Honey, Não! é filme devasso para padrão do cinema dos

Honey, Não! é filme devasso para padrão do cinema dos EUA – 08/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“Honey, Não!”, segundo longa de ficção dirigido somente por Ethan Coen, depois “Bonecas em Fuga”, de 2024, procura explicitar ainda mais a postura contrária ao conservadorismo atual da sociedade americana.

A protagonista é novamente uma lésbica interpretada por Margaret Qualley. Temos uma representação frontal do sexo, com cenas de nudez e a presença de um pênis de borracha, sobra da coleção de membros de borracha do filme anterior.

Temos ainda um reverendo, interpretado por um jocoso Chris Evans, que transa com todas as mulheres por perto, e olhares de voluptuosidade distribuídos em quantidade por diversos personagens. Um filme devasso para os padrões do cinema americano atual.

Acompanhamos de perto a detetive pessoal Honey O’ Donahue, personagem de Qualley, que passa a investigar crimes relacionados a uma igreja misteriosa, frontispício para operações envolvendo drogas e prostituição.

Honey encontra pelo caminho personagens que parecem saídos de policiais dos anos 1970, tipos com bigode fazendo piadinhas na frente de um defunto enquanto bebem moca. O machismo está à sua espreita, mas ela triunfa com sabedoria e esperteza.

Comparada à personagem de Qualley em “Bonecas em Fuga”, Honey é mais desenvolvida, oportunidade única para a atriz mostrar, talvez pela primeira vez em sua curso, sua técnica e seu talento. Por outro lado, é o tipo de personagem que é um presente para qualquer atriz, permitindo o melhor de cada uma.

Visualmente, o filme tem a mesma cor de deserto, a mesma quentura exasperante do anterior, uma sequidão que salienta o termo de mundo violento e opressivo em que vivem.

Está tudo muito simples para Ethan Coen: por trás da novidade direita conservadora americana, a que não hesita em concordar Donald Trump mesmo sabendo de seu autoritarismo e de seus crimes, há um grupo de hipócritas, eventualmente até corruptos.

O namorado violento da sobrinha de Honey tem no carruagem um adesivo com as inscrições MAGA (Make America Great Again), slogan supremacista de Trump. Provocativa, Honey cola por cima o adesivo com a matrícula: “Eu tenho uma vagina, e eu voto”.

MG Falcone é o nome da policial que cuida dos arquivos. Esta personagem de Aubrey Plaza se torna amante de Honey, é importante e, ao mesmo tempo, um fator de desilusão na trama, porquê o testemunha irá deslindar no desenrolar da história personagem.

Por um lado, é bacana ver a relação entre as duas, a variação de tons e emoções que a dupla consegue em cena. Por outro, há uma facilidade na maneira porquê se resolve essa relação, ainda que a atuação de Plaza valorize o momento difícil da viradela de sua personagem.

O humor segue a traço dos melhores trabalhos dos irmãos Coen, e até as citações podem fazer secção desse humor. Há, aliás, citações a “O Portal do Paraíso”, a “Kill Bill” e a outros filmes, num caldeirão referencial muito variado, ainda que aparentemente restrito a Hollywood.

Há bobagens porquê um personagem atirando com uma mão no reverendo picareta e tapando os olhos com a outra, porquê se quisesse errar e dar a oportunidade de ser assassinado por ele.

Esse mesmo personagem, momentos antes, havia matado sem querer um varão que se recusou a remunerar por uma entrega, dando ré em seu viatura e o arrastando por alguns metros num estacionamento.

Esse tipo de morte espetacularizada pelo humor é uma espécie de marca registrada dos Coen, e é apropriada por Ethan porquê se intencionasse gerar um vínculo com a obra pregressa, que, finalmente, também era sua, embora no primórdio ele só assinasse porquê produtor.

Há ainda um incidente tocante com o pai que retorna e é confundido com um assediante sexual pela neta. Personagem solitário, típico rejeitado que vive nas bordas do capitalismo, é o único varão mostrado de modo positivo, embora o policial com quem Honey troca informações comece a se mostrar simpático no decurso do filme.

O maior valor de “Honey, Não!” é procurar um retorno à idade em que o cinema americano era mais adulto, ou seja, anos 1960 e 1970, sem exatamente fazer um filme daquela idade.

Os sinais da contemporaneidade estão espalhados pelo filme –nos carros, videogames, utensílios domésticos, menção a Covid e celulares— porque é da atualidade que Coen quer tratar. Para melhor fazer esse tratamento, procura voltar a um espírito mais crítico, distante da infantilidade presente no cinema atual dos Estados Unidos.

Curiosamente, a assinatura “directed by Ethan Coen” marca de uma autoria, quer se queira ou não a substanciar, aparece porquê um borrão enquanto um carruagem cai no precipício, e logo some. Indicativo, talvez, de um salto no queda, do transe de se fazer um filme dessa maneira, com esse texto, em 2025.

Não é de todo bem-sucedido na empreitada, mas é salutar que um cineasta, tendo conseguido um posto considerável na indústria cinematográfica, arrisque-se dessa maneira.

Folha

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