Légua tirana: luiz gonzaga é produto e tradução do sertão

Légua Tirana: Luiz Gonzaga é produto e tradução do sertão – 21/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em “Légua Tirana”, novidade cinebiografia de Luiz Gonzaga que chega aos cinemas nesta quinta-feira, praticamente não se ouvem músicas do rei do baião. Há duas delas —”Vira e Mexe”, o primeiro sucesso do artista, e a tira que dá nome ao filme, já nos créditos. Em vez do ronco do fole, ouvem-se os sons que emergem da terreno no sertão nordestino.

“A gente carregou esse filme de silêncio para que as pessoas pudessem escutar o silêncio do sertão —que não é silêncio, é o coche de boi que aparece de repente, um passarinho, o chocalho. Quando você para de ouvir o que está em primeiro projecto, começa a ouvir todo o resto”, diz Diogo Fontes, codiretor da obra, ao lado de Marcos Roble. “A escuta do sertão está presente na obra de Gonzaga, é a matriz de sua geração.”

É justamente dessa matriz —no caso, a puerícia— que trata “Légua Tirana”. A maior secção do filme acompanha o jovem Luiz Gonzaga, interpretado por Kayro Oliveira, e sua interação com os pais, amigos, desafetos, desconhecidos, a geografia e até figuras míticas do sertão. É a imaginação do envolvente que forjou o artista, nascido na cidade de Exu, no Sertão de Araripe, na lema de Pernambuco com o Ceará.

O espaço e seus habitantes foram incluídos na pesquisa para o filme tanto quanto as fontes bibliográficas usuais de uma cinebiografia —pessoas que conviveram com Gonzaga, livros e pesquisadores. É uma visão do sertão de dentro para fora, diz Roble, ele próprio nascido na região, rebento de agricultores de Serra Talhada, em Pernambuco. Fontes também é nordestino, de Alagoas.

Boa secção da equipe do filme, ressalta o diretor, foi formada por moradores da região de Exu que passaram por um processo de formação e preparação de elenco. Isso inclui Wellington Lugo, que interpreta Luiz Gonzaga em sua versão jovem.

“É um filme que nasce e brota do sertão”, afirma Roble. “Sou muito conectado com essa questão da natureza, de ver o sertão em sua exuberância —na geografia, na flora, na fauna… Isso é muito importante para a gente que nasce e que vive no sertão.”

Até por isso, Kayro Oliveira caiu uma vez que uma luva no papel. Progénito do povo indígena Anacé, de Caucaia, no Ceará, ele tinha unicamente 11 anos quando filmou uma vez que o pequeno Gonzaga. Sanfoneiro que ganhou notabilidade no programa The Voice, da TV Mundo, o ator, hoje com 18 anos, é fã do rei do baião desde a puerícia.

“Eu tinha noção de que era um negócio grandioso, mas não tinha o pensamento de que era uma responsabilidade. Se tivesse, não teria saído do jeito que saiu”, ele diz. “Tem um pouco de mim também. É uma vez que o diretor, o Diogo, sempre fala, todos nós temos alguma coisa de Gonzaga dentro da gente.”

Para os admiradores mais assíduos do cantor, há dicas e referências sutis às suas letras no roteiro e arranjos musicais vez ou outra tocados na sanfona por Kayro de Oliveira. Mas “Légua Tirana”, diz Marcos Roble, se passa num momento em que suas canções mais famosas sequer existiam, menos ainda eram sucesso no país.

O filme mira sua câmera para a relação do menino com o espaço —que nesse caso, não se trata de uma caatinga resumida à seca e ao sofrimento. “A miséria não é presente no filme uma vez que um trilho fácil”, afirma Diogo Fontes.

O jovem ator conta que não teve muita dificuldade de levar à telona sua intimidade com aquela flora e fauna. “Sou indígena, logo muitas das coisas de percorrer no mato, escutar os bichos, eu tive essa vivência também, apesar de ser de uma estação muito mais novidade. Onde eu morava, tive essa oportunidade de andejar no mato, desenredar as coisas. E esse Gonzaga tem isso, né?”

“Légua Tirana” retrata tanto cenas verídicas, uma vez que o trabalho de Gonzaga uma vez que ajudante de tropeiro, em que sofre maus-tratos, situações em que o racismo se fez presente e a paixão pela sanfona herdada do pai. O ator Tonico Pereira dá vida a um padre bastante peculiar, inspirado numa figura conhecida de Exu.

Mas há também o que os diretores chamam de núcleo de encantados, ou personagens lúdicos que dão à obra ares de realismo mágico. Entre essas figuras está uma cigana interpretada por Cláudia Ohana e um cangaceiro vivido por Luiz Carlos Vasconcelos. “A proposta era realizar um sonho do Luiz, de se encontrar com Lampião”, afirma Roble. “O próprio Januário [pai de Gonzaga] também está dentro desse núcleo, ele dá força ao rebento para romper essa barreira.”

A tal barreira é metaforicamente representada pelo paredão da Chapada de Araripe, cenário da maioria das cenas. Ela representa o maior embate do filme —um cabo de guerra entre as forças que puxam o jovem Gonzaga para permanecer no sertão e as outras que o seduzem a viver o mundo que há além daquela terreno.

“É o conflito entre o Luiz do Araripe e o Luiz do Mundo”, afirma Fontes. “É Luiz do Araripe porque é o Luiz da mãe, da Santana, da família, da vivenda. E quando ele rompe com essa muro, rompe também com a mãe. Nesse processo, o filme não o acompanha, mas fica com a mãe. Ele se mantém circunscrito nessa muro.”

É uma vez que se “Légua Tirana” fosse uma obra complementar a “De Pai para Fruto”, a primeira cinebiografia do rei do baião, de 2012, dirigida por Breno Silveira. Naquele filme, a história de Gonzaga é narrada através de sua relação conflituosa com o rebento Gonzaguinha, nascido no Rio de Janeiro.

Há pelo menos duas cenas que se repetem nessas obras, mas de pontos de vista diferentes. “O filme do Breno acompanha de fora, e a gente, de dentro”, afirma Fontes. E se o filme de Silveira tinha o pai, Januário, uma vez que força antagônica, quem agora ocupa esse lugar é a mãe, Santana, ele acrescenta.

Outra figura que dialoga com o filme de 13 anos detrás é Chambinho do Acordeon, que se tornou uma figura conhecida em todo o Nordeste pelo talento com o instrumento e também por dar vida a Gonzagão nas telonas. Ele agora volta ao papel, desta vez para incorporar um rei do baião mais velho.

Chambinho conheceu Marcos Roble em Exu, no centenário de Gonzaga, quando o diretor fez a proposta a ele. “Confesso que fiquei com um pé detrás por já ter interpretado Luiz Gonzaga anteriormente”, diz. “Mas quando ele me mandou o roteiro, me apaixonei.”

O ator ficou seduzido pela teoria de ver na tela uma “muchacho vivendo no sertão e absorvendo aquele universo”, que inclui “bandas de pífanos, repentistas, emboladores, o coco, os aboios”. “Consegui visualizar um gênio da música popular brasileira nascendo no sertão de Pernambuco e levando consigo todas as suas origens. Tudo isso ele aplica no seu instrumento e na sua voz.”

Ele conta que unicamente tranquilizou o jovem Kayro Oliveira nas filmagens, mas afirma que, para viver o artista, um mito nordestino, é preciso se olvidar um pouco do Gonzaga gênio. “A gente teve que se atrelar ao ser humano Luiz Gonzaga. O rebento de Januário e dona Santana. Com toda sua vontade de vencer, mas todas as preocupações —de um matuto, sertanejo, nas brenhas do sertão. E no século pretérito.”

Há outra forma de expressar que o filme procura no humano os elementos que fizeram dele um mito —”Légua Tirana” procura o que há de sertão no rei do baião. “Em estação de São João, você olha para o firmamento e vê uma bandeira tremulando com a imagem de Luiz Gonzaga estampando o infinito”, diz Roble. “Nasci no sertão, sou enamorado por ele. E Gonzaga o representa de uma forma poética, formosa —é a tradução do sertão.”

Folha

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