Kiyoshi Kurosawa faz do cinema elo de homens e fantasmas – 16/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Mesmo com quase 70 anos, Kiyoshi Kurosawa parece um verdadeiro nativo da internet. O cineasta nipónico usa conexões virtuais para expor sintomas do mundo contemporâneo. Divididos entre aparelhos eletrônicos e a veras, seus personagens parecem sempre à margem de perder a humanidade.

“Cloud”, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta (17), navega pelo tema ao investigar a rotina de um revendedor online. Técnico em golpes, Yoshii, papel de Masaki Suda, se esconde detrás de gigabytes de dados enquanto uma legião sanguinária se forma ao seu volta. Mal sabe ele que um perfil anônimo não é o suficiente para protegê-lo desse cerco.

Inspirado na onipresença do sistema de dados —a tal da nuvem que batiza o longa—, a atmosfera é de paranoia, conforme tudo perde valor num clique. “Mais do que fazer qualquer sátira, procuro mostrar que a internet está em todo lugar. É uma utensílio que se tornou procedente em nossas vidas. Nem por isso ela deixa de ser muito perigosa”, afirma Kurosawa.

Numa obra inspirada por justiceiros duvidosos que viraram notícia no Japão —porquê o jovem “celerado do Twitter” que atraía mulheres com tendências suicidas para sua vivenda— e pelo lado obscuro da rede, o diretor diz ter feito seu primeiro filme de ação.

Embora recicle suas numerosas produções sobre a yakuza —títulos porquê “O Caminho da Serpente”, em que um varão procura vingar a realização da filha, são numerosos na sua produção dos anos 1990—, ele troca a máfia japonesa por anônimos.

“Penso que as redes são capazes de condensar a malícia humana. Talvez as pessoas tenham somente uma pequena malícia em seus corações. Virtualmente, ela pode se transformar em alguma coisa muito maior.”

Se os perigos de “Cloud” partem de plataformas de venda e fóruns virulentos, as discussões de Kurosawa não se restringem a websites. Há, na verdade, uma patologia social evidente, conforme TVs, celulares e monitores surgem por todos os cantos ressaltam a falta de contato humano. O mal-estar compartilhado, traduzido em luzes frias, planos de longa duração e interpretações contidas.

Inscritos em gêneros que vão do drama ao horror —gênero que projetou o cineasta com “A Tratamento”, de 1997, no qual ele explora a pulsão de morte a partir de traumas— os protagonistas convivem com seres subordinados à mesmice da rotina. É porquê se desaparecessem de seus corpos, dando espaço para que alguma coisa sobrenatural os possua.

“Ainda que nem todos sofram mortes brutais, sinto que é geral que muitos sejam simplesmente descartados. Essa parece ser uma veras no Japão, onde, sempre que provável, humanos são tratados porquê se não fossem pessoas”, diz Kurosawa.

A vexame aparece desde os curtas que rodou na universidade, cujas filas de cadeiras reforçam padrões dos quais é impossível evadir. Apesar da formação em sociologia, foi lá que o nipónico aprendeu a idealizar filmes com o crítico Shigehiko Hasumi. Mais tarde, em seguida produzir comerciais e longas baratos, conseguiu uma bolsa para estudar cinema nos Estados Unidos.

Afetados pelos ideais americanos e seus falsos milagres na economia japonesa, os indivíduos que retrata permanecem enquanto fantasmas, presos o mundo analógico e o virtual.

Revérbero disso, em “Cloud”, é o primeiro ataque dos justiceiros, quando um estranho se anuncia detrás de uma porta. Distorcido pelo revérbero do vidro, o rosto mascarado lembra um vulto inexplicável. A textura das câmeras digitais atualiza os pesadelos de Kurosawa capturados em grãos de película.

É uma versão em músculos e osso de aparições porquê as de “Pulse”, lançado pouco em seguida a viradela do milênio. No terror, aqueles que acessam um site misterioso são aprisionados no ciberespaço. Vítimas da solidão, tornam-se manchas escuras, destinadas a atormentar os que ficaram.

Anos depois, o cineasta denunciou outras consequências do capitalismo tardio em “Crimes Obscuros”. A trama segue um detetive assombrado por uma mulher de vestido vermelho. A peça paira no ar porquê vestígio material dos que partiram. Dessa vez os fantasmas emergem de terrenos baldios e construções abandonadas. Foram esquecidos pela urbanização mal planejada e vagam por ruínas da periferia.

Em “Cloud”, essa desumanização se vê pelas mortes, que acontecem porquê numa traço de produção. É alguma coisa que se aproxima de “Sessão Espírita”, telefilme sobre uma médium que encontra uma moça desaparecida e decide usá-la para alavancar sua curso. A comercialização de habilidades sobrenaturais faz a moço remunerar com cicatrizes e sofrimentos.

Para piorar, o uso minimalista da música dá um tom mais sequioso às histórias. “Em ‘Cloud’, quando há muitas mortes, eu nunca uso música. Em filmes porquê esse, trilhas sonoras típicas do cinema americano facilitariam a compreensão. O uso de uma música triste, por exemplo, transformaria a cena em uma situação terrível. Prefiro que o testemunha decida: ‘o que vocês acham disso, do descarte de pessoas porquê se fossem objetos?’”, diz Kurosawa.

Talvez o vértice de sua manipulação sonora esteja em “Sonata de Tóquio”. O drama de 2008 segue as mudanças de uma família em seguida o pai perder o tarefa. Em meio a hordas de desempregados que perambulam pelas ruas e casas apertadas com moradores dissociados uns dos outros, o fruto mais novo é um resquício de esperança.

Seu sonho de tocar piano atravessa o dia a dia monótono em sequências pontuais, quando o instrumento raramente está em tela. A sonata surge porquê força mística e tenta superar o sistema trabalhista.

Com o tempo, o diretor diversificou os estilos e os fantasmas assumiram outras roupagens. Em “Antes que Tudo Desapareça”, de 2017, alienígenas usurpadores de corpos tentam destruir a Terreno, mas a relação de um deles com uma humana põe o projecto a perder. O choque entre romance, ficção científica e suspense desafia a sociedade dormente.

Dois anos depois, Kurosawa trocou as cidades japonesas pelas montanhas do Uzbequistão. Naturalista, “O Termo da Viagem, O Início de Tudo” põe uma repórter japonesa para enfrentar outra cultura enquanto procura a material perfeita. Cercada de olhares, costumes incomuns e uma língua dissemelhante, ela é assombrada por dúvidas e sonhos há muito enterrados.

Já em 2020, a preferência foi pela Segunda Guerra Mundial. Em “A Mulher de um Espião”, militares dominam um Japão coligado a nazistas. Ao esconder segredos de governo em filmagens caseiras, um parelha tenta volver a devastação. Ainda que indiretamente, os mortos se acumulam no inconsciente da dupla e o roteiro questiona a núcleo dos registros históricos. Quem sobra para preservá-los?

“Embora a veras possa ser assustadora, pequenas boas ações, quando feitas por muitas pessoas, podem gerar alguma coisa extremamente positivo”, afirma o cineasta. Sempre prolífico —sua obra já soma quase 70 filmes, desde os anos 1970—, o ano de 2024 foi um dos seus mais ambiciosos.

Junto de “Cloud”, Kurosawa ainda lançou o média-metragem “Chime” —terror disponível porquê NFT em que facas afiadas seduzem um chef de cozinha— e um remake gaulês de “O Caminho da Serpente”.

Nem por isso considera a perceptibilidade sintético para agilizar seus processos. “Não condeno, mas não vejo sentido em usar IA e algoritmos para planejar possíveis hits. Tenho evidente, para mim, a diferença entre o que é fabricar e o que é lucrar moeda.”

Folha

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