Joalherias miram artistas e adaptam obras para acessórios 18/02/2026

Joalherias miram artistas e adaptam obras para acessórios – 18/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Pequenas obras de arte ou acessórios para o corpo? Talvez um pouco de cada. Joalherias têm olhado para o trabalho de artistas na elaboração de peças que tentam apropriar para a pele traços dos universos destes criadores, muitas vezes incorporando materiais inesperados em produtos de luxo.

No ano pretérito, a Sauer lançou uma série feita em parceria com os artesãos da Oficina Francisco Brennand, museu e ateliê devotado aos trabalhos do rabi recifense da cerâmica, e a designer Paola Vilas pôs nas lojas uma coleção de joias baseada na obra de Lina Bo Bardi, a arquiteta do Masp, o Museu de Arte de São Paulo, e do Sesc Pompeia.

Nas próximas semanas, a HStern leva às vitrines colares, pulseiras, anéis e brincos que seus designers e ourives criaram em parceria com Iole de Freitas, uma das principais escultoras brasileiras em atividade. E a Talento Joias lança dois braceletes com traçado inspirado pelas linhas sinuosas da cúpula do Theatro Pedro 2º, de Ribeirão Preto, no interno paulista, desenhada por Tomie Ohtake.

Neste namoro entre a arte e o design para o corpo, todos ganham —as clientes, por usarem joias menos óbvias; os artistas, por terem seu pensamento adequado para um pouco vestível; e as joalherias, pela aura de sofisticação associada ao mundo da arte.

Antes de desenharem a coleção, designers da HStern passaram temporadas no ateliê de Iole de Freitas no Rio de Janeiro para entender uma vez que ela materializa as suas esculturas a partir da torção de grandes placas de materiais industriais, uma vez que o aço. O metal, definido pela artista uma vez que rebelde e difícil, é a base das joias que ela criou com a firma carioca.

“Para mim era inadmissível compreender a existência de torções no aço nesta graduação até o momento em que eu vi os ourives realizarem as joias”, afirma Freitas, em referência ao tamanho reduzido dos acessórios, “um pouco que tem que ser asilado por um corpo”.

A traço tem sete joias inspiradas livremente no trabalho da escultora, que exploram o contraste entre os aspectos bruto e luminoso dos materiais dos quais são feitas. É o caso de um aro de aço acetinado ornado com um filete de ouro 18 quilates e diamantes, e de um par de brincos no qual uma placa retorcida abraça uma fita também de ouro e diamantes.

Foi a primeira vez que a HStern —que já havia lançado uma coleção com a artista Anna Bella Geiger— trabalhou com a combinação de aço e ouro, segundo Roberto Stern, o diretor criativo e presidente da marca. Esta combinação gerou um “fusão estético inusitado”, diz a artista, acrescentando que a joalheria captou muito o seu pensamento plástico, desenvolvido em mais de 50 anos de curso.

Do metal para a pedra, da indústria para a natureza. No caso da Sauer, o duelo foi domar a cerâmica, o material de trabalho de Francisco Brennand por vantagem. Uma vez que dar valor de subida joalheria, com preço na lar das dezenas de milhares de reais, ao barro queimado usado em utilitários uma vez que copos, canecas e pratos?

Os artesãos da oficina do artista, morto em 2019, estudaram protótipos até chegarem ao tempo correto da queima do barro em graduação reduzida, conta Stepanhie Wenk, a diretora criativa da Sauer. Ela cocriou a coleção que homenageia o universo fantástico do recifense e que conta, por exemplo, com um brinco com ovinhos de cerâmica pendurados em uma base também de cerâmica com diamante incrustado.

Outro duelo, afirma Wenk, foi mudar a percepção dos consumidores sobre o valor da cerâmica. “A visão das pessoas deste material pode ser utilitário, mas ele é joia.”

Já Paola Vilas usou vidrotil, as pequenas pastilhas de vidro do soalho da Lar de Vidro de Lina Bo Bardi, em anéis, pendentes e brincos. A teoria era engrandecer estes quadradinhos, típicos das construções modernistas de meados do século 20, ao status de gemas preciosas, de consonância com o site da designer.

Feita com o Instituto Bardi, a coleção tem também um aro em que a jaspe vermelha imita o prédio do Masp para recriar o vão livre do museu da avenida Paulista, além de um grudar em que os elos vazados reproduzem as formas amebóides das janelas do Sesc Pompeia —todas criações ícone de Lina Bo Bardi.

“As joias ficam no tempo. A teoria é que elas marquem um momento e perdurem”, afirma Vilas, conhecida por seus desenhos com um toque de surrealismo.

Fora do Brasil, a Bvlgari lançou em outubro do ano pretérito uma edição de relógios vendida no México que homenageava os dois maiores artistas do país, Diego Rivera e sua mulher, Frida Kahlo. O da pintora tinha um design mais ousado, com duas pulseiras contornando o braço e trechos de uma epístola de paixão dela para ele gravados nos braceletes em ouro.

Mariana Cerone, professora do núcleo de luxo da ESPM em São Paulo, a Escola Superior de Propaganda e Marketing, afirma que a joalheria sempre esteve na fronteira entre o ornamento e a estátua e lembra das joias criadas pelo surrealista espanhol Salvador Dalí nos anos 1940. Segundo ela, para quem consome luxo, as joias de artista deixam de ser somente adornos e operam uma vez que objetos de oração cultural.

“Isso muda a lógica da compra. Você não vai comprar um aro, vai comprar o resultado que dialoga com o artista que tem uma história. As pessoas querem relatar histórias quando elas usam uma peça —o corpo vira uma plataforma de oração, seja na joalheria ou na tendência”, afirma Cerone.

Ser dissemelhante de seus pares também entra nesta conta. Se nos jantares dos endinheirados a pulseira de ouro em formato de prego da Cartier é generalidade nos braços que seguram taças de espumante, é mais vasqueiro se deparar com um bracelete em ouro e águas-marinhas dos anos 1950 assinado pelos irmãos Roberto e Haroldo Burle Marx, argumenta o joalheiro e arqueólogo Rafael Moraes.

“Não é uma joia esgar, que você vai no shopping e tem um monte”, diz Moraes, com a experiência de 20 anos vendendo joias assinadas por artistas, muitas delas raras, a exemplo da série de anéis e colares em ouro, esmalte e diamante concebidos por Di Cavalcanti e executadas por seu camarada Lucien Finkelsten na dezena de 1960, que ele expôs na feira SP-Arte do ano pretérito.

Dissemelhante de joalherias, nas quais a produção tende a ser maior, Moraes trabalha com tiragens mínimas ou mesmo peças únicas. Artistas brasileiros contemporâneos de peso uma vez que Laura Lima, Fernanda Gomes e Paulo Bruscky já desenharam joias que ele ajudou a viabilizar por meio de um ourives, e seu registo conta com o projeto de um grudar nunca executado de Antonio Dias.

“Comprar uma joia de artista é carregar uma obra de arte no corpo. O corpo acaba sendo o meio de mostrar isso”, afirma Moraes. “Você carrega um pouco que é muito valioso.”

Folha

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