Hudinilson Júnior tem boca e pênis estampados em outdoors

Hudinilson Júnior tem boca e pênis estampados em outdoors – 15/03/2026 – Plástico

Celebridades Cultura

Nus, dois manequins, um sem braços e outro sem cabeça, parecem vigiar o ateliê povoado por desenhos de outras figuras masculinas, também sem roupas. Em cima da mesa, o rosto de mármore branco de uma mulher tem os olhos tapados por duas mãos escuras coladas à peça, num ato de repreensão.

O registro inédito do que restou do apartamento paulistano de Hudinilson Júnior, um dos nomes mais radicais da performance e da arte homoerótica do país, está numa série de novas fotografias de Mauro Restiffe, que desvendam o lar desse artista que pôs o próprio corpo na risco de frente de sua arte, muitas vezes entrelaçado com os descaminhos da metrópole.

Essas imagens, feitas no rastro da desmontagem do macróbio lar do artista, sublinham a força de suas próprias obras numa das sinais mais ambiciosas da galeria Martins&Montero, em São Paulo. Desejo, no caso, em termos de graduação e ousadia, já que nos jardins do espaço que a morada tem uma vez que sede num dos bairros mais nobres da cidade estarão instalados outdoors com zero menos do que uma visão da boca e outra do pênis do artista, imagens de suas famosas séries de fotocópias do próprio corpo.

No auge da chamada “body art” e movido pelas possibilidades de novas tecnologias, Hudinilson Júnior fez uma série de performances em que se debruçava e se esfregava nu sobre uma máquina de Xerox, criando imagens insuspeitadas do choque entre varão e máquina, ângulos tão obscenos quanto abstratos da anatomia masculina, num inextricável de pelos e pele que chocou à idade, não deveria pupular mais dada a morticínio desatada do mundo, mas ainda arrisca ser um tabu.

O artista, morto há pouco mais de uma dez, sofreu repreensão em vida, ato esse que inspirou até uma versão de suas famosas fotocópias do corpo em que, sobre a imagem do pênis, ele aplicou um sinete com os dizeres “pinto não pode” em letras maiuscúlas cor-de-rosa, subindo um degrau na provocação.

É na contramão dessa asseveração que Jaqueline Martins e Maria Montero, as galeristas por trás da mostra, operam agora, erguendo no coração dos Jardins, no jardim de seu casarão, um outdoor com uma imagem semelhante, sem nenhuma legenda censora, rompendo com a graduação íntima do original para escancarar um pormenor do corpo numa vitrine ocasião à graduação urbana.

Não é provocação barata. Quem se lembrar da atuação de Hudinilson Júnior no coletivo 3NÓS3, parceria dele com os artistas Mario Ramiro e Rafael França, pioneiro da videoarte e um dos grandes artistas queer do país, não deve estranhar o que significa questionar a vitalidade do corpo em terreiro pública, ou melhor, denunciar violações contra o corpo público e político diante de olhares que atravessam a estádio.

Na viradela da dez de 1970 para a de 1980, já nos estertores da ditadura militar mas ainda longe do término da repreensão que persistiu uma vez que zumbi rondando a arte do país mesmo depois de sepultado o regime, eles encapuzavam com sacos plásticos uma série de estátuas em praças da cidade. Eram atos clandestinos, feitos na madrugada, sem autoria declarada, embora os próprios artistas depois denunciassem os flagras de vandalismo, uma vez que testemunhas anônimas, à polícia e à prelo.

Vigiar e punir, vituperar e castrar, eram valores em choque com a liberdade irreverente, irrefreável e avassaladora no coração das obras de Hudinilson Júnior, figura do underground maldito paulistano valorizado pelo mercado só depois de morto uma vez que um dos grandes inovadores da nossa performance, uma obra em atrito e diálogo com o melhor da performance de sua idade pelo mundo.

Tanto que, no exterior, sua obra continua galgando espaços. O Museu de Arte Contemporânea de Barcelona e o Walker Art Center, em Minneapolis, nos Estados Unidos, acabam de comprar alguns de seus trabalhos. Hudinilson Júnior também já estava no ror do Museu de Arte Moderna de Novidade York, o MoMA, do Reina Sofía, em Madri, do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, além do Masp, da Pinacoteca do Estado de São Paulo e do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, nascente último, aliás, o lugar onde ele começou seus experimentos com as máquinas fotocopiadoras.

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Folha

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