Jards Macalé foi, ao lado de Gal, um contraventor cultural

Jards Macalé foi, ao lado de Gal, um contraventor cultural – 17/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A parceria entre Gal Costa e Jards Macalé seria fundamental, junto ao poeta Waly Salomão, para a consolidação da contracultura brasileira em seu campo músico e poético, com o desbunde que tomaria corpo no Rio de Janeiro, no início dos anos 1970.

Macalé já trazia consigo a resplendor vacilante de querubim torto quando se aproximou de Gal, no final de 1968, em São Paulo, em meio a uma situação que havia deixado a artista sem solo: a prisão e o ulterior exílio de quase três anos de Caetano Veloso e Gilberto Gil, em dezembro daquele ano, poucos dias em seguida a promulgação do AI-5.

Com o encolhimento dos baianos, Gal, uma das principais artistas em subida da música popular brasileira, ficaria órfã de suas principais referências pessoais e artísticas. A situação política era tão delicada que a gravadora optou por postergar o lançamento do primeiro álbum solo da artista, gravado em 1968, para o ano seguinte, para evitar possíveis sanções ou represálias.

A parceria com Macalé se materializaria no segundo álbum solo da tradutor, o psicodélico “Gal”, produzido por Manoel Barenbein e lançado em 1969, que ecoaria, de forma dissonante e raivosa, a falta dos exilados.

Macalé assumiria os violões de todo o disco experimental e assinaria a filete derradeira —uma de suas primeiras composições—, “Pulsars e Quasars”, em parceria com Capinam. Na melodia, Gal gritaria com estridência e dor, uma vez que se escrevesse uma epístola para além-mar: “Dos sóis, Ca e Gil me mandem notícias logo/ A sós, pulsos abertos, eu volto”.

A sinergia entre Gal e Macalé —mais do que ocorrera entre a artista e Tom Zé, por exemplo, que era um tropicalista de primeira hora e até um esperado sustentáculo artístico possante em seguida o exílio dos amigos— havia sido inegável.

Eles partilhavam de um consenso poético e estético que dava ininterrupção aos interesses musicais de ambos naquele momento: a devoção radical e subversiva a João Gilberto e a lhaneza para o rock de influência estadunidense, do rockabilly aos vocais contemporâneos de Janis Joplin que tanto influenciaram Gal.

Essa trama músico robusta era acrescida ainda de poéticas melancólicas de possante tom político, uma vez que nas parcerias entre Macalé e o poeta Duda Machado —maldito uma vez que ele—, com quem compôs “Hotel das Estrelas” e “The Archaic Lonely Star Blues”. As músicas foram gravadas por Gal no álbum “Lícito” (1970) e, no caso da primeira, também em “Fa-tal (Gal a Todo Vapor)”, de 1971.

Ainda em São Paulo, a parceria entre Gal e Macalé geraria um show em conjunto no Teatro Oficina, em novembro de 1969, o “Gal Costa & Macalé”, e até a parceria em uma empresa de gestão artística, a Tropicart, ao lado de Capinam e Paulinho da Viola.

Em seguida o término da temporada no Oficina, os dois partiram em definitivo para o Rio de Janeiro, cidade de quem público havia recebido com exalo uma temporada da cantora na boate Sucata, sob a batuta de Macalé, em abril de 1969. Buscavam, sobretudo, ares mais solares.

Sem conseguir saltar do abisso à sua frente, Gal teve a ajuda providencial das asas tortas, mas virtuosas, de Macalé para ser carregada dali e seguir rumo à capital fluminense. Lá, a barra também era pesada, mas pelo menos havia o respiro de uma efervescente cena contracultural emergente e as areias quentes de Ipanema.

Outro agente cultural que contribuiria para a artista erigir voos importantes na cidade seria o poeta Salomão, que havia saído às pressas de São Paulo em seguida temporada traumática no Carandiru, onde cumprira pena por porte proibido de maconha.

O adensamento da relação entre o poeta e o músico ocorreu nesse contexto, marcado pela consolidação de um repertório e de uma linguagem músico para uma Gal pós-tropicalista.

No início de 1970, tendo Macalé e Salomão uma vez que alicerces artísticos, a artista se integraria cada vez mais a uma rede de poetas, músicos, compositores, cineastas e artistas visuais ligados à vanguarda e à contracultura. Isso simbolizava para Gal tanto um consolo quanto a possibilidade de dar ininterrupção à experimentação estética acionada pelo germe tropicalista.

Foi nos ensaios para o show “Deixa Sangrar” (1971), fundamentado no repertório do álbum “Lícito”, terceiro solo de Gal, que a contracultura ganhou força a partir de um gesto fortuito. Salomão compartilhou com Macalé um pedaço de papel com uma letra que achou que a cantora poderia incorporar ao roteiro. Em 15 minutos, Macalé musicou “Vapor Barato”.

Inicialmente sob um conserto roqueiro, que demandava um esquina apressado e ofegante, a melodia foi inserida no espetáculo, tendo marcado o início da parceria entre Gal e Salomão, e entre Salomão e Macalé. Em poucos meses, ela seria espontaneamente jurisdição ao papel de hino emocional de uma geração de ovelhas desgarradas e silenciadas.

A veloz aspiração cultural de “Vapor Barato” credenciaria Salomão para encaminhar o espetáculo “Fa-tal (Gal a Todo Vapor”, que ganharia registro em disco no mesmo ano. Nas palavras do poeta, a melodia seria “oposta à tendência ‘liricista’ e nebulosa que predominava. Era direta, frontal, dizendo o que era verosímil naquele momento de desencanto”.

No novo espetáculo, a melodia seria relida sob um conserto melancólico. Assim uma vez que na melodia, o interlocutor de Gal, Macalé e de Salomão era uma figura difusa. Os bronzeados vivíssimos das Dunas da Gal —trecho de convívio do “desbundados” em Ipanema–, os amigos exilados, mas vivos, os presos políticos mortos e os presos políticos quase mortos.

A partir de “Vapor Barato”, Macalé ganhou tração para investir em sua própria obra artística de forma mais sistemática e com a crédito —nem sempre seguro— das gravadoras, uma vez que no álbum que levou o nome, em 1972. Da parceria com Salomão, construiu uma obra que dividia entre o que chamava de “morbeza romântica” (do disco “Aprendendo a Nadar”, de 1974) e o conjunto das outras composições que fizeram juntos, o que abrange canções uma vez que “Olho de Lince”, “Mal Secreto” e a própria “Vapor Barato”.

Macalé operou uma vez que força organizadora de um projeto artístico que confrontava modelos estabelecidos, incorporava risco e tensionava fronteiras entre gêneros. O conjunto de sua obra aponta que a sua radicalidade foi secção constitutiva da cena contracultural brasileira e de seus desdobramentos posteriores.

Ele não orbitou a contracultura, foi um de seus agentes centrais, e sua parceria com Gal e Salomão contribuiu para tornar popular e incontornável o alcance dessa atuação.

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *