Agora com dois pés no Brasil, a filarmónica The Lemonheads lança seu primeiro álbum de inéditas desde 2006, “Love Chant”, um disco que equilibra canções mais pesadas com outras acústicas típicas da filarmónica que fez sucesso nos anos 1990, inclusive no Brasil, com alguns shows na quadra.
Os dois pés no país são de Evan Dando, voz, rosto e mente por trás do grupo da gelada Boston. Há dois anos, no início de 2023, ele trocou os Estados Unidos pelo Brasil e veio para cá reconstruir sua vida ao lado da produtora Antonia Teixeira, também autora da foto que ilustra esse texto.
O single “Togetherness Is All I’m After” é uma exemplar leal de “Love Chant”, com as boas melodias que Dando costuma encontrar –em sucessos uma vez que “It’s a Shame About Ray” ou “If I Could Talk I’d Tell You”– misturada com guitarras distorcidas e com o novo peso das composições–cá representado pela desconcertante ingressão da cantiga.
“Eu vou ser uma daquelas pessoas”, desculpou-se ele, na entrevista que deu à Folha, em um estúdio na Vila Mariana. “Acho que é uma das minhas melhores obras. Vou proferir isso porque é verdade”, afirmou, rindo.
De traje, o álbum cai muito nas primeiras audições (“Deep End” e “Wild Thing” são ótimas), mas talvez a obra se ressinta pela falta de um hit óbvio, no nível daqueles que estrelavam os clipes da filarmónica nos anos 1990.
Ele reflete sobre seu processo criativo com a franqueza propriedade dos que já fazem isso há um bom tempo. “Eu faço isso [música] por mim mesmo. Para me confortar. E se outras pessoas gostarem, ótimo. É isso que você tem que fazer. As melhores coisas confortam outras pessoas. E isso é… A melhor coisa é confortar outras pessoas. E essa é a minha vida. É verdade”.
Dando se radicou na Serra da Cantareira, no extremo setentrião da cidade de São Paulo, região onde, para quem não conhece, as casas costumam estar rodeadas pelo mato nativo e que abrigava o famoso sítio dos Mutantes no início dos anos 1970.
A mudança para o Brasil está intrinsecamente ligada ao paixão. A história com Antonia é “louca”, uma vez que ele mesmo descreveu, e remonta aos anos áureos dos Lemonheads.
“Eu a conheci quando ela tinha 16 anos. Nós estávamos fazendo um show em Santos com o Mr. Big… Eu disse olá para ela. Ela estava lá paragem, curiosa para ver os músicos”, lembrou. Esse show aconteceu em 1994, no festival M2000 Summer Concerts.
“A segunda vez foi em 1997, quando a gente se encontrou e saiu lá nos Estados Unidos. Depois disso, ela se envolveu com outro, começou a ter filhos e essas coisas… E eu não a vi novamente até que nos falamos pela internet muitos anos depois. Obrigado por isso, Mark Zuckerberg”, brincou ele, pelo traje de o Facebook ter sido fundamental para o reencontro atual.
“Ela é poderoso e ela é inteligente. E eu preciso de uma mulher poderoso e inteligente comigo e ela me ajuda muito mesmo. E ela às vezes é dura. Ela é muito dura comigo às vezes também. Mas é bom. Obviamente, é isso que eu quero. E eu simplesmente a senhoril. Ela é a coisa mais adorável do mundo”, derreteu-se.
Eles finalmente se casaram em (ele não se lembra muito muito) 30 ou 31 de dezembro de 2024 e Dando agora é o padrasto dos três filhos de Antonia. Ela, aliás, é filha do grande Renato Teixeira, e ele, às vezes, apresenta em seus shows de rock o clássico integral constituído pelo sogro, “Romaria”, aquela que diz “Sou caipira, pira, pora, Nossa/ Senhora de Aparecida…”
Quanto ao traje de Antonia ser dura com Evan, a razão parece ser bastante justificável: o longo histórico de uso de drogas do marido. Drogas pesadas, uma vez que crack e heroína. Um vício tão longo que destruiu os dentes do cantor, fazendo com que agora tivesse reconstruída sua arcada dentária.
“Na América custaria pelo menos 200 milénio dólares [um tratamento como esse]. Cá não custa tanto”, explicou. “Eu estava sujo por 20 anos, sabe? E você não recebe vitaminas, você não vive muito… e você não escova os dentes, sabe? É um estilo de vida, principalmente”.
Sua relação com as drogas, um tema que o persegue há décadas, é uma luta manente. Hoje com 58 anos, ele relatou estar limpo de “drogas de rua” há tapume de cinco anos.
A mudança ocorreu em seguida um show “horroroso”, que ele fez em um cemitério de Los Angeles. “Foi realmente horroroso… e depois eu vi o vídeo e falei ‘tudo muito, é hora. Estou indo para a restauração agora mesmo’. Foi um pesadelo, face. Eu não sabia onde estava.”
Atualmente, sua abordagem é mais moderada: “Eu palato de drogas, drogas hippies, ok? Eu bebo um pouco, fumo um pouco. Só tento não fazer zero todos os dias, sabe? Só tento me manter… tranquilo”.
