Kleber mendonça: brasil foi montado errado 13/09/2025 ilustrada

Kleber Mendonça: Brasil foi montado errado – 13/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“O Agente Secreto”, novo filme de Kleber Mendonça Fruto, retoma vários temas que já há muito tempo habitam a filmografia do cineasta. A ditadura militar, o Nordeste, a política brasileira, a sexualidade, o Recife. Mas o longa, que abriu o 58º Festival de Brasília nesta sexta (12), traz, porquê mecha da tensão que aflige o personagem de Wagner Moura, um tema novo —ciência e tecnologia.

No filme, há um núcleo de primazia de tecnologia no Nordeste. Um medalhão de São Paulo vai lá para saber e fica totalmente estarrecido com o que está acontecendo ali, reage da pior maneira verosímil. É a frase de uma mentalidade de que a primazia não pode ocorrer no Nordeste, explica o diretor.

“A grande questão para mim é que o Brasil foi montado incorrecto. Toda a riqueza ficou concentrada numa região só. Isso explica muitos dos problemas do país”, diz Mendonça Fruto. “Tudo ficou muito concentrado no Sudeste e no Sul. Raramente houve uma modificação de curso para isso.”

“Acho que nos governos Lula já começou a ter alguma modificação de curso em relação a isso. Mas ainda há uma reação muito potente à teoria”, completa.

A sintonia entre cinema e tecnologia é um tanto que está ficando cada vez mais nítido também fora das telas, no mercado audiovisual brasílico.

Atualmente, as discussões de políticas públicas para o audiovisual mais urgentes estão diretamente ligadas à tecnologia. Tenta-se validar a regulamentação das plataformas de streaming, que já estão no país há uma dez e meia, mas não pagam Condecine, a Tributo para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Vernáculo, que alimenta a produção brasileira. Há ainda importantes discussões em curso sobre a lucidez sintético generativa, que prenúncio empregos no setor cultural, além de que ferramentas de IA sabidamente usam dados do rico montão cultural brasílico, sem a remuneração de direitos autorais, para treinar seus modelos de linguagem.

Na superfície de cultura, as políticas públicas, diz o diretor, têm tido sucesso na descentralização.

“Eu, por exemplo, fiz meu primeiro filme porquê segmento de uma quota [de financiamento] para o Nordeste. Hoje tem cineastas fazendo filmes de lugares que nunca faziam filmes antes” diz. Segundo ele. “30 anos detrás seria impossível”.

“Existe hoje uma pluralidade por culpa de políticas públicas”, diz. Ele aponta, porém, para o mercado do streaming, onde prevalecem outras regras, as de mercado, e onde, ele diz, há grande concentração.

“Quais são as produtoras que lidam com o grande moeda de streamings para fazer séries e originais no Brasil? As decisões aí não são de política pública. As decisões aí são de marketing, de mercado. Logo, o Brasil inteiro está filmando por políticas, mas as decisões de moeda privado continuam com um protótipo de 50 anos detrás.”

Desde que o governo Lula (PT), assumiu, há iniciativas que miram na desconcentração de recursos por segmento do Ministério da Cultura. Exemplos são programas porquê Rouanet das Favelas, Rouanet do Nordeste e Retomada Cultural RS. Há ainda, segundo ela, diálogo do ministério com algumas empresas que têm lançado editais para abranger projetos com públicos e territórios menos beneficiados pelo mecanismo.

O programa Arranjos Regionais do Audiovisual, por exemplo, destinará R$ 300 milhões para fomentar a produção audiovisual em todo o Brasil —70% dos recursos são destinados a Setentrião e Nordeste e 30% para Sul, Minas Gerais e Espírito Santo.

Assim porquê em ‘O Agente Secreto’, há pessoas incomodados com essa política de descentralização, diz Kleber.

No final de “O Agente Secreto”, vem escrito nos créditos: “A realização e distribuição deste filme utilizou recursos públicos e privados, gerando 1300 empregos diretos e indiretos”, seguido de “Além de ser identidade de um país, a cultural é também indústria”.

“Essa mensagem já estava em ‘Bacurau’, no momento em que o cinema foi desmontado, a cultura foi desrespeitada e o Ministério da Cultura foi extinto”, diz. O longa foi lançado em 2019, primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro (PL).

“É uma maneira de lembrar que a cultura é feita por trabalhadores”, diz Kleber. “E dentro do oração da extrema-direita com tendência fascista, a cultura é um inimigo. Só que ao combater esse inimigo, eles estão machucando a economia.

“A frase foi muito muito pensada para lembrar o óbvio, que é o que você faz quando vive num regime sem tendências democráticas —lembrar o óbvio.”

“O Agente Secreto” abriu o 58º Festival de Brasília do Cinema Brasiliano, um dos mais tradicionais do país, nesta sexta (12).

A solenidade parecia ignorar o clima que pairava sobre Brasília, um dia em seguida a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pelo supremo tribunal federalista. Até que o marasmo das falas institucionais foi quebrado por um grito vindo da plateia: “Sem anistia!”

Na manhã deste sábado, Kleber afirma que “é muito estranho que, nesta semana e semana passada, você continue lendo a combinação de palavras ‘anistia ampla, universal e restrita’ em 2025”. É muito “Acho que isso vem de um traumatismo místico do nosso país, que é olvidar todos os estupros, sequestros, assassinatos e torturas e globo para frente, não vamos falar sobre isso.”

“A lógica contemporânea do Brasil, se a gente pensar no Brasil porquê uma democracia, é muito dissemelhante da lógica dos anos 1970 e dos anos 1960, quando tínhamos um regime militar”, diz o diretor. “Mas nos últimos dez anos, eu comecei a perceber a volta de coisas que eu achava que tinham sido aposentadas e que de roupa estavam num museu de péssimas ideias do nosso país”

Folha

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