Klaus mitteldorf faz mostra que encerra fase na fotografia

Klaus Mitteldorf faz mostra que encerra fase na fotografia – 24/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Uma mulher de olhar distante surge envolta por linhas que cruzam seu corpo, uma vez que se a retrato tentasse evadir das amarras impostas pelo mundo do dedo. A imagem, uma das mais emblemáticas da série “Fade Nudes”, sintetiza o espírito da novidade exposição de Klaus Mitteldorf, “MMXXV”, que abriu nesta quinta (23), na Carcará Photo Art, em São Paulo. São imagens que escondem e revelam —uma vez que o próprio artista, aos 72 anos, revendo meio século de trajetória para se reinventar mais uma vez.

A mostra reúne murado de centena trabalhos inéditos, criados entre 2018 e 2025, período em que Mitteldorf mergulhou em seu vasto registo pessoal —mais de 60 gavetas de negativos acumuladas desde os anos 1970. Forçado pelo isolamento da pandemia a interromper projetos de cinema, ele voltou-se para dentro.

“Comecei a rever meus trabalhos e a fantasiá-los. Descobri coisas que eu mesmo não sabia que existiam”, afirma. Dessa submersão nasceram séries uma vez que “Pandemia”, “Entre Espelhos”, “Identidades” e “Game Over”, reunidas agora em uma espécie de florilégio visual que marca o termo de um ciclo criativo.

Não se trata, mas, de uma retrospectiva. “MMXXV”, explica o artista, é um retrato de si mesmo no presente. “Passei por 70 anos, 50 anos de retrato, e falei: ‘quem sou eu hoje?’ O número romano 2025 resume exatamente isso.” O projeto deu origem também a um livro homônimo, com design de Marcos Pereira de Almeida e tratamento de imagem do Estúdio 321, que acompanha a exposição uma vez que catálogo expandido.

A curadoria de Rubens Fernandes Junior destaca o rigor gráfico e a ousadia cromática que sempre caracterizaram o responsável. Pioneiro na retrato de surfe e skate nos anos 1970, Mitteldorf construiu uma curso marcada pela experimentação —nas cores, nas narrativas e nas formas de desconstruir o corpo. Ao longo de cinco décadas, publicou 16 livros e expôs em instituições uma vez que Masp, MAM, Pinacoteca, MAB Faap e o Museu Ludwig de Colônia, na Alemanha.

Nas imagens de “MMXXV”, a retrato encontra o traço pitoresco. Camadas se sobrepõem, transparências se cruzam, cores se inventam. “Hoje posso desmontar e remontar as imagens no computador, dar contrastes e transparências que antes não eram possíveis. Isso cria uma sensação de pintura, mas vem da retrato. É um processo automático, quase intuitivo”, afirma. A experimentação, diz ele, é a sua forma de terapia.

O isolamento da pandemia também trouxe um olhar novo para a passagem do tempo. No capítulo “Minha Lar à Orla-Mar”, Mitteldorf montou paisagens imaginárias com fotos feitas pelo celular, misturando lembranças de viagens com o libido de liberdade. “Comecei a fantasiar uma vez que seria a minha moradia à litoral, porque eu não podia ir à praia”, conta. Já em “Game Over”, o artista veste suas “guerreiras” —modelos estilizadas por Gabriela Couzón— com roupas futuristas.

Há também sátira e ironia. “Fade Nudes” responde à exprobação velada das redes sociais e ao conservadorismo do olhar contemporâneo. “Passei linhas sobre os corpos para esconder aquilo que os aplicativos não deixam mostrar. É uma sátira à liberdade de frase reduzida”, afirma. O artista recupera sua velha paixão pela mitologia grega e egípcia, reencenando deuses e heroínas uma vez que arquétipos modernos, reinventados com a textura do do dedo.

“MMXXV” é também um ponto de inflexão. Posteriormente lançar seu primeiro longa, “Vou Nadar Até Você”, no Festival de Gramado de 2019, Mitteldorf agora volta-se de vez para o cinema. Ele prepara dois novos projetos: um sobre o lendário incidente do Verão da Lata, de 1987 —quando um navio despejou 22 toneladas de maconha no mar do Rio de Janeiro—, e outro chamado “Toga Vermelha”, um filme policial sobre vingança, nascido do personagem criado no tentativa “Entre Espelhos”. “Sempre quis fazer cinema. Na verdade, parei de fazer cinema para ser fotógrafo —para continuar fazendo cinema”, diz.

Mesmo diante de um mundo pulverizado por redes e excesso de imagens, Klaus segue acreditando na arte uma vez que gavinha. “Hoje há milhares de pessoas fazendo coisas boas, e é difícil furar essa bolha. Mas a arte ainda é o que junta as pessoas num mundo dividido”, afirma. Entre memórias, ele transforma o termo em recomeço —um “game over” que é, na verdade, “press start”.

Folha

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