Uma negociação a ser anunciada em breve promete aumentar o peso da circulação, além dos valores das obras, é evidente, de um dos maiores artistas do século 20 no país. José Leonilson, dos mais sensíveis e magnéticos do panteão vernáculo, passará a ter representação mundial do grupo Almeida & Dale, que nos últimos anos se firmou uma vez que o maior clã atuante no mercado de arte brasiliano e planeja uma expansão europeia, começando por uma galeria em Paris.
O concórdia foi firmado com o Projeto Leonilson, instituição dedicada à memória do artista liderada por Nicinha Dias, mana de Leonilson, e outros três herdeiros, num vasqueiro enlace em que todos os descendentes concordam com o projeto de expansão da curso internacional do artista, ao contrário de outras famílias ainda em pé de guerra, caso daquela de Tarsila do Amaral, que não sai do noticiário.
Leonilson foi um dos maiores nomes da chamada Geração 80, que marcou o retorno da pintura figurativa ao país depois de décadas de domínio da vanguarda construtivista que foi a força motriz do concretismo e do neoconcretismo. Ele se firmou, no entanto, por suas obras de caráter confessional e autobiográfico, delicadíssimos bordados da última temporada da vida, em que fez dos relatos de suas desilusões amorosas um espelho da geração destroçada pela Aids.
Ele tem trabalhos nos acervos dos grandes museus do mundo, entre eles o MoMA, em Novidade York, o Centre Pompidou, em Paris, a Tate Modern, em Londres, e o Masp, a Pinacoteca e o Instituto Moreira Salles, em São Paulo. Também teve suas obras mostradas em retrospectivas de peso pelo planeta, uma delas no Museu Serralves, no Porto, outras duas no Masp e na Pinacoteca, e ainda uma presença importante nas bienais de Veneza, na Itália, e de Istambul.
Seus herdeiros detém ainda murado de 600 trabalhos do artista, de valores que vão de R$ 50 milénio a R$ 3 milhões. A anseio da Almeida & Dale é elogiar o patamar de mercado do artista no cenário internacional, onde sua obra poderia ter o mesmo alcance de outros ícones da arte queer, de Andy Warhol a Félix González-Torres.
PAU E CORAÇÃO Todos sabem, mas pouco se diz em voz subida, que Leonilson foi um varão gay, morto muito novo, aos 36, em 1993. Esse parece um ponto quebrável, por incrível que pareça, do proclamação festejado agora entre os herdeiros e a galeria, em que sua sexualidade não é nem sequer mencionada de uma maneira clara.
É uma questão geracional, talvez, mas Leonilson nunca escondeu zero e fez disso um ponto de partida para suas obras mais viscerais. Quando se descobriu infectado pelo HIV, no início da dez de 1990, escancarou a angústia de enfrentar sua morte precoce causada por zero menos que o impulso por paixão e sexo. Gravou fitas que se tornariam um quotidiano autorizado, mas até hoje, também por incrível que pareça, inédito no país. Fotocópias piratas circulam entre seus amigos e ainda nunca viram a luz do dia, ao contrário, por exemplo, dos diários de Andy Warhol, hoje um best-seller mundial.
No concórdia de representação com a Almeida & Dale agora está prevista a publicação de um livro organizado pelo plumitivo João Carrascoza com trechos dessas fitas, que já originaram um belo documentário de Carlos Nader e um curta de Karen Harley, mas a íntegra ainda permanece um mito enquanto deveria ter presença obrigatória em bibliotecas para o muito do estudo da história da arte do país.
Um dos imbróglios da narrativa soa quase pueril aos ouvidos da geração que cresceu exposta à pornografia na internet, mas ainda parece provocar calafrios no mercado. Em reportagem de oito anos detrás, oriente colunista publicou trechos até hoje censurados do quotidiano.
“Entrei na sauna a vapor, ele tava lá sentado, pelado, gostoso, com um pauzão. Ficou aquele flerte. Eu sentei perto dele, fiquei olhando pra ele, ele ficou olhando pra mim. Ele ficou pegando no pau dele. Eu olhei, ele tava com o pau duro”, narra o artista numa das gravações que compõem o quotidiano. “Ele veio em minha direção com aquele pau. Eu dei uma chupada nele. Ele falou pra eu levantar, que ele queria pegar no meu pau. Eu levantei, ele pegou no meu pau.”
Num momento de projeção turbinada da obra do artista no mercado, outro trecho desses escritos secretos deveria circundar. “Hoje eu fiquei pensando nessa coisa de mercado. A gente precisa fazer moeda. Eu trabalho na direção oposta de todo mundo. Eu trabalho pra dentro de mim, as pessoas trabalham pra fora, as pessoas trabalham numa coisa onde sentimento é a secção menos importante, menos interessante de tudo”, contou Leonilson a seu gravador. “Às vezes você encontra um faceta pro pau e não encontra um faceta pro coração.”
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