Jornalista usa aranhas para falar do medo de perder pais

Jornalista usa aranhas para falar do medo de perder pais – 03/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Diogo Bercito ficou devastado quando Brunilda morreu. Ela vivia numa casca de tatu abandonada e era das mais queridas “pet aranhas” que teve na puerícia. “Eu me lembro de permanecer aos prantos, de enterrar a Brunilda.”

Bercito nem sabe se invocar de “pet” é a maneira mais apropriada de descrever sua relação com essa caranguejeira e outros tantos aracnídeos que teciam as mais engenhosas teias no terreno onde seus pais tinham uma morada no interno, na lema entre São Paulo e Minas Gerais. Quando párvulo, ele adorava se perder no mato, espiando dentro de troncos de árvore e “fazendo o inventário dessa natureza”.

Se ele agora lança “A Solidão das Aranhas”, seu quarto livro e segundo romance, o primeiro a ser lançado pela Companhia das Letras, é a esse pretérito campestre que Bercito se sente na obrigação de voltar para falar também sobre o seu pai.

“Ele tinha uma relação muito possante com a natureza, um encantamento. Meu pai odiava a cidade”, conta o responsável. E, aí, no ano pretérito, seu pai morreu. Antes que pudesse ler a obra do fruto que aborda justamente o pavor que o protagonista tem de perder os seus pais.

“O livro não tinha sido publicado ainda, mas já estava escrito e editado quando eu recebi a notícia de que ele tinha morrido. Logo, é muito dolorido pensar no livro sabendo que aquele pavor que eu estava trabalhando nele se concretizou tão imediatamente.”

Bercito sabe também que há outra maneira de mourejar com isso: vê a obra uma vez que uma homenagem a Renato. Não fosse o pai, talvez nunca soubesse quão inteligentes são algumas espécies desses invertebrados. “Tem aranhas que constroem teias absolutamente complexas, utilizando diversos tipos de fio. Tem as que capturam vagalumes e as que usam as luzes deles para atrair outras presas.”

Bercito poderia permanecer horas falando sobre o tema. Escolheu grafar.

O responsável de “Brimos”, sobre a imigração arábico no Brasil, já havia estreado no formato romance com “Vou Sumir Quando a Vela se Extinguir”, a história de paixão entre dois homens que tem Síria e Líbano uma vez que ponto de partida.

O novo título começa com o retorno de Gabriel ao sítio da puerícia, no hipotético povoado de São Jorge do Pomar. Volta porque os pais morreram e ali reencontra ruínas físicas e emocionais, simbolizadas por uma oficina desmoronada e pela presença enigmática de Domingos, um andarilho fascinado por aranhas.

Bercito rejeita o enquadramento fácil de “romance LGBTQIA+” para “A Solidão das Aranhas”. É romance, ponto. “Entendo a premência do mercado de trabalhar com esses rótulos. Uma vez que repórter, não tenho essa premência. Não escrevo para que ele seja um livro LGBTQIA+, ou pensando no leitor interessado nesse tema. Nem era o meu projecto quando comecei a grafar. Era um romance sobre o pavor de perder os pais.”

Ele conta que o personagem Domingos surgiu enquanto ia elaborando a história, e a relação dele com Gabriel foi se desenvolvendo organicamente. “Não penso nele uma vez que zero além de um romance Acho que a pretensão do repórter é universalizante. E o pavor de perder os pais é uma das grandes experiências universais. A sexualidade do personagem é um pouco secundária para mim.”

Bercito diz que tomou desvelo para não escorregar na emboscada de erigir um envolvente rústico bruto e hostil à multiplicidade sexual. Não queria retratar “vizinhos, amigos de puerícia do Gabriel uma vez que personagens caricatos”, nem martelar numa “dicotomia até bastante simplória” em que “a cidade é um espaço onde você pode viver sua sexualidade, e o interno acaba sendo repressor”.

Em vez disso, opta por uma trama com muitas nuances. É uma vez que a ecdise, processo fisiológico que artrópodes uma vez que aranhas passam —a troca periódica da carapaça. Esse movimento espelha o sazão e o luto pelos quais o protagonista atravessa.

O que Bercito faz, em seu livro, é buscar essa “trova das aranhas” sem negligenciar da verossimilhança científica. A formação uma vez que historiador e jornalista o ajudou a pesquisar extensamente sobre os aracnídeos, tendo o zelo de consultar exclusivamente materiais publicados até os anos 1930. A história se passa nessa dez, e não faria sentido os personagens soltarem informações descobertas só depois.

O responsável chegou a fazer um curso virtual do Butantan, ao qual assistiu num aeroporto dos Estados Unidos, onde mora. Lembra de temer que passageiros vizinhos, espiando a tela de seu celular, vissem fotos de membros necrosados pelo veneno de picada de aranha. Taí uma teia difícil de explicar à polícia migratória caso alguém o denunciasse.

Folha

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