Pouco —ou, convenhamos, muito pouco— foi dito ou discutido acerca do legado artístico deixado por Preta Gil, tanto em vida quanto em seguida sua morte, que completou um mês nesta quarta-feira (20). Se analisarmos, há diversas razões para identificarmos a razão dessa vácuo. Levante texto, no entanto, propõe-se a investigar, brevemente, porque o legado da cantora, morta aos 50 anos, ultrapassou os perímetros dos palcos ou dos estúdios de música.
Foi aos 29 anos que Preta revelou-se —a vocábulo é precisamente esta, no caso dela— à esfera pública brasileira, quando, fotografada pela icônica Vânia Toledo, apareceu nua em pelo nas fotos de divulgação de seu primeiro álbum de estúdio, intitulado “Prêt-à-Porter”. Título, aliás, um tanto preciso: na linguagem da voga, “prêt-à-porter” significa, literalmente, “pronto para vestir”, uma categoria de vestimentas que distingue-se da pompa e da exclusividade do “haute couture”, a “subida costura”.
Não poderia ter título mais favorável. Preta estava pronta para vestir —ainda que não soubesse— uma verdadeira armadura, uma espécie de casca, que tentaria lhe proteger dos olhos ávidos e muitas vezes cruéis do grande público. Finalmente, uma vez que uma mulher negra, gorda e assumidamente bissexual lança-se ao estrelato, vindo de uma das mais importantes famílias da música no país, deitada no pavimento do estúdio de Toledo, e fazendo caras, bocas, poses e afins, fitando as lentes da câmera com um misto de audácia e deboche.
Preta não teve pânico. À era, apesar do single do álbum, “Sinais de Lume”, escrito por Ana Carolina, ter sido um hit radiofônico que até hoje toca em distintas esferas, a estrela novata entendeu que o mundo não era a bolha idílica e utópica na qual havia desenvolvido. “Sobrinha” de Caetano Veloso e Maria Bethânia, afilhada de Gal Costa e, evidentemente, filha de Gilberto Gil, Preta Maria havia nascido em um princípio de ouro e de palha. Não lhe faltou o requinte e o conforto que sua posição socialmente privilegiada lhe trouxe, ao passo em que foi, desde cedo, embebida pelo ethos tropicalista de seus familiares.
Se a nudez lhe parecia um tanto corriqueiro —finalmente, sua dinda Gal, por exemplo, havia feito já em 1973 uma envoltório de disco tão ousada quanto a de Preta, no LP “Índia”, censurado na era de seu lançamento por conta da foto que consistia em um “close-up” de sua genitália vestida, marcando um biquíni laranja apertado— tal escolha não foi ao encontro do paladar das massas.
Nas últimas duas décadas, Preta emplacou outros poucos sucessos musicais. No entanto, nunca —nem sequer por um breve momento— deixou de ser uma figura pública de relevância vernáculo, por razões distintas e amplamente variadas. Preta era uma entertainer, digamos. Cantora, apresentadora, atriz, empresária, filha, mãe, avó. E amiga. É comovente ver o pranto coletivo que se abateu sobre o círculo de amizades e fãs da artista. Círculo levante sendo capaz de incluir da cúpula erudita da turma da geração de seus pais até o extremo oposto do pop massificado, dos blocos de rua, das festas gays, dos rolês onde a inclusão é a palavra-chave.
Mora aí, quem sabe, a mais radical atitude de Preta e que reverberará em seguida sua passagem. Se a tropicália foi, além de uma revolução músico, um grande movimento artístico que se espalhou por outras linguagens da arte e também para a esfera do comportamento, Preta é um símbolo enorme da legado do que seu pai e seus comparsas chacoalharam na cultura brasileira. Finalmente, era o tropicalismo que estava a pregar a união entre as ideias dicotômicas de subida e baixa cultura, a mistura entre a música brasileira e a estrangeira, o “clash” entre o cancioneiro paraguaio misturado ao songbook americano, Vicente Celestino encontrando as guitarras elétricas.
E, sobretudo, através da matriz neoconcreta —representada na obra plástica de artistas uma vez que Hélio Oiticica e Lygia Clark— a tropicália deixou a indelével marca em nossa cultura da teoria da experiência na arte. A vida enquanto a própria obra de arte, a vivência totalidade daquilo que se cria e a geração do que se vive. Preta deixou uma obra prenha de vida, pulsante em alegria (“a prova dos nove”, já dizia seu pai no disco “Tropicália”, de 1968), radical em liquidificar o que ainda é considerado “high” ou “low”, sem diferenciá-los. Para Preta, havia lugar para tudo, todos, todas, todes, tanto. Seu legado artístico é, sim, digno de uma tropicalista de carteirinha. Não passará —mesmo!— despercebida pelas décadas por vir.
