Houve pressão para que não falasse, diz crítico de israel

Houve pressão para que não falasse, diz crítico de Israel – 01/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O esquema de segurança reforçado, com revista individual feita com detectores de metais, montado para a participação do historiador israelense Ilan Pappe, nesta sexta (1), não deixava dúvidas sobre a mortificação em torno de sua presença na 23ª edição da Sarau Literária Internacional de Paraty.

“Houve pressão para que eu não falasse cá nesta noite”, afirmou Pappe em sua primeira fala. “Sou grato ao festival por ter permitido que a gente pudesse discutir a questão palestina de maneira livre e democrática.”

Judeu israelense nascido em Haifa em 1954, Pappe é um dos críticos mais ferrenhos de Israel e expoente de um movimento de historiadores israelenses conhecidos por uma novidade historiografia, feita a partir de achados nos arquivos oficiais do país.

Sua pesquisa de documentos oficiais do governo israelense respaldou conclusões contundentes, “uma vez que a que dá título a um de seus livros lançados no Brasil, “A Maior Prisão do Mundo: Uma História dos Territórios Ocupados por Israel na Palestina”, lançado pela editora Elefante. À Folha, o diretor artístico da Flip, Mauro Munhoz, afirmou ter recebido “algumas manifestações elegantes” de pessoas ligadas à comunidade judaica que sugeriram a inclusão de outro convidado que fizesse contraponto a Pappe.

A reportagem apurou que foram três as manifestações de pessoas ligadas à comunidade feitas em nome de organizações e coletivos judeus. “A curadoria da Flip tem autonomia, e isso é um princípio fundamental. Está no nosso DNA. Não temos a pretensão de ser um seminário acadêmico sobre o tema”, explicou Munhoz. “A Flip é conhecida pelos debates e pluralidade de visões. Há um profundo reverência pela cultura judaica. Já recebemos muitos autores israelenses e judeus.”

Outras agendas do historiador no Brasil também sofreram com manifestações contrárias à apresentação de Pappe. Na noite da última quinta, o diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Adrián Pablo Fanjul, recebeu uma missiva da organização judaica internacional Bnai Brith na qual expressa “profunda preocupação” diante da palestra de Pappe programada para a próxima terça (5) na Morada de Cultura Japonesa da universidade.

O texto afirma que Pappe é espargido por discursos “agressivos, que extrapolam os limites da sátira política legítima” e alimentam o “antissemitismo contemporâneo”. “Fiquei surpreso. Entendo que haja divergências sobre o que acontece hoje na Palestina, mas o que é inédito é o pedido de cancelamento”, disse o Fanjul à Folha, que é judeu e classificou a situação uma vez que “insólita”.

Outra agenda de Pappe na capital paulista acontece na quarta (6) na Faculdade de Recta da USP. O ato em solidariedade ao povo palestino foi inicialmente programado para o Salão Sublime do prédio no largo São Francisco, mas acabou relegado à sala dos estudantes, mesmo com a participação do ex-ministro do STF Francisco Rezek e da relatora próprio da ONU, Francesca Albanese.

Em postagem em seu perfil numa rede social, a professora da Faculdade de Recta Eunice Prudente, ex-secretária de Justiça da gestão Ricardo Nunes na prefeitura, afirmou que não autorizou o uso de seu nome no material de divulgação do ato político do dia 6 e que é solidária com as “vítimas da crise humanitária em Gaza, ao mesmo tempo em que expressa profunda preocupação com a escalada da violência antissemita no mundo, incluindo o Brasil”.

Ao apresentar Pappe na introdução da mesa na Flip, a curadora Ana Lima Cecílio disse que a escolha do historiador foi a “decisão mais importante que fizemos uma vez que curadoria”.

Entrevistado pela historiadora Arlene Clemesha, professora do Departamento de Arábico da USP, Pappe contou que teve uma puerícia e juvenilidade tradicional e que partilhava “da ideologia, das narrativas e da maneira israelense de olhar para a verdade do pretérito e do presente de Israel” até os 20 anos e poucos anos.

Ao escolher a historiografia e se interessar pela pesquisa sobre seu próprio país, Pappe conta ter feito descobertas que contradiziam tudo o que ele tinha aprendido na escola, na família e na universidade. Ele conta ter sido ingênuo ao imaginar que suas descobertas seriam muito recebidas entre israelenses e, confrontado, disse ter escolhido continuar a pesquisar e a “desafiar a narrativa israelense sobre sua história”.

“Sentia que tinha responsabilidade pelas coisas terríveis que estavam sendo feitas em meu nome”, disse. Pappe labareda esse processo de uma jornada moral, que o levou a ser expulso da Universidade de Haifa, onde lecionava há mais de 20 anos, e a se mudar para a Inglaterra, onde hoje leciona na Universidade de Exeter. Em sua estudo, Pappe afirma que a teoria de um estado judeu na Palestina, em meio ao mundo mouro, era um projeto europeu, e não judeu.

Pappe afirma que a geração de um movimento sionista na Palestina se desenvolveu uma vez que um movimento de colonialismo de povoamento, que se caracteriza pela ocupação de territórios dos quais se quer “livrar da população originária”. Essa eliminação dos nativos de territórios ocupados ele labareda de limpeza étnica da Palestina, quando, em 1948, centenas de milhares de palestinos foram expulsos de suas terras.

Ao apender novas terras em 1967, Israel teria ganhado território mas também uma população indesejada. “Em vez de expulsarem 2 milhões de palestinos, resolveram colocá-los em prisões para que eles não fizessem segmento da demografia lugar.”

Para Pappe, Gaza é um campo de refugiados gigante com um protótipo prisional estabelecido. “Os palestinos não ficaram passivos diante disso. Houve a primeira Intifada, depois uma segunda e os ataques de 2023 podem ser considerados um terceiro levante.”

O historiador diz que os locais mira dos ataques de 7 de outubro de 2023, que mataram 1.200 pessoas em Israel, haviam sido construídos sobre as ruínas de vilas palestinas destruídas em 1967. “Isso não justifica a violência que foi praticada ali, mas é preciso tratar do contexto. As pessoas em Gaza vivem sob um regime que não se vê desde a Segunda Guerra Mundial”, afirmou. “Os palestinos estão em vias de extinção.”

Folha

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