Isabelle huppert torna a prisioneira de bordeaux um acerto

Isabelle Huppert torna A Prisioneira de Bordeaux um acerto – 12/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Uma mulher branca, europeia, percebe uma imigrante sarraceno na antessala de um presídio. Os maridos delas estão cumprindo pena. Duas classes sociais distintas dentro de um mesmo espaço de punição.

Logo depois, a mulher branca, guiando um carrão, encontra a moça sarraceno deitada num ponto de ônibus e lhe oferece carona. Aos poucos elas quebram barreiras e se conhecem melhor. Graças ao encontro, suas vidas fazem curvas curiosas.

Eis um resumo da sinopse de “A Prisioneira de Bordeaux”, longa mais recente da diretora francesa Patricia Mazuy, que estreia agora nos cinemas brasileiros depois passagem pela Quinzena dos Realizadores de Cannes e pela Mostra Internacional de São Paulo do ano pretérito.

A mulher branca, Psique, é vivida por Isabelle Huppert, uma instituição do cinema europeu. A sarraceno, Mina, é interpretada pela franco-tunisiana Hafsia Herzi, revelada em “O Sigilo do Grão”, de Kechiche.

O marido de Psique, um neurocirurgião de prestígio, atropelou duas pessoas, matando uma delas, e não parou para prestar socorro. Pegou só seis anos de cárcere. O marido de Mina foi apanhado depois de roubar relógios de uma joalheria. Sentenciado, não delatou seus cúmplices e não teve a pena atenuada.

Psique, mulher de meia-idade, parece solitária. Ela convida Mina a se hospedar em sua morada, já que Mina mora onde os trens não chegam a partir de determinado horário. Recebe também os dois filhos da moça, uma moça e um menino, ela um pouco mais velha do que ele, ambos ainda na puerícia.

Com essa trama, é justo esperar um filme mais preocupado com as questões sociais e com a luta de classes do que com os procedimentos cinematográficos, as escolhas que fazem com que um filme, independentemente de seu tema, seja bom ou ruim. Mas é provável constatar para as duas coisas.

Aí entramos na direção, que em muitos casos faz toda a diferença. Mazuy, a diretora, tem ao menos dois grandes filmes em sua curso: “Um Varão Marcado”, mais divulgado pelo nome original, “Peaux de Vaches”, de 1989, e “Saint-Cyr: As Meninas do Escola”, de 2000, em que Huppert também brilha.

Sua obra-prima é um incidente de uma série de longas modestos produzidos pela TV, “Tous les Garçons et les Filles de Leur Âge”, de 1993, com a qual ela contribuiu com a pérola “Travolta e Eu”.

Nesse longa inopinado de início de curso, percebemos um libido de não recuar diante das possibilidades mais extremas do enredo. A confirmação dessa tendência está em seu longa de 2022, “Bowling Saturno”, atração da Mostra Internacional de São Paulo daquele ano.

“A Prisioneira de Bordeaux”, seu longa seguinte, é melhor, e não só por Huppert. Há uma delicadeza formal perceptível já na primeira cena, com a câmera mirando um teto envidraçado que reflete flores de todas as cores e a atriz circulando pelo espaço fílmico.

O que se pode fazer, hoje, diante da vaga contrária a imigrantes na França e na Europa? Muitos optam pela demagogia, colocando o colonizador uma vez que explorador e os colonizados uma vez que vítimas. É uma saída fácil, que tende a aprazer e aquietar o público.

Embora entre no registro do realismo social, Mazuy não faz muito esse jogo e não foge das implicações mais complexas da trama. Há um tanto de esnobe no comportamento controlador de Psique, valorizado pela tradução de Huppert, mais uma vez no limite do excesso. E há um tanto de oportunista em Mina, que faz com que ela vença a suspicácia inicial e aceite a aproximação e o controle da burguesa.

Há sobretudo uma teoria de distribuição que está muito de congraçamento com o que acreditava o rabino Luis Buñuel: a malvadeza flerta com todos os corações, não importa classe, gênero ou idade.

O grande trunfo de Mazuy, também uma das roteiristas, é mostrar pessoas, não estereotipos. Gente capaz de mesquinharias e de gestos generosos, de dor e desonestidade.

Mais que isso, ela mostra duas mulheres que, apesar do mistério financeiro e geracional entre elas, vivem com dúvidas, infelicidades, além de um visível desprezo pelos maridos. Estes não são mostrados uma vez que seres destruídos pela crueldade ou dignos de pena. São somente desinteressantes para elas.

O conflito de classes fica muito evidente em diversos momentos, notadamente naquele em que Mina chega enquanto Psique recebe seus amigos burgueses. Mina é confundida com uma novidade governanta, para debutar.

Nessa sequência, a direção enfatiza a separação, criando planos isolados. Um para Mina com seus dois filhos que acabam de se aproximar do convescote, outro para o pessoal de Psique, no lado oposto do cômodo, a uma “intervalo segura”.

É Patricia Mazuy a responsável pela perdão e a inventividade discreta de “A Prisioneira de Bordeaux”. E a entrega de Huppert a um papel talhado para ela faz alguma diferença.

Folha

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