Rito e ritmo são dois eixos centrais —musicais, metafóricos e metafísicos— de “Taracá”, novo disco do cantor uruguaio Jorge Drexler que chega hoje às plataformas digitais. O título nasce da fusão de uma aférese e de uma onomatopeia: condensa a síncope da frase uruguaia “estar acá“, ou “estar cá”, com o som das madeiras que batem nas laterais do tambor do candombe, gênero afro-uruguaio por vantagem.
“Taracá” é também uma forma de reza —pagã—, um ato de fé —agnóstico— e um fio de reconexão com uma humanidade dispersa em sua obediência algorítmica enquanto o mundo “vai para o brejo” —tradução tímida de “se va al carajo”, verso que Drexler entoa com crença e contundência em uma das 11 faixas do álbum.
Toco Madera” —título que reúne o duplo sentido de tocar o tambor e invocar proteção, à maneira do nosso “percutir na madeira”— abre o disco e funciona uma vez que porta de ingressão para esse universo. Em “Taracá”, Drexler percorre diferentes manifestações da música uruguaia —milonga, murga, plena— sem não soltar a clave do candombe. O álbum ainda incorpora outros ritmos afrolatinos, uma vez que o samba, para alongar maus presságios e declarar a alegria não uma vez que euforia, mas uma vez que profissão de fé.
Daí que uma das faixas mais significativas para o Brasil seja “¿Qué Será que Es?”, versão em espanhol para “O que É o que É”, de Gonzaguinha. “Há muitas ferramentas psicológicas e espirituais em poder expor em voz subida ‘viver e não ter a vergonha de ser feliz’ é catártico. É a paradoxal coragem da felicidade e do paixão. O ódio é o primeiro revérbero que aprendemos nas redes sociais e com políticos que comandam o mundo. A resistência é o paixão”, diz o artista.
Mas fé em quê? Na construção permanente de pontes, apesar —e também por desculpa— dos tempos violentos que vivemos. Drexler dialoga com o zeitgeist contemporâneo e retorna à própria pátria para exorcizar a desesperança e a dor. “Taracá” é também um disco de luto: foi concluído depois a morte de seu pai, Gunther, que coincidentemente faria natalício neste 13 de março, data em que o álbum agora abraça o mundo.
Uma vez que aconteceu essa volta músico ao Uruguai?
Foi uma decisão talvez inconsciente, mas com a urgência de me conectar com os componentes básicos da minha identidade. O luto é um estado estranho, não é linear, não é que você está só triste e faz um disco falando de saudade. Esse disco é contraditoriamente celebratório, luminoso. Porque a vida do meu pai foi enxurrada de superações. Um primícias terrível na Alemanha nazista, ele foge aos quatro anos —minha família foi uma das últimas entre os judeus que saíram, em 1939. E entram na Bolívia, o único país que recebia refugiados judeus europeus nesse momento. Fiz uma música sobre isso, que tive o prazer de compartilhar com Caetano Veloso.
“Bolívia”.
Sim. No Uruguai, ele conhece minha mãe, que era do Partido Comunista, meu pai era social-democrata. Meu pai judeu, minha mãe sem religião. Aprendi a conviver numa família em que meu avô judeu se vestia de Papai Noel no Natal. Meu avô não judeu ia à sinagoga visitar meu avô judeu. Duas famílias coexistindo amorosamente, e achei que isso era normal. Saí para o mundo e percebi que era um luxo. Essa prelecção que eu tive de menino é de supremo valor no mundo, onde cada vez mais aparecem figuras políticas que fazem da confrontação uma arma perigosíssima. Esse é o zeitgeist do disco. Tem a ver com essa vontade de lutar contra qualquer forma de discriminação, até a etária, porque há muitas gerações juntas nesse trabalho.
O tambor é âncora de conexão para a diáspora africana.
Sem estabelecer paralelismos, que são sempre difíceis, mas, quando você vê de dentro de um grupo discriminado a discriminação, aprende a perceber essa discriminação em todos os âmbitos. Mesmo assim, a discriminação racial é mais imediata, é dissemelhante. A minha ponte com a cultura afro-uruguaia vem do primícias dos anos 1980 com amigos de famílias afro-uruguaias tradicionais, com possante consciência cultural. Você vê a complicação do candombe quando tenta tocar. Mas o que mais me marcou foi a capacidade de gerar um estado místico: ‘estar acá’, cá e agora, fundamentado em uma sonoridade percussiva. O transe que o candombe trouxe para a sociedade uruguaia mudou toda a percepção metafísica que ela tem. Você entra em contato com alguma coisa muito poderoso. ‘O melhor lugar do mundo é cá e agora’, essa coisa do Gil que adoro, essa visão, achei isso no candombe.
Uma vez que surgiu a versão de “O que É o que é”?
A música brasileira estende o marco conceitual da música e lhe dá a oportunidade de entrar em territórios do pensamento, da historiografia. Essa música de Gonzaguinha é uma viagem iniciática, também em sua estrutura. É a única, de toda a minha vida, que ainda tenho que tocar com partitura, porque ela vai circulando, sempre de forma mais fechada e dissemelhante. É a complicação da vida, você roda, fica tonto, ela te leva para um lado, para outro, você acha que volta, mas de repente, não. Mas a vida deve ser melhor e será. Há muitas ferramentas psicológicas e espirituais em poder expor em voz subida ‘viver e não ter a vergonha de ser feliz’ é catártico. É a paradoxal coragem da felicidade e do paixão. O ódio é o primeiro revérbero que aprendemos nas redes sociais e com políticos que comandam o mundo. A resistência é o paixão.
Em uma das canções, você celebra os clarividentes. Em que você acredita?
Na ponte. Qualquer utensílio que sincronize as pessoas entre duas margens diferentes de um mesmo rio. A música é uma experiência de sincronização que abre um meato de notícia. Esse não é um glosa leviano, é uma constatação neurocientífica cada vez mais evidente. Dançar com alguém sincroniza as ondas cerebrais, os ritmos corporais, emocionais. É a grande guerra hoje. Foi a Marisa Monte que me falou… A gente gera um estado de consciência em um show, que o público entra de um jeito e sai de outro, com uma conexão que não é conceitual. Sua opinião não é tão importante uma vez que seu ato de presença. Meu trabalho não é opinar, não sou perito em zero, mas talvez sim em edificar músicas para essas conexões.
Sempre é verosímil edificar pontes?
Um exemplo mais que medial na minha existência de pessoa judia e não judia é o conflito entre Israel e Palestina. Seria ingênuo pensar que agora as pontes podem ser cruzadas, mas quando falo de clarividentes, estou pensando especificamente em grupos de pessoas que perderam familiares dos dois lados, uma vez que Parents Circle ou Women Wage Peace. Pessoas unidas pelo luto, que faz entender que o outro é mais eu do que aqueles que acham que eu sou do mesmo quadrilha. Essas pessoas são clarividentes, moram no horizonte. Sabem que a ponte que estão construindo não vai ser atravessada agora, mas talvez pelos bisnetos deles. Agora é impossível, mas eles sabem que é uma questão de tempo.
