Juiz de Fora: desastre reflete negligência com aquecimento global

Juiz de Fora: desastre reflete negligência com aquecimento global

Brasil

Os temporais que deixaram pelo menos 3 milénio pessoas desabrigadas, 400 desalojados e 47 mortos na Zona da Mata mineira são revérbero de negligência com as mudanças climáticas. A avaliação é de especialistas ouvidos pela Escritório Brasil que consideram os fatores climáticos e humanos responsáveis pelas fortes chuvas em Juiz de Fora e Ubá, com enxurradas, deslizamentos de terreno e cheias de rios supra do normal.

“Quando estamos falando de extremos, de riscos ambientais, estamos falando de mudanças climáticas”, afirmou o geógrafo Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federalista de Juiz de Fora (UFJF).

De combinação com ele, a prevenção passa pela adoção de uma agenda de políticas públicas para o meio envolvente, tema que tendo sido negligenciado nos últimos anos. “Toda essa vaga negacionista, relacionada às mudanças climáticas, obviamente reverbera agora em desastres uma vez que esses”.

Para Felippe, técnico em hidrologia, geografia física e riscos socioambientais, as chuvas extremas, os eventos extremos, tendem a permanecer mais comuns daqui para a frente.

A negligência ocorre em todos os níveis de governo no Brasil e no mundo, onde a tarifa climática, da qual faz secção o planejamento urbano, é apresentada por políticos uma vez que um entrave ao desenvolvimento econômico, analisou o geógrafo. “Essa falsa contraposição continua sendo usada uma vez que ativo na disputa eleitoral”, analisou.


Juiz de Fora (MG), 25/02/2026 – Casas são destruídas após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Juiz de Fora (MG), 25/02/2026 – Casas são destruídas após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Casas são destruídas em seguida fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora – Foto Tomaz Silva/Escritório Brasil

Mesmo assim, explica, é na política que é preciso buscar soluções. O professor da UFJF  sugere encetar pelo ordenamento urbano das cidades. Segundo ele, o poder público perdeu o controle dos terrenos para o capital imobiliário que, na prática, define qual o valor dos imóveis e, logo, o perfil socioeconômico dos moradores. O resultado é que as pessoas pobres são empurradas para áreas de menor valor econômico, que são as de maior risco de sinistro ambiental.

“O exposição de que as pessoas pobres não devem ocupar áreas de risco despreza o elemento mais importante: é o capital imobiliário que define quem vai morar aonde”, destacou.

Dessa forma, segundo Felippe, as áreas com maiores perdas de vidas e materiais, em Juiz de Fora, são os bairros pobres. “Esta é a população com menor capacidade de resiliência e que vai ter mais dificuldade de se reconstituir”

O professor lembrou que as áreas de risco são conhecidas. No entanto, ações de mitigação, secção da política ambiental, esbarram na falta de recursos. “Pelo que li nos jornais, em Minas Gerais verbas destinadas ao enfrentamento de chuvas sofreram cortes expressivos entre 2023 e 2025”, afirmou.

Levantamento realizado pelo Jornal O Orbe, com dados oficiais do Portal da Transparência, mostra que caíram os recursos para a resguardo social estadual, de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões, coincidindo com o segundo governo de Romeu Zema. Procurado pela reportagem, o governo estadual não comentou.


Juiz de Fora (MG), 25/02/2026 – Bombeiros retiram corpo de escombros após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Juiz de Fora (MG), 25/02/2026 – Bombeiros retiram corpo de escombros após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Bombeiros retiram corpo de escombros em seguida fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora – Foto Tomaz Silva/Escritório Brasil

As políticas e resiliência precisam incluir também a conscientização da população, de combinação com Felippe. Em muitos casos, moradores de áreas de risco não sabem o que fazer em casos de alertas geológicos. “É preciso ir a campo, conversar com as pessoas, instruir, ter um projecto de contingência muito evidente”, recomendou.

A maioria das vítimas dos temporais de segunda-feira (23) é de Juiz de Fora, cidade que tem uma das maiores proporções de pessoas morando em áreas de risco, segundo o Núcleo Pátrio de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). De combinação com o órgão, o município recebeu, em um dia, quase toda a chuva esperada para fevereiro, com impactos concentrados nos bairros Morro do Imperador, Paineiras e Parque Burnier, onde a Escritório Brasil relatou um resgate.

Combinação de riscos

A topografia da cidade, em dimensão de serra, com suscetibilidade procedente a deslizamentos e inundações, ajuda a explicar porque ela é uma das que mais recebem alertas do Cemaden.  A posição geográfica faz com que Juiz de Fora receba umidade vinda direta do mar. E, uma vez que o mar está mais quente, há mais evaporação de chuva que, ao subir e encontrar as montanhas, deságua em chuvas, explicou Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden.

De combinação com o meteorologista, o aquecimento global está por trás desse efeito. “O Oceano Atlântico está muito mais quente do que o normal. Na costa, a temperatura está 3 graus Celsius (°C) supra do normal e isso é muito para o oceano”, avaliou. Seluchi explicou que o ar que transita em cima do mar carrega mais umidade.

“Nos últimos anos, temos mais umidade do que costumamos ter nesta idade e isso é uma consequência do aquecimento global”, afirmou. “Esse é um preço que pagamos pelas decisões tomadas no pretérito”, avaliou, criticando o descumprimento de acordos internacionais para sofrear os impactos no clima.

“O que nos resta? Nos adaptarmos. Tornar as cidades mais resilientes a esses desastres, o que é muito mais difícil”. Uma vez que considera que sofrear inundações e deslizamentos é mais difícil, para ele o visível é retirar as pessoas sempre que houver um alerta, além de controlar a expansão de áreas de risco.


Juiz de Fora (MG), 25/02/2026 – Moradores retiram móveis de suas casas  após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Juiz de Fora (MG), 25/02/2026 – Moradores retiram móveis de suas casas  após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Moradores retiram móveis de suas casas em seguida fortes chuvas em Juiz de Fora – Foto Tomaz Silva/Escritório Brasil

Seluchi cita uma vez que exemplo a experiência do Japão, país frequentemente afetado por grandes desastres, que treina os moradores para evadir nesses casos. “A Resguardo Social não evacua um por um. Ali, as pessoas já sabem a rota de fuga”.

Resiliência das cidades

Pensando também na resiliência das cidades, dentro de uma política para o enfrentamento das mudanças climáticas, há soluções de engenharia que podem ser adotadas, na visão do professor da Escola Politécnica da Universidade Federalista do Rio de Janeiro (UFRJ), Matheus Martins, técnico em drenagem urbana.

Ele lembrou que Juiz de Fora cresceu do vale do Rio Paraibuna para as encostas e que, por isso, é uma cidade muito suscetível a cheias e a deslizamentos com as chuvas.

“Trata-se de um vale encharcado que, quando tem excesso de chuva, a chuva ocupa a planície, inundando a várzea, que é onde a cidade cresceu”, afirmou.  

Para evitar tragédias nessas áreas mais próximas aos rios, ele sugere intervenções uma vez que pôlders, uma técnica que consiste em isolar uma dimensão inundável por meio de muros e utilizar bombas para remover o excesso aos poucos. Essa mediação de engenharia, conhecida no Brasil, vem da Holanda, país no nível do mar que exige manutenção regular, embora só seja usada a cada dez ou 20 anos.


Juiz de Fora (MG), 24/02/2026 - Rio acima do nível normal após fortes chuvas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Juiz de Fora (MG), 24/02/2026 - Rio acima do nível normal após fortes chuvas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

 Rio sobe supra do nível normal em seguida fortes chuvas em Juiz de Fora – Foto Tânia Rêgo/Escritório Brasil

“Talvez, para grandes volumas [de chuva], o aluvião seja inevitável”, disse o professor da UFRJ. “Mas temos que trabalhar a cidade para que ela consiga conviver o melhor verosímil com isso e os pôlderes são uma das soluções”.  

Nessas áreas mais baixas, de várzea, próximas aos rios, outra opção, sugere, é a construção de parques públicos, quando verosímil, além de intervenções para tornar o solo mais poroso, medida que deve ser adotada também nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, que também vêm sofrendo com inundações.

“No solo com floresta, projetamos que 10% da chuva vão escoar, mas 90% ficam retidos, se infiltrando aos poucos no solo. Uma chuva de dia a dia, num bairro urbanizado,  é quase o contrário: 10% ficam retidos em pequenos pontos, no telhado, em buracos; na urbanização, 90% viram escoamento superficial [que gera alagamento]”, disse.

A prefeitura de Juiz de Fora tem estudos para fazer intervenções em bairros específicos, mas as obras ainda não foram concluídas. Somente o governo federalista aprovou R$ 30,1 milhões para contenção de encostas no município entre 2024 e 2025 por meio do Novo PAC, mas, segundo o Ministério das Cidades, recursos de R$ 1,2 milhão foram liberados. Para drenagem urbana, há um repasse de R$ 356 milhões programado.

As obras são do projeto de macrodrenagem Juiz de Fora + 100, da prefeitura, e incluem os bairros de Santa Luzia, Industrial, Mariano Procópio e Democrata.

Fonte EBC

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