Imóvel de 'O Agente Secreto' é alvo de litígio no

Imóvel de ‘O Agente Secreto’ é alvo de litígio no Recife – 14/11/2025 – Ilustrada

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Numa das cenas iniciais de “O Agente Secreto”, quando o personagem de Wagner Moura chega ao prédio onde se hospedará em sua volta ao Recife, uma orquestra de frevo toma conta do quintal do lugar, e todos caem na dança.

É Carnaval, e a sarau contrasta com a tensão do retorno ilegal do protagonista –estamos em 1977, em plena ditadura. Não à toa, os hóspedes do predinho de três pavimentos são chamados no filme de “refugiados”.

Embora a câmera se concentre na folia, é verosímil ver a ampla extensão da locação, com solo de terreno e rodeada de árvores, quase um pequeno sítio.

Na vida real, esse espaço ao ar livre é cândido de uma disputa judicial que se desenrola há quase 22 anos, e na qual tanto Wagner Moura quanto o diretor do longa, Kleber Mendonça Rebento, tomam partido pelo lado até agora derrotado, o dos moradores do prédio Ofir.

Porquê se lê no bilhete que o protagonista leva até seu refúgio, o prédio imaginário manteve o mesmo nome daquele que existe até hoje no bairro do Espinheiro, zona setentrião da capital pernambucana.

Uma das principais locações de “O Agente Secreto” —vencedor de dois prêmios no Festival de Cannes e cotado a outros no Oscar—, o prédio Ofir aparece em várias do filme, tanto internas —no apartamento em que o personagem de Moura passa a morar com os demais “refugiados”— quanto externas.

Em 2004, herdeiros dos proprietários do terreno em que foi construído o Ofir entraram na Justiça com uma ação de reintegração de posse contra os donos dos apartamentos do condomínio para reaver a extensão externa.

Alegavam que, na era da construção, nos anos 1960, o espaço foi doado em comodato aos moradores, “por prazo indeterminado, a termo de que o utilizassem porquê garagem para veículos”, pois o prédio “se confina com o terreno” —mas que a extensão, na verdade, lhes pertence, e não aos condôminos.

Estes, por sua vez, argumentaram que os autores da ação nunca exerceram a posse do espaço, que por décadas foi extensão de uso geral, tanto garagem porquê espaço de lazer e salão de festas.

Em 2007, a ação foi julgada improcedente em primeiro proporção, na 6ª Vara Cível do Recife, ou seja, favorável aos moradores. O juiz Ricardo Pessoa dos Santos considerou que os herdeiros dos proprietários “não comprovaram a sua quesito de possuidores”, enquanto os condôminos sempre usufruíram do lugar.

A decisão foi revertida na segunda instância, em 2009. Embora tenha reconhecido que os autores da ação “nunca exercitaram a posse sobre o imóvel”, o desembargador Eloy d’Almeida Lins, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJ-PE), julgou que eles demonstraram ter domínio sobre o muito.

O Superior Tribunal de Justiça manteve a decisão do TJ-PE, e o processo transitou em julgado —não cabe mais recurso. Mas, numa cartada final, os moradores entraram com uma ação rescisória, que procura anular a decisão. Alegam violações a artigos do Código Social e do Código de Processo Social e pedem nulidade de atos do processo pelo veste de uma moradora morta não ter sido substituída porquê ré por sua herdeira.

Essa ação de “tudo ou zero” está à espera de uma decisão do TJ-PE e, enquanto isso, os moradores conseguiram uma liminar suspendendo o cumprimento da sentença. Têm esperança de que a euforia em torno de “O Agente Secreto” e o espeque do diretor e do ator principal do filme à sua culpa possam provocar uma reviravolta no caso.

Por trás do juridiquês de tantas decisões, está uma disputa que diz reverência tanto à posse de um imóvel quanto à especulação imobiliária, ao patrimônio afetivo e à memória. São questões que permeiam a cinematografia de Kleber Mendonça Rebento, sobretudo o filme “Aquarius”, no qual uma moradora, vivida por Sônia Braga, resiste à pressão de uma construtora para comprar seu apartamento no edifício-título, último tropeço à construção de um arranha-céu no lugar de um predinho na orla recifense. É porquê se o Ofir fosse o Aquarius de “O Agente Secreto”.

“Os herdeiros [autores da ação] se juntaram a especuladores imobiliários, e a única forma de fazerem um empreendimento grande é tomando essa extensão do prédio, portanto arrumaram um artifício jurídico”, diz a promotora de Justiça Helena Martins, que morou por 30 anos no Ofir e é dona de dois dos seis apartamentos do prédio.

Segundo ela, nos últimos anos, construtoras mostraram interesse em fazer um grande condomínio na região, procurando proprietários de uma morada vizinha e os moradores do Ofir —estes rejeitaram as sondagens.

Para Martins, o objetivo é deixar Ofir ilhado no terreno e portanto pressionar para que os apartamentos sejam vendidos —assim porquê em “Aquarius”— e no lugar seja levantado um multíplice de arranha-céus.

“Minha luta é para preservar o Ofir porquê está”, afirma a promotora, que diz ter apego a prédios antigos e também tem um apartamento no prédio Oceania, no bairro do Pina —o Aquarius do filme— e cedeu um dos seus imóveis no prédio do Espinheiro para as filmagens de “O Agente Secreto”. Martins é amiga de Kleber Mendonça Rebento e Wagner Moura.

Ao discorrer sobre o valor afetivo do lugar, ela conta que no quintal em disputa já aconteceram, nos anos 1970, dois casamentos celebrados pelo célebre vigário dom Hélder Câmara, que era companheiro de sua avó.

“Porquê eu já conhecia o Ofir, eu escrevi [as cenas] para aquele prédio. O prédio é um personagem no filme”, diz Mendonça Rebento à Folha. “É um espaço de vida, que faz segmento de um estilo de vida do século 20. É um lugar incrivelmente gigante, próprio, e do tipo que não existe mais, porque o mercado já decretou esse estilo de vida porquê obsoleto.”

“Não sei porquê a cidade pode lucrar com mais um prédio sem identidade, sem personalidade, tomando o lugar de um prédio do século 20 que é ainda plenamente habitado e que oferece um outro tipo de estilo de vida, dentro da própria cidade. Logo é simples que eu defendo qualquer tentativa de preservar esse espaço”, diz o diretor.

O legista dos autores da ação, Márcio Américo de Miranda, afirma que seus clientes “são três pessoas físicas que têm uma quesito financeira equiparada talvez até à dos moradores”. “Porque pode parecer que são três megaempresários do ramo imobiliário contra um prédio, mas na veras são pessoas a quem esse terreno fez bastante falta”, diz.

Desses três, afirma Miranda, dois morreram durante o curso do processo —o muito integraria, portanto, seus espólios— e a terceira é uma senhora de 90 anos. Segundo o legista, não há negociação com construtoras sobre o porvir do terreno. “Construtora nenhuma vai querer negociar no meio de uma disputa.”

O protector dos herdeiros dos proprietários originais também diz que não há em curso nenhum processo de tombamento ou proteção próprio do Ofir –porquê houve com o Oceania, depois da repercussão do filme. “O que está se discutindo é única e exclusivamente a questão da titularidade. Por que foi feito um filme lá portanto você vai ter que doar seu terreno? Não me parece que isso seja razoável, né?”

Miranda rejeita a conferência com o caso de Aquarius. “Ali a história era muito mais romântica, era formosa. Cá nós temos três idosos, e dois deles faleceram sem ter o recurso do terreno, e do outro lado temos os moradores que querem receber o terreno sem ter pago por isso. Aquarius foi uma história interessante. Essa cá não dá um filme permitido, não.”

Colaborou Teté Ribeiro

Folha

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