Julio Bressane exibe novo curta na mostra de Tiradentes

Julio Bressane exibe novo curta na mostra de Tiradentes – 25/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

No palco da tenda onde ocorrem as principais exibições da Mostra de Cinema de Tiradentes, Julio Bressane pediu paciência aos espectadores. Despreocupado, a voz baixa, não tentou induzir o público a uma ou outra visão de “O Fantasma da Ópera”, curta-metragem codirigido com Rodrigo Lima que abriu o evento, numa sexta-feira atipicamente chuvosa na cidade mineira.

Disse somente que o mais interessante é aquilo que desagrada, e que se tivesse disposição, o público poderia encontrar, ao final do filme, uma “manancial de chuva cristalina”.

No dia seguinte, mais aclimatado à correria do festival, falava mais entusiasmado, gesticulava, enquanto era cobiçado pelos jornalistas e pelo público, tentando desvendar os mistérios deste veterano que completa 80 anos em fevereiro, mais de 60 filmes nas costas. E, porquê ele costuma repetir, são os filmes —não só os dele— que escondem o cinema.

“O filme aparece quando ele está oculto. O ocultar é o nascer dele. É uma questão de frase, de perceber esse fantasma que faz a ópera. É a velha história do máscara de ferro”, diz o cineasta.

Ele se refere à trama gótica de Gaston Leroux, que inspirou tanto o cinema mudo porquê um dos espetáculos mais longevos da Broadway, sobre o varão desfigurado que vive nos subterrâneos da Ópera de Paris. “Ele é que luta, fazendo a coisa ocorrer. É o inconsciente que te movimenta, sem que você perceba o que é.”

Em 26 minutos, Bressane e Lima articulam imagens feitas durante a rodagem de “Pitico, Hermes Aires Azevedo (1881-1959), Historiador da Província”, um longa prestes a ser finalizado, sobre a gênese de uma pequena cidade do interno. Escoltado da atriz Josie Antello, o protagonista será Paulo Betti, um ator que faltava no estrelado repertório do cineasta carioca.

“Mas não tem zero a ver com making of”, afirma Bressane, formal. “Quando começamos a separar o material, surgiu o filme e o fantasma, e o desaparecimento e a morte do fantasma —que sou eu.”

Bressane nunca se escondeu das câmeras. Não é incomum que seus filmes, desde os anos 1960, rasguem a cortinado da ilusão, revelando o entorno do cinema, as equipes que compõem o seu ateliê. Dessa vez, essa presença é mais ostensiva.

Num preto e branco pelas lentes do fotógrafo Pablo Baião, Bressane aparece com a farta barba branca que deixou crescer nos últimos anos. Com uma aura profética, qual o são Jerônimo que retratou num filme de 1999, ele dá orientações aos atores e técnicos.

“Não é uma representação, é um movimento de geração”, diz. “Ali é minha finitude. Quando você acaba um filme, o diretor morre.” Ele afirma ainda que não dirige os atores, somente dá a eles uma situação e deixa que a câmera os acompanhe porquê os modelos de uma pintura. Os olhos esbugalhados e as mãos espalmadas são os gestos de uma mente guiada pelo cinema —luz e movimento.

Daí que tampouco está interessado em esconder os mecanismos dos ditos efeitos especiais. No caso do “Fantasma da Ópera”, impressiona as milénio formas com que a equipe trabalha uma cadeira de balanço. Ora ela parece oscilar sozinha, ora vemos o fio de nylon que alguém puxa para produzir o movimento.

Depois, é Betti quem repousa no traste, escondido por um lençol iluminado, enquanto a câmera registra esse jogo de sombras. Por termo, é o próprio Bressane quem rapidamente senta na cadeira, num “fast-forward” fantasmagórico.

“A repetição para mim é um tanto fundamental. Repetição significa desigualdade”, afirmou, em uma conversa ensejo para o público, na noite de sábado.

Foram, aliás, 40 minutos em que Bressane se abriu de forma pouco usual, interrompidos bruscamente por uma queda de robustez. Amaciado pela pequena povaréu de jovens aos seus pés, alguns até pedindo autógrafos, se emocionou quando o ator Miguel Falabella, da plateia, lembrou porquê foi viver o Júlio César de “Cleópatra”, em 2007. Em próprio, a cena da morte do personagem, quando ele cobre o próprio rosto com sua túnica antes de desabar esfaqueado.

Em meio ao papo, Bressane enfatizou que “a grande questão da arte é a frase de uma emoção”. “Não há nenhuma imagem que seja desprezível. Desprezível é sempre você, que não compreende aquela imagem que lhe faltou. Todas as imagens têm alguma coisa.”

A fala parece uma resposta às críticas daqueles que não embarcam nas suas obras, por vezes taxada de hermética, mas também ilustra sua visão do atual estado do cinema.

Apesar de ter elogiado “Palco Leito”, sobre Zé Celso, e ter prestigiado a sessão de “Querido Mundo”, de Falabella, no evento, Bressane prefere não comentar outras produções nacionais no universal, lembrando um recomendação do camarada francesismo Claude Chabrol —nunca fale do filme de gente viva.

“Um arranhãozinho, uma simples batida pode virar uma ferida capaz de matar”, diz. “Hoje, eu não me sinto em condições de fazer esse tipo de exclusão.”

Parece também uma forma de se reservar à sua visão pessoal da produção de cinema, imparável mesmo entre as crises —a ditadura militar, o exílio, o termo da Embrafilme, os buracos nas políticas públicas de fomento etc.

“A questão do cinema porquê negócio é importante. Quer manifestar, hoje tem transacção de tudo. Mas você, porquê pessoa, tem que ver a premência na qual a sua patologia insiste.”

De certa forma, Bressane soube manter um ritmo quase industrial às margens de uma aparelhagem pátrio, ao lado de parceiros históricos porquê Rogério Sganzerla e de toda a equipe da TB Produções —incluindo aí sua mulher, Rosa Dias, as filhas Tande e Noa, o diretor Bruno Safadi, além de Lima, montador de seus filmes há quase duas décadas.

A sensação deixada por “O Fantasma da Ópera” é de que Bressane, de roupa, contempla o termo serenamente. O curta parece um irmão de outras investidas recentes, porquê “A Longa Viagem do Ônibus Amarelo”, de sete horas, ou “Relâmpagos de Críticas, Murmúrios de Metafísicas”, filmes-montagem em que revê fotogramas de filmes seus e de outros autores.

Nos últimos minutos do trabalho, o cineasta vetusto aparece caminhando por uma trilha, envolvido pela natureza, até trespassar de cena. Ficam somente as silhuetas negras de folhas sobre a tela prateada, enquanto a sala se preenche com um jazz de Johnny Dodds.

“A minha desgraça é uma coisa músico”, resume o fantasma.

O jornalista viajou a invitação da Universo Produção

Folha

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