, naquela quadra era mais ainda. Nascido albino e com dificuldade para enxergar, Hermeto passou a puerícia sem iluminação elétrica à noite e com dor nos olhos sob o sol possante no bravio nordestino. Só conseguia jogar futebol no término de tarde, quando a luz era menos intensa.

Brincava com os sons da natureza e dizia que os animais eram seu público, mas também ouvia música no ofício de seu avô, ferreiro, e aprendeu o instrumento do pai —a sanfona. “Já nasci música, não fiz zero que não tivesse música”, ele disse à Folha no ano pretérito. “Montar num cavalo e trespassar andando é música. Uma cor, um esboço num papel, tudo isso vale porquê música.”

Nos últimos anos, vira e mexe circulou nas redes sociais um vídeo dele numa lagoa tocando flauta —e a própria chuva. Trata-se de um trecho réplica de sua relação músico com a natureza, retirado do filme “Sinfonia do Sobranceiro Ribeira”, de Ricardo Lua, de 1985.

Hermeto deixou Lagoa da Canoa nos anos 1950 para tentar a vida porquê artista em Recife, ao lado do irmão mais velho, José Neto. Começou a trabalhar porquê músico de rádio, aos 14 anos, substituindo outro gênio albino da música brasileira, Sivuca —que na quadra tinha 20, e com quem era frequentemente confundido pela semelhança física.

Dali em diante, Hermeto não parou. Rodou o Nordeste tocando em orquestras, rádios e eventos até se mudar para o Sudeste —primeiro para o Rio de Janeiro, em 1958, e depois para São Paulo, nos anos 1960. Integrou o Quarteto Novo, tocando flauta ao lado de Theo de Barros, Heraldo do Monte e Airto Moreira, com quem gravou o único disco do grupo em 1967.

Foi com Airto Moreira e sua mulher, Flora Purim, aliás, que ele foi aos Estados Unidos ainda no término daquela dez. Conheceu Miles Davis, de quem Airto era percussionista, e ganhou da mito do jazz o sobrenome de “crazy albino”.

A atração entre eles foi tanta que Davis chegou a gravar com Hermeto —e de Hermeto. Três das oito faixas de “Live – Evil”, lançado em 1971, foram compostas pelo alagoano, ainda que no LP original todas elas tenham sido creditadas ao americano. As músicas são “Little Church”, “Selim” e “Nem um Talvez”. Hermeto, que só é citado porquê instrumentista, nunca reclamou da falta de créditos. Tratava o americano com um companheiro a quem sempre admirou.

De volta ao Brasil, estabeleceu residência em Bangu, no Rio de Janeiro, com a mulher Ilza, que ele conhecera ainda em Recife. A lar do parelha era divulgado ponto de encontro de músicos, abastecidos com a lendária feijoada da mulher de Hermeto. Ele dizia que ela cozinhava porquê ele tocava —espontaneamente, sem seguir receitas.

Até o ano pretérito, Hermeto nunca parou de gravar e tocar regularmente. Do jazz, emprestava a liberdade e o improviso, assim porquê as dinâmicas de intensidade —que cresciam ou diminuíam a partir da interação com os músicos. Mas os caminhos melódicos e as bases rítmicas sempre estiveram conectados com música brasileira, do baião à bossa novidade.

Em “A Música Livre de Hermeto Pascoal”, um de seus grandes álbuns, de 1973, gravou suas versões de “Asa Branca” e “Carinhoso”. Em “Lagoa da Canoa Município de Arapiraca”, de 1984, relê o frevo de Pernambuco e Alagoas. Em “E Sua Visão Original do Forró”, reforça a conexão com o baião.

O músico também nunca largou o hábito de tocar coisas. Em seu primeiro disco, de 1970, usou dezenas de garrafas afinadas com chuva. Em “Brincando de Corpo e Psique”, de 2012, gravou partes do corpo —assovios, palmas e batimentos cardíacos, entre outros.

Mas talvez seu maior experimento tenha sido com animais. Ele primeiro tentou, sem sucesso, tocar um porco num show em plena ditadura militar.

Só conseguiu realizar a teoria nos Estados Unidos. Ele estava gravando o disco “Slave Masses”, de 1977, quando descobriu uma família que criava o bicho porquê um cachorro. Airto Moreira teve a missão de extrair os sons do bicho na gravação.

“A muchacho da família chorou achando que ia fazer alguma coisa, percutir no porco”, ele disse a oriente repórter no pretérito. “Aí falei para os pais que é música, seu porquinho vai fazer música. A muchacho ficou assistindo, da técnica, ao Airto mexendo com o porco porquê eu pedia para ele mexer. Eu digo, ‘mexe na ouvido’, e tudo isso gravando. Tiramos som do porco todo. Foi uma sensação eterna —é até hoje.”

Outra história famosa do bruxo tem a ver com Elis Regina. Há 45 anos, os dois protagonizaram uma performance memorável no Festival de Montreux, na Suíça. Depois do show com seu grupo, eles apresentaram juntos “Pequena de Ipanema”, “Asa Branca” e “Corcovado”.

O alagoano martelou o piano com dissonâncias e caminhos melódicos zero óbvios, enquanto a cantora

se virava para escoltar. Até hoje se comenta que Hermeto estaria pregando uma peça em Elis. Mas ele a chamou de “cantora mais músico que acompanhei na vida”, enquanto ela o descreveu porquê um deus numa entrevista da quadra.

Essa apresentação é um bom exemplo do apelo incomum de Hermeto —mormente em cima do palco. Ele não costuma seguir roteiros, e quem tocava em sua margem tinha que se afazer ao ritmo.

Seus shows poderiam porfiar horas a fio —só tinham hora para estrear. Abundam também as histórias de que em várias apresentações Hermeto e sua margem simplesmente saíam tocando pelo meio da rua acompanhados pelo público. Até o término da vida, o brasílio foi atração em festivais espalhados pelo mundo.

Sua abordagem incomum da arte o pôs em rota de colisão com gigantes da nossa música. O famoso crítico José Ramos Tinhorão afirmou que suas canções eram originais, mas não chegavam a desfecho alguma.

Até mesmo Caetano Veloso chegou a ter embates com o bruxo —enquanto o baiano era partidário da música popular e apreciador dos sons dos Estados Unidos, o alagoano via mais valor na produção tida porquê regional ou folclórica do Brasil.

Era um embate conceitual entre o popular e o erudito, a cultura brasileira pura e o hibridismo do tropicalismo. Ainda assim, é verosímil expor que ambos, de alguma forma, se alimentaram desses dois mundos.

Em “Estrangeiro”, Caetano cita na letra Hermeto, dizendo que o albino “não enxerga muito muito”, em versos em que também fala de deficientes visuais —Ray Charles e Stevie Wonder. Em “Podres Poderes”, também fala do alagoano no verso “será que somente os Hermetismos Pascoais/ Os Toms, os Miltons, seus sons e seus dons geniais/ Nos salvam, nos salvarão dessas trevas/ E zero mais?”.

Hermeto sempre foi tido porquê um artista de difícil compreensão —o que não chega a ser pataratice. Mas sua abordagem da arte sempre esteve mais ligada a sentimentos e sensações do que a elaborações conceituais, sociais ou políticas.

Mais do que um compositor original e absolutamente inventivo, e um instrumentista de talento reconhecido mundo afora, Hermeto sempre foi um estatuário da vida em estado bruto. Para ele, desde que chocou sua mãe ao tocar “Asa Branca” com ferrinhos do avô, ainda muchacho, a música sempre foi uma extensão da existência —e vice-versa.

Com seu jeitão matuto, adorava se gabar por ter ganhado o título de doutor honoris motivo da Julliard, uma das mais importantes instituições de música dos Estados Unidos, em Novidade York, em 2023. Mas Hermeto nunca coube em títulos. Uma vez que dizia da música que fez, foi universal.

Folha

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