Jean garrett: mistério e erotismo marcam filmes em mostra

Jean Garrett: Mistério e erotismo marcam filmes em mostra – 02/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Jean Garrett, de quem a Cinemateca Brasileira promove uma pequena retrospectiva, ilustra muito a incapacidade da sátira brasileira de, em determinado momento, captar o interesse de obras voltadas ao público popular. Esse era muito o perfil do cineasta nascido nos Açores, Portugal, mas com uma formação e obra completamente brasileira.

Garrett pode ser reconhecido nos primeiros filmes de José Mojica Marins, porquê um dos assistentes de Zé do Caixão. Ele trouxe de lá lições, seja de porquê se remeter com um público vasto, seja de gerar atmosferas próximas ao terror. Outra segmento importante de sua formação foi a direção de fotonovelas —que o ajudou na procura de enquadramentos e na direção de atores.

Ele é o nome médio da mostra “Mestres do Cinema Paulista: Secção 1”, produzida pela Cinemateca em conjunto com a Heco Produções, que digitalizou as cópias, dedicada a exibir filmes que ganharam o status de raridade nas últimas décadas.

A mostra se abre com talvez o maior sucesso de bilheteria do diretor, “Mulher, Mulher”, de 1979, o que se deve, sem incerteza, à presença de Helena Ramos, principal musa do cinema erótico paulista. O roteiro gira em torno de uma viúva insatisfeita sexualmente e que se retira para o interno, onde sofrerá assédios constantes, mas se manterá sempre leal ao cavalo pelo qual tem grande apreço.

Garrett nunca se considerou um responsável. Foi, sobretudo, um artesão que gostava de aproveitar a taxa de outros profissionais no roteiro. Em “Mulher, Mulher” foi Ody Penha. Em “Noite em Chamas”, de 1978, o texto de Luiz Castellini e Garret teve a taxa de Carlos Reichenbach. Ali, narrava-se a história de um funcionário de hotel que, revoltado, botava incêndio no lugar, enquanto outros personagens desenvolviam atividades paralelas nos quartos.

O terceiro filme do miniciclo é provavelmente o mais interessante, “Excitação”, de 1977. Nele, Garrett trata de um varão que compra uma vivenda em prol do repouso de sua mulher, que está saindo de uma crise nervosa. Mas a vivenda tinha sido de um varão que se matou, o que já não é boa notícia. Para piorar, existe ali uma vizinha que é amante do tal marido.

Com esses elementos, Garrett invade o mundo do filme fantástico, registro que abordaria com frequência até o termo de sua curso, mas também se deixa marcar pela influência de Brian De Palma. Mais tarde, ainda, deixaria surgir em seus filmes um toque de mistério que não vasqueiro lembra o cinema de Claude Chabrol.

Talvez o necessário de seu trabalho venha depois dessa temporada de certeza na subindústria da Boca do Lixo, e comece com “A Mulher que Inventou o Paixão”, de 1980, escrito por João Silvério Trevisan, que sempre reconheceu a fidelidade de Garrett ao seu texto.

Sua curso foi interrompida depois da chegada do cinema pornográfico, que em poucos anos dominou inteiramente a produção da dita Boca do Lixo, antes de destruí-la de vez. Porquê vários outros artesãos dessa era, Jean Garrett foi ejetado do cinema brasílico e passou a trabalhar porquê gerente de um teatro, sem conseguir filmar novamente.

Morreu ignorado, em 1996, poucos dias em seguida ter completado 50 anos. Hoje, curiosamente, mas não sem motivos, é um dos cineastas mais cultivados por jovens fãs e pesquisadores.

O segundo nome desse ciclo não é menos importante. Ozualdo Candeias foi um dos criadores do ciclo da Boca do Lixo, juntamente com Rogério Sganzerla, João Callegaro e Carlos Reichenbach, entre outros. É até hoje um dos nomes mais celebrados do cinema brasílico, por filmes porquê “A Margem”, de 1967, ou “Meu Nome É Tonho”, de 1969, no qual, aliás, Garrett tem pequeno papel porquê ator.

Oriente ciclo o remete, no entanto, a seus primeiros exercícios nos anos 1950, os curtas “Tambaú” e “Polícia Feminina”. O primeiro tem um interesse que vai além do cinema propriamente dito: os milagres do padre Donizetti, hoje dito beato pela Igreja Católica. Traje ou boato, o padre ficou famoso porquê responsável por uma série imensa de milagres que beneficiou os fiéis que iam a Tambaú, no interno de São Paulo, em procura de seu auxílio.

“Polícia Feminina” prende-se mais aos códigos do filme institucional, mas mesmo aí a marca da pessoalidade de Candeias e seu sabor por um cinema feito contra as convenções clássicas se manifesta. São dois curtas raros, também digitalizados em 4K. A segmento de Candeias no ciclo é menor, mas essas raridades, por si só, já valem a visitante à Cinemateca.

Programação da mostra ‘Mestres do Cinema Paulista: Secção 1’, na Cinemateca Brasileira:

  • 03/07, às 20h: “Mulher, Mulher” (1979), de Jean Garrett

    Seguido de debate com Helena Ramos, Eugenio Puppo e Gabriel Carneiro (libras e transmissão ao vivo)
  • 04/07, às 18h: “Excitação” (1977), de Jean Garrett
  • 05/07, às 19h30: “Noite em Chamas” (1978), de Jean Garrett
  • 06/07, às 17h: “Tambaú” (1955), “Polícia Feminina” (1960), “Bocadolixocinema” (1976) e “Uma rua chamada Triunpho” (1969-1971), de Ozualdo Candeias
  • 06/07, às 18h30: “Mulher, Mulher” (1979), de Jean Garrett

Folha

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