O produtor Raymundo Bittencourt decidiu fazer uma necessária ordem no estúdio que ele tem no Rio de Janeiro com Roberto Menescal. Num dos armários, encontrou alguma coisa que se transformaria no mais recente tesouro músico desvelado, gravações inéditas de Nara Leão, morta em 1989, lançadas agora no álbum “A Bossa Rara de Nara”.
“Eu e meu assistente decidimos ver um monte de coisas que estavam nos armários. Fita cassete velha, DAT, fitas de duas polegadas. Não tem mais nem onde tocar isso. O Marquinho achou uma fita, rotulada porquê ‘Nara’. Bom, a única Nara que eu conheço é a Nara Leão. Vamos dar uma ouvida”, relata Bittencourt.
A voz inconfundível da musa da bossa novidade apareceu portanto em muitas canções. Não foi verosímil resgatar todas, a fita estava em péssimo estado. “Nós pegamos as que estavam melhores. Foi uma trabalheira para equalizar”, diz o produtor.
“Eu pensei: ‘Puxa, isso dava um disco da pesada!’. Portanto peguei essas músicas, fiz os arranjos, e no final a Universal Music gostou muito. Ainda muito que ainda tem gente que gosta de boa música. Fechamos o projeto com oito músicas. Esse material tem uns 50 anos.”
Bittencourt conhecia Nara, mas nunca trabalhou com ela. Já Menescal, proprietário de um dos violões que definiram o som da bossa novidade, fez inúmeros discos e shows com a cantora. Mas não tem nenhum registro desse material.
“Pelo que o Menescal me falou, deve ser de alguma coisa que ele estava produzindo. Uma sessão de músicas que a Nara gravou em outros projetos. Não temos referência nenhuma, de quando, onde e porquê o material foi gravado. Se o Menescal não sabe, eu muito menos.”
A melodia que simboliza a bossa novidade, “Chega de Saudade”, que deu o pontapé inicial do gênero ao ser lançada em 1958 por João Gilberto, está entre as músicas restauradas. Foi inevitável escolher essa tira para ser a primeira levada às plataformas no último dia 19, natalício de Nara Leão.
Uma vez que as outras, ela precisou de um trabalho de restauro perfeito de Bittencourt. “Eu só tinha voz e um violão longe, que você não consegue ouvir recta. Eu acho, para ser muito sincero, que o resultado ficou muito bom, a partir de uma voz tirada de uma fita antiga. Demorou quase uma semana para limpar o som.”
No repertório estão versões inéditas de canções que Nara gravou em várias fases da vida. Entre elas, o samba de Zé Keti “Diz que Fui por Aí”, transformada em bossa novidade no seu álbum de estreia, “Nara”, de 1964. Já “Retrato”, de Tom Jobim, lançada originalmente por Sylvia Telles em 1959, foi gravada também por Nara em 1977, em dueto com o próprio Tom.
“Manhã de Carnaval”, que ganhou o mundo na voz de Elizeth Cardoso ao fazer secção da trilha sonora do filme “Orfeu Preto”, em 1959, foi composta por Luiz Bonfá e Antonio Maria. É um dos marcos iniciais da bossa novidade, assim porquê “O Barquinho”, parceria de Menescal com Ronaldo Bôscoli, ex-namorado de Nara. A versão recém-encontrada é muito mais suave e solar do que a versão de Maysa, em 1961.
Talvez a tira menos famosa do novo álbum seja “Tristeza de Nós Dois”, melodia de Durval Ferreira, Bebeto Castilho e Maurício Einhorn, de 1960. Mas “Você e Eu”, um clássico de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra, esta, sim, tem uma valimento singular na curso de Nara.
Ela estreou no disco cantando essa música, num álbum de Lyra gravado em 1963, o clássico “Depois do Carnaval”. Ele ajudaria Nara de forma intensa no disco de estreia dela, no ano seguinte. Se Menescal foi um guru para Nara, Lyra foi uma espécie de paraninfo músico.
Para fechar “A Bossa Rara de Nara”, outra de Tom Jobim, “Wave”. Com ela, fica completo um álbum que pode servir porquê uma introdução plena ao gênero. Bittencourt reuniu músicos que o acompanham sempre em seu estúdio, Diógenes de Souza, no inferior, Leandro Freixo, nos teclados e na flauta, e João Cortez, na bateria.
São exímios e experientes instrumentistas, num trabalho minucioso levado pelo violão tocado pelo produtor. Menescal, porquê um “convidado de honra”, faz sutis vocais em “Chega de Saudade” e “O Barquinho”.
“Esse pessoal trabalha comigo há bastante tempo, pelo menos há uns dez anos. São excelentes. Não é um pessoal que chega, toca, pega o numerário e vai embora. Eles gostam de tocar, gostam do que eu faço e querem participar. O Diógenes me ajuda a grafar os arranjos, porque sou autodidata. Ele é um tremendo baixista e é emérito do Corpo de Bombeiros, olha só.”
“Eu tentei atrapalhar em zero ela cantando, fiz somente um comitiva”, explica Bittencourt. “Mas na bossa novidade existe uma coisa complexa. Você pega os caras que chegaram no primícias do movimento e depois saíram, porquê o Edu Lobo, de harmonias maravilhosas, o Marcos Valle, que seguiu depois um outro caminho, uma coisa mais samba, mais pop, tudo que fizeram é muito bom. Agora, da bossa novidade original mesmo, hoje só sobrou o Menescal.”
O álbum está nas plataformas digitais trazendo de volta a voz singular de Nara Leão. Uma vez que sempre, seu registro vocal é tranquilo, intimista e bonito. Agora, só resta pedir a Raymundo Bittencourt que continue a faxina. Quem sabe ele tenha outro tesouro da MPB para desencavar.
