Inteligência artificial chega à tv e borra cenas de chaves

Inteligência artificial chega à TV e borra cenas de Chaves – 25/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Marisa Maiô pode estar longe de ter um programa de verdade na televisão brasileira, mas isso não quer expor que a perceptibilidade sintético não tenha chegado às telinhas.

Personagem que viralizou com vídeos cômicos de um programa de auditório figurado, a apresentadora do dedo criada por Raony Phillips é só um sintoma do uso cada vez mais fácil e deliberado da tecnologia, às vezes de forma um tanto discreta.

As duas maiores emissoras do país, a Orbe e o SBT, já normalizaram a presença de IA nos seus programas. Lançada no mês pretérito, “Êta Mundo Melhor!”, uma espécie de sequência de “Êta Mundo Bom!”, é a primeira romance a usar de forma ampla a tecnologia, pondo caras e bocas no néscio Policarpo, um personagem importante da trama. Em uma cena, o bicho arreganha a boca e sorri.

O processo começa ainda nas filmagens. Diante das câmeras, sob um esquema de iluminação planejado minuciosamente, o néscio que interpreta Policarpo deve fazer movimentos específicos para facilitar a animação de sua face. A tecnologia ainda é usada na romance para animar imagens estáticas de São Paulo nos anos 1950, era em que se passa a história.

Lucidez sintético também é uma veras na romance “Dona de Mim”, exibida em seguida, às sete. Num trecho que foi ao ar em maio, a obra criou a sentença e os movimentos de um bebê recém-nascido a partir de um boneco embrulhado em panos.

“Usamos IA exatamente pela otimização de processos e para a preâmbulo de novas fronteiras criativas”, diz Carlos Octávio Queiroz, diretor de arquitetura, parcerias e estratégia de dados e IA da Orbe. “A presença de bebês em sets de filmagem segue protocolos rígidos e, com IA, esse tropeço é superado de forma moral e segura.”

A emissora não pretende expelir o lado humano da pós-produção, afirma Queiroz, e deve usar IA somente uma vez que aceleradora de processos porque “amplifica a originalidade dos nossos profissionais”, segundo as diretrizes do Comitê de Governança de Dados e IA criado pela Orbe. Antes mesmo da estreia de “Êta Mundo Melhor!”, por exemplo, a equipe já havia finalizado um volume três vezes maior de cenas do néscio Policarpo do que nos sete meses em que “Êta Mundo Bom” esteve no ar, em 2016.

Além de viabilizar ideias mais mirabolantes, uma vez que o bicho que faz caretas, a tecnologia auxilia processos de correção de som e cores, diz Fernando Alonso, diretor de pós-produção e design da Orbe.

Mas isso não acontece só nos programas novos. Episódios antigos de séries e novelas também vêm passando pelo crivo de robôs antes de serem reexibidos, num experimento nem sempre muito recebido –seja pelo resultado precário, seja por temor de que, eventualmente, postos de trabalho sejam fechados.

Causou estranhamento, por exemplo, o retorno de “Chaves” ao +SBT, em um restauro que, para muitos fãs, criou mais problemas do que correções. Várias publicações no X, o macróbio Twitter, comparam a versão original à remasterização feita com IA, destacando rostos borrados, placas com letras embaralhadas e contornos turvos. Reclamações parecidas recaíram sobre “Chapolin” e a primeira temporada da versão brasileira de “Chiquititas”.

“As críticas vêm dos aficionados e as recebemos com naturalidade”, diz Alfonso Aurin, superintendente de tecnologia e serviços do SBT. Ele afirma ainda que as exibições originais ocorreram numa era analógica e que o polimento oferecido agora “traz a ilusão de diferença”.

Porquê na Orbe, que também tem usado IA para restabelecer novelas antigas, ele diz que a moradia de Silvio Santos não pretende substituir processos humanos. Justamente por isso, acrescenta, há auditorias que avaliam gargalos e possibilidades no uso de IA dentro do SBT.

No Amazon Prime Video, os filmes dos Trapalhões geraram polêmica parecida. Sucessos de bilheteria nos anos 1980, os longas foram relançados na plataforma com cenas hilárias –não por razão do tino de humor, mas por sequências uma vez que aquela em que Dedé vê surgir no rosto um “óculos fantasma” que se torna invisível no meio de uma cena. Procurada, a Amazon não quis comentar o caso.

Se em aspectos técnicos a IA ainda se prova limitada, nos criativos, logo, a história é mais complexa. Por mais que as emissoras já façam oficinas e experimentem com a tecnologia na extensão de roteiros e ilustrações, os robôs estão longe de dar conta da originalidade humana.

É o que afirma Walcyr Carrasco, responsável de “Êta Mundo Melhor!”, que usa a IA em processos de pesquisa, mas não de escrita. “Um grande problema é a tendência de buscar finais edificantes, moralistas”, ele diz. “A IA teria sido supimpa, por exemplo, para Esopo produzir suas fábulas.”

Porquê o dramaturgo, outros artistas acreditam que o maior risco da tecnologia na arte é a saneamento e homogeneização de histórias e visuais.

Um pouco nessa traço pode ocorrer no programa Fofocalizando, por razão de um apresentador criado com IA para completar a bancada hoje formada por Cariúcha, Cartolano e outras pessoas de verdade que com frequência fazem comentários ácidos sobre celebridades.

Ainda que a presença do personagem hoje se restrinja às redes sociais do programa, controlar o que ele pode expor é uma forma eficiente de os produtores decidirem quando e uma vez que fazer uma piada. É um experimento que, se der patente, pode pôr em xeque inúmeros empregos —uma vez que a própria Cariúcha disse temer ao anunciar a geração do personagem, ainda sem nome.

Esta veras, porém, já não é tratada de forma tão apocalíptica. Lá fora, Matthew Loeb, presidente da Iatse, organização sindical americana que representa trabalhadores de funções técnicas do audiovisual, uma vez que montadores, afirmou que a IA tem o potencial de tornar o trabalho de seus associados mais fácil. Há partes dessa tecnologia que serão maravilhosas e outras nem tanto, ele vêm dizendo.

Para José Mercindo, do Laboratório de Imagem e Som da Cinemateca Brasileira, a IA pode até latir, mas não vai morder. “Não acho que ela chega na gente e, se chegar, vai demorar muitos anos. Já teremos restaurado todos os filmes em película”, brinca ele, que está primeiro dos processos de restauro do órgão.

Mercindo viu os primeiros softwares de tirocínio de máquina chegarem ao laboratório há murado de 20 anos. À era, o termo ainda não estava necessariamente relacionado à perceptibilidade sintético e, mesmo hoje, o órgão não depende de processos automatizados —há profissionais humanos envolvidos em todas as etapas de restauro de um filme.

A tecnologia, chamada “machine learning”, consiste em ensinar às máquinas padrões de comportamento que devem ser reaplicados no horizonte, sem urgência de reprogramá-la toda vez que forem trabalhar num novo filme ou capítulo de seriado ou romance.

Rodrigo Mercês, que trabalha ao lado de Mercindo, conta que hoje, apesar da pressão no mercado, ainda não há utensílio boa o suficiente para substituir humanos. “Você nunca vai pôr o filme direto na máquina e esperar ele trespassar pronto”, diz.

Folha

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