José Antônio da Silva ganha mostras que celebram pintor

José Antônio da Silva ganha mostras que celebram pintor – 02/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“Eu sou o Brasil”, dizia com frequência o pintor José Antônio da Silva. O país que ele retratou, porém, não era aquele dos cartões-postais.

No lugar de corpos suados nas praias e de foliões em euforia no Carnaval, ele verteu para as telas o cotidiano rústico do interno de São Paulo, posicionando no núcleo de sua prática artística um envolvente que foi posto às margens da vida vernáculo.

Essa centralidade do interno pode ser vista em vestígios na galeria Estação e no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, o MAC, onde está em papeleta “Pintar o Brasil” —exposição que reúne 142 obras de Silva, artista que é espargido uma vez que o Van Gogh brasílio.

Esse epíteto se explica em razão dos pontos de convergência entre os trabalhos dos dois pintores. “Ambos eram figuras um pouco marginais que tinham uma relação possante com paisagens naturais e com as pessoas pobres”, diz Gabriel Pérez-Barroca, que assina a curadoria da mostra no MAC.

“Os grandes trabalhos de Van Gogh retratam um carteiro e pessoas que estão trabalhando a terreno. Ele nutria um reverência profundo pelos aspectos modestos da vida, um tanto que o Silva também tinha.”

A produção dos dois guarda semelhanças não só no tema, mas também na forma. Isso fica evidente em pinturas de cores fulgurantes e pinceladas expressivas, o que pode ser observado com mais perspicuidade em seus autorretratos.

Na mostra no MAC, é verosímil perceber que Silva retratou a si mesmo por meio de camadas grossas de tinta, à maneira do artista holandês. “Apesar da diferença entre a Holanda no século 19 e o estado de São Paulo no século 20, existem alguns paralelos que fazem essa conferência entre os dois ter sentido.”

Para o curador, os autorretratos de Silva também são importantes por revelar a verve política de sua produção.

“Ele está representando uma região, uma cultura e um noção de liberdade”, diz Pérez-Barroca, acrescentando que alguns desses trabalhos carregam o verdejante e o amarelo da flâmula brasileira. “Essa paleta de cores baseada nas cores da bandeira é quase um manifesto. Ele consegue pôr a própria figura uma vez que o emblema de uma visão de país.”

Os autorretratos não transmitem exclusivamente mensagens subjetivas, mas também objetivas. Em um dos trabalhos, o artista aparece com uma mordaça em que se lê “esta boca está amarrada. Foi a Bienal que me amarrou”.

Ao longo da curso, o pintor teve uma relação conturbada com a Bienal de São Paulo, mostra de arte mais importante do Brasil.

Essa relação começou de forma amigável em 1951, quando Silva apresentou algumas de suas obras na exposição. Apesar de ter exibido trabalhos em mais seis edições, ele se tornou um crítico mordaz posteriormente ter obras rejeitadas em outros anos.

De certa forma, essa cruzada contra a bienal era sintoma de seu esforço para se contrapor às elites intelectuais do Brasil. “Silva enfrentou os grandes poderes econômicos, culturais e políticos do país. Não abaixou a cabeça por ser um artista que veio de um meio humilde.”

Nascido no município de Sales Oliveira, no interno de São Paulo, ele aprendeu a pintar de forma autodidata enquanto trabalhava nas lavouras de moca. Na juventude, cobria as paredes de mansão com pinturas, o que lhe valeu a reputação de louco.

Em 1946, participou de sua primeira exposição, em São José do Rio Preto, para onde havia se mudado alguns anos antes. A partir daí, seu trabalho começou a invocar a atenção de críticos e curadores. Em 1951, ganhou um prêmio do Museu de Arte Moderna de Novidade York, o MoMA e, no ano seguinte, participou da Bienal de Veneza, a exposição mais importante do mundo.

Apesar de todo esse prestígio, o artista não mudou a própria identidade para se encaixar no giro das artes. “Num determinado momento, a venda dos quadros fez do Silva uma pessoa rica. No entanto, ele continuou morando na comunidade de que gostava, e não se mudou para a avenida Atlântica, por exemplo.”

Em razão da pouca escolarização, o artista se expressava por meio de um português que não seguia a norma culta. Ele, porém, não fazia questão de mudar o jeito de falar. Foi com esse português que o artista escreveu livros uma vez que “Maria Clara”, “Sou Pintor, Sou Poeta” e “Quinta da Boa Esperança”. Um dos destaques da mostra é “Romance da Minha Vida” , livro de estreia de Silva em que ele reuniu 76 desenhos.

“Era um gesto político reivindicar um patente tipo de fala e mostrar que essa forma de sentença tem formosura. Ele não corrige os próprios textos nem faz aulas de português para mudar o modo de falar”, diz o curador. “Essas escolhas são certamente íntimas, mas também políticas.”

Algumas das decisões de Silva revelavam também uma personalidade excêntrica e com grande capacidade para o marketing pessoal. Ele costumava invocar a si mesmo de gênio, cogitou trinchar a ouvido uma vez que havia feito Van Gogh e chegou a destruir as próprias telas diante de repórteres posteriormente sentenciar mudar de estilo.

Silva de indumento era espargido pela versatilidade estética. Isso se faz notar na mostra por meio de trabalhos que vão desde o pontilhismo, passando pela natureza morta até chegar em obras que dialogam com a abstração, uma vez que é o caso de “Vendaval” e “Ovelhas na Chuva”.

“Ele conseguiu fazer uma linguagem sem ter necessariamente um estilo fechado”, diz Pérez-Barroca. “Com a exposição, eu queria mostrar a heterogeneidade de técnicas e de assuntos de sua produção.”

As diferentes facetas do pintor podem ser vistas também na galeria Estação, na zona oeste de São Paulo. Por lá, estão reunidas 26 obras produzidas entre as décadas de 1940 e 1980 que retratam a vida no campo.

Em razão das origens do artista e da recorrência do meio rústico em seu trabalho, Silva ficou espargido uma vez que um pintor popular.

Fundadora da galeria, Vilma Eid rejeita esse rótulo por substanciar hierarquias sociais no meio da arte. “Felizmente, esse termo está caindo em desuso. O que existe é arte ruim e arte boa.”

Para a galerista, a produção de Silva era uma representante desse segundo grupo. “Ele põe na tela a vida que viveu no interno com muita maestria e propriedade. Mesmo quando retrata outros temas, uma vez que a natureza morta ou o Rio de Janeiro, o mundo rústico não saía dele”, diz Eid. “A formosura da pintura de Silva é justamente nos conduzir em direção ao mundo que ele habitava.”

Folha

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