“Por obséquio, aguarde”, disse o atendente, “enquanto transfiro você para meu supervisor.” Era uma quarta-feira de agosto, pouco antes do almoço. A relação vinha de um número 212 —que, para um nova-iorquino, pode ser quase qualquer coisa: a escola, a farmácia, o faceta do telhado. Portanto atendi.
O atendente chamou o meu nome e disse, num tom controlado, que era do Chase Bank e queria verificar transferências feitas da minha conta para alguém no Texas. Número inexacto, respondi. Não tenho conta no Chase.
“Mas uma foi ensejo recentemente em seu nome”, disse ele, “com duas transferências via Zelle [plataforma que permite enviar dinheiro pelo celular]. E há minutos alguém tentou transferir esses fundos —US$ 2.100— para San Antonio.”
A história parecia plausível. Sou um dos 150 milhões de usuários do Zelle. Mas meu radar de golpes estava ligado. “Uma vez que sei que isso não é golpe?”, perguntei.
Resposta rápida: “Veja o número que aparece na tela e pesquise no Google. Agora procure a sucursal do Chase na Times Square, número 3.” Fiz isso: o número do telefone era o mesmo.
Ele ainda acrescentou: “Cá no Chase, nunca pediremos suas senhas.” Pelo contrário, me passou mais informações: dois “códigos de cancelamento” e um número de atendimento com quatro letras e 10 dígitos.
Foi logo que ofereceu me transferir para seu supervisor. Aquela frase familiar, ouvida em tantas centrais de atendimento, dava um ar de conhecimento corporativa.
A risca ficou muda por alguns segundos. Outro varão atendeu, com voz autoritária: “Meu nome é Mike Wallace.” Pediu o número do atendimento, que repeti. “Sim, sim, estou vendo”, disse, uma vez que se olhasse para uma tela. Repetiu a história —conta novidade, transferências, Texas— e sugeriu volver a operação.
Confesso: nessa profundidade, ele tinha minha totalidade atenção.
Fraudes digitais crescem sem parar. Em 2024 foram registrados US$ 16,6 bilhões em perdas, segundo o FBI. Entre criptomoedas e ransomware, os golpes mais comuns ainda são phishing e spoofing —clonagem de números reais.
O “supervisor” pediu que eu abrisse o aplicativo do Zelle. Onde dizia “Digite um valor”, instruiu que eu colocasse os US$ 2.100. No campo de destinatário, pediu que digitasse unicamente os dez dígitos do “número de atendimento”, sem as letras. Fiz, mas a suspeição voltou.
“Sr. Wallace”, disse, quase me desculpando, “esse número de atendimento parece um número de telefone, e vou mandar US$ 2.100 para ele.”
Ele respondeu: não, porque o próximo passo é importante. No campo “Qual é o motivo?”, onde você coloca um pouco uma vez que “despesa com babá”, ele pediu que eu digitasse um código privativo que sinalizaria à equipe para volver a transação.
O código tinha 19 caracteres. Ele o leu lentamente, com recta a jargão militar: “zero, zero, Charlie, X-ray, nove, oito…”
Quando terminei de digitar e repetir o código, ele disse: “Agora aperte enviar.”
Mas uma vocábulo no campo “Qual é o motivo?” me incomodava. Ele dizia “Opcional”.
Tive uma teoria. Perguntei se ele estava ligando da Times Square. Sim, ele disse.
“Portanto vou até aí, resolvemos juntos.”
Até lá já será tarde, respondeu. “Ligo de volta”, disse —e desliguei.
Telefonei para meu banco. Nenhuma atividade no Zelle.
Olhei o histórico da chamada: 16 minutos. Foi o tempo que me tomaram.
Em décadas uma vez que repórter policial, já cobri inúmeros golpes —de médiuns, namoros falsos, imóveis e até a obscura “fraude da babá”. Eu deveria identificar um golpe em 16 segundos, não em 16 minutos.
Por que leste parecia tão persuasivo?
Pesquisando “Chase Zelle scam”, encontrei relatos idênticos.
Conversei com Benjamin Chance, da Early Warning Services, empresa que opera o Zelle. Ele disse que golpes de impostores aumentaram desde a pandemia e explicou os fatores:
- Urgência. “Se você é uma mãe levando os filhos para o treino, pode estar com pressa e tombar.”
- O supervisor. Dá sensação de legitimidade. Pode ser só uma pessoa trocando a voz.
- Excesso de informação. Números de caso, códigos de cancelamento, sequências intermináveis. Isso cria um efeito de embalar a vítima, transformando-a de pensadora sátira em executora de tarefas.
Ele recomenda hesitar de chamadas de números desconhecidos. Se alegam ser do banco, desligue e ligue para o número no cartão. E, se atender, segundo Paul Roberts, agente responsável pelo escritório do FBI em Novidade York: “Respire fundo, pense no que está acontecendo e no motivo da relação.”
No término, eu tinha conseguido evitar o golpe com relativa facilidade. Mas aquilo continuava me incomodando, e eu sabia que precisava dar mais um passo —ir até o endereço citado, no coração da Times Square, que já foi a capital pátrio dos velhos golpes de rua. O banco sabia o que estava acontecendo, com ligações falsas aparentemente partindo de seu escritório?
Lá dentro, havia caixas eletrônicos no pequeno saguão do Chase e uma escada rolante que levava a um marchar de baias e gerentes em salas envidraçadas. “Estou procurando por um Mike Wallace”, disse a uma funcionária.
“Não existe ninguém com esse nome cá”, respondeu. Comecei a descrever minha relação, e ela sorriu, uma vez que quem já conhecia muito a história. A transferência via Zelle, o supervisor —ela já tinha ouvido tudo aquilo muitas vezes, de pessoas que ligavam para a sucursal em procura de confirmação, contou.
“Alguém já tinha dito que chegou a enviar o verba, uma vez que os golpistas pediam?”, perguntei.
Ela pensou por um momento e respondeu: “Talvez duas pessoas.”
Por término, em procura de mais vítimas, recorri ao Reddit e escrevi um post em um fórum de usuários trocando relatos sobre esse golpe, convidando interessados a compartilhar suas histórias.
Minha publicação foi rejeitada pelos moderadores.
Descobri que procurar vítimas de fraude, enfim, é um movimento clássico no início de um novo golpe.
