Hip hop vai à armênia em dança inspirada em a cor

Hip-hop vai à Armênia em dança inspirada em A Cor da Romã – 09/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Um invitação para uma viagem à Armênia, a invenção da obra do cineasta cult Sergueï Paradjanov, um coreógrafo gálico de pais argelinos que une a dança contemporânea ao hip-hop: assim nasceu “La Couleur de la Grenade” (“A Cor da Romã”, em tradução livre), espetáculo que a companhia Käfig, dirigida por Mourad Merzouki, apresenta em São Paulo nesta terça, 9, e quarta, 10.

Merzouki foi iniciado nas artes marciais e circenses aos sete anos e, na juvenilidade, descobriu o hip-hop. O passo seguinte foi a ingressão no mundo “solene” da dança, em que virou um dos primeiros coreógrafos a levar as danças urbanas para os grandes palcos e festivais.

A ingressão do hip-hop na cena não foi fácil, era preciso provar que não era alguma coisa somente das ‘batalhas’ [competições de danças urbanas], mas alguma coisa que tanto interrogava quanto se abria às outras linguagens, segundo o coreógrafo.

“Foi difícil, mas preciso expressar que a dança em universal enfrenta dificuldades. Há muitíssimas companhias [na França], o público patroa [assistir] dança e eu amaria expressar que a ela vai muito, mas o contexto econômico e político fragiliza os dançarinos e as companhias, que lutam por patrocínio e divulgação”, afirma Merzouki em entrevista à Folha, ecoando uma preocupação recorrente dos artistas e grupos brasileiros.

A situação não é exatamente a de sua companhia, que já criou tapume de 40 espetáculos, apresentados em mais de 65 países e foi a responsável pela coreografia de início dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024.

Entre dois territórios

O intercepção de hip-hop, circo, artes marciais, artes plásticas, vídeo, músicas ao vivo e eletrônica –hoje já incorporado à linguagem da maioria das companhias contemporâneas– que fez a notabilidade de Mourad é explorado ao sumo em “La Couleur de la Grenade”, criando atmosfera quase surrealista que marca o filme inspirador de Paradjanov, lançado em 1969. A teoria original do espetáculo foi concebida por Saté Khachatryan, diretora da Saté-Atre.

No palco, princesas armênias vestidas em brocados e rendas brancas ou cidadãos de casaca contracenam com bolas de pilates prateadas, livros espalhados pelo soalho, tapeçarias antigas, ora em movimentos no solo típicos da dança contemporânea, ora em saltos de uma escada mais próximos da acrobacia.

“Esta é uma obra privado, porque foi criada entre dois territórios, a França e a Armênia, e tive de pensar em um espetáculo que unisse as duas culturas. Queria mostrar a riqueza da cultura armênia sem fabricar um cartão postal, e fazer um link com a cultura francesa”, diz Merzouki.

De novo a mistura de linguagens que, dessa vez, trouxe um novo repto ao coreógrafo, já que a cultura armênia, diferentemente da francesa contemporânea, está a milhas de intervalo da cultura hip-hop. Para transformar a teoria em alguma coisa físico, ele fez algumas viagens à Armênia (a primeira foi em 2022, a invitação de Khachatryan), teve encontros com artistas locais e, principalmente, se apoiou nas imagens vanguardistas e cores do filme inspirador de Parajanov.

O encontro de culturas se dá também na própria formação da companhia, formada por bailarinos de diferentes nacionalidades. Mourad, inclusive, criou vários espetáculos com jovens dançarinos cariocas, que conheceu na Bienal de Dança de Lyon, em 2006.

Desse encontro surgiram os primeiros espetáculos com elenco todo formado por brasileiros, “Correria” e “Agwa”, seguidos de “Käfig Brasil”, criado em colaboração com outros coreógrafos, e “Boxe boxe”, um projeto que une movimentos do boxe à música clássica.

Mais um exemplo de Merzouki saindo da “jaula” (“käfig”, em teutónico). Hoje nome da companhia, foi inicialmente título de uma coreografia que tratava do sentimento de encarceramento. “Muitos jovens que vinham do hip-hop sentiam isso, que sua dança estava confinada aos bairros periféricos e o repto era fazer ela viajar e se conectar com o resto do mundo”, conta.

O nome foi guardado porquê recordação dos primórdios da companhia, mas também porquê um contraponto, com um tanto de ironia, para o que o hip-hop e a companhia se tornaram: uma forma de início, de ultrapassar fronteiras, seja as das linguagens artísticas, seja as da França, Armênia ou Brasil.

Folha

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