Lília e giulia: mãe e filha brilham em 'a lista'

Lília e Giulia: mãe e filha brilham em ‘A Lista’ – 10/07/2025 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

Entre as muitas histórias que a pandemia poderia ter desvanecido, “A Lista” surgiu uma vez que um gesto de resistência que começou em maio de 2020 uma vez que uma forma de estribar artistas em tempos de isolamento e transformou-se em um pouco maior: uma peça que não exclusivamente sobreviveu ao distanciamento, mas dele extraiu sua força. Com texto de Gustavo Pinho e direção de Guilherme Piva, o espetáculo estreou fisicamente no Teatro Renaissance em março de 2022, depois de uma jornada único — primeiro online, depois em apresentações reduzidas, até finalmente ocupar o palco em sua versão completa.

Lília Cabral e Giulia Bertolli, mãe e filha na vida real, encarnam Laurita e Amanda, duas vizinhas separadas por gerações, hábitos e visões de mundo. O que poderia ser exclusivamente um conflito entre diferenças torna-se uma narrativa sobre uma vez que o contingência pode aproximar até mesmo quem parece talhado a nunca se entender. Laurita, aposentada e presa a comportamentos rígidos, e Amanda, jovem e despojada, descobrem que por trás de suas máscaras sociais há dores e esperanças semelhantes. Nenhuma das duas é completamente heroína ou vilã, e é nessa anfibologia que reside sua humanidade.

A montagem não se limita a um tempo único. A direção de Piva conduz o testemunha por três planos temporais — um pretérito marcante, um presente conturbado pela pandemia e um porvir que ainda se desenha — sem nunca perder o ritmo. A iluminação e o cenário amplificam a sensação de transição entre memória, verdade e possibilidade.

Apesar de tratar de um momento difícil de nossa história recente, a peça traz leveza através do humor, sempre muito dosado. As tiradas ácidas de Laurita e as respostas desconcertantes de Amanda provocam risos, mas também revelam as feridas por trás das palavras. Pinho escreve diálogos verdadeiros que nos convidam a refletir sobre uma vez que nos relacionamos — com os outros e com nós mesmos.

Giulia Bertolli, em sua segunda invasão no teatro, traz uma Amanda que oscila entre a vulnerabilidade e a resiliência, enquanto Lília Cabral, com sua experiência, entrega uma Laurita complexa, capaz de irritar e emocionar no mesmo fôlego. A cumplicidade entre as duas no palco transborda a ficção, adicionando camadas de significado a cada cena.

Além de retratar o período da pandemia, “A Lista” fala do que vem depois — da dificuldade de reconstruir laços, da coragem necessária para terebrar mão de preconceitos e da venustidade inesperada que pode surgir quando permitimos que o contingência nos surpreenda. Não é um manifesto otimista, é um retrato honesto de uma vez que, mesmo em tempos de repartição, ainda é verosímil encontrar pontes.

Três perguntas para…

… Lilia Cabral

“A Lista” nasceu durante a pandemia, inicialmente uma vez que uma forma de estribar artistas. Porquê foi transformar esse gesto de solidariedade em um projeto artístico tão consistente?

Bom, a teoria inicial, quando fomos convidados pela Ana Beatriz Nogueira para participar do projeto Teatro Já, era justamente ajudar muita gente que ficou sem trabalho — principalmente o pessoal dos bastidores. Essa sempre foi nossa intenção. Só que, com o tempo, percebemos que não era só uma vontade nossa: havia uma urgência real de que essa história fosse contada, de que ela continuasse.

Não sei explicar recta… Às vezes, a própria percepção ou a vida vai te levando por caminhos que se abrem, e você entende que aquela história precisava seguir.

Acho que a consistência de “A Lista” está exatamente nisso: nos nossos momentos, nas nossas verdades. E, apesar de contarmos uma história completamente dissemelhante das nossas vidas, ela é muito próxima dos sentimentos humanos — e isso era um pouco que discutíamos muito. Se o público entende onde queremos chegar, é porque isso vem não só do texto, mas do sentimento, da forma uma vez que mostramos nossas descobertas, nossas alegrias, frustrações, tristezas e perdas.

Durante todo o processo, perdemos amigos, recuperamos outros, fomos entendendo que essa história era necessária — e de forma muito simples. E o simples é bonito. É bonito de fazer, de relatar. Acho que foi nesse espírito que sentimos a força da peça para virar filme, para virar livro. E, se a gente fosse medir em alguma graduação, não pensaríamos no valor, mas na urgência. E o teatro é isso: uma forma necessária. É isso.

Trabalhar ao lado da sua filha no palco adiciona uma categoria única à história. Porquê foi dividir essa experiência artística com ela?

Eu acho que a venustidade de eu estar com a Giulia em cena é que nós duas somos muito responsáveis. Eu sinto que a responsabilidade dela ter escolhido essa profissão, ter escolhido esse caminho, que ela sabe das dificuldades e das alegrias, das tristezas, das frustrações, dos caminhos a serem descobertos e isso tudo ela mantém com muita… Com aqueles olhinhos assim de querer testar, de querer enfrentar e eu vou observando tudo que um dia eu já fiz com a idade dela.

É tão bom estarmos juntas nesse trabalho, porque de vestuário nós duas temos muito para relatar. E também temos muito o que aprender. Eu tenho muito o que aprender com ela e ela comigo. É uma troca muito formosa da gente em cena. É uma troca muito peculiar, principalmente cá no [teatro] Faap, que, bom onde praticamente minha história começou. Logo, é muito peculiar os momentos que nós estamos no palco e os momentos quando a gente chega no teatro e quando a gente acaba a peça. É fundamental para mim. E eu acredito que, para ela, está fazendo um muito danado, porque ela tem sabor de pisar no palco, ela entende o que é pisar no palco, e eu vejo, observo, e nós duas, uma vez que atrizes em cena, vamos tomando conta desse picadeiro e cada dia é uma grande surpresa e a gente sempre sai com a sensação de missão cumprida.

Depois de um período tão difícil para a cultura, uma vez que você vê a recepção do público ao teatro hoje?

Foi uma grande surpresa quando estreamos essa peça cá em São Paulo, no Teatro Renaissance. Já na primeira semana, a morada estava lotada. Fiquei surpresa mesmo — achava que tudo voltaria, mas que o teatro não voltaria do mesmo jeito. Imaginava que as pessoas iam decorrer para o cinema, para os bares, restaurantes… E tudo isso foi voltando aos poucos. Mas o teatro, não.

As pessoas, o público estavam com muita urgência de ver, de estar ali. A gente sente isso. Mesmo com máscaras, queriam sentar na plateia, dar boas risadas, se emocionar, transpor com aquela sensação de satisfação. Isso foi crescendo, os teatros foram lotando, lotando, não era só a gente, as pessoas estavam falando e comentando exatamente sobre uma vez que é que o público reagiu depois que houve essa brecha e que as pessoas começaram a transpor de morada, a voltar a viver a vida.

No meu oração no final de cada sessão, quando convido o público para voltar até o último final de semana, sempre falo sobre a arte, a cultura, e é um caminho que se abre para eles e eles recebem muito muito e eles fazem questão de aplaudir uma vez que se dissesse assim: bom, a gente gosta disso, a gente gosta de arte, a gente gosta do teatro, a gente faz segmento dessa história, né?

O público é nosso cúmplice, é nosso camarada, e ele quer provar isso. Ele é generoso com a gente, ele gosta de mostrar que está com a gente. Eu acho que isso foi um desenvolvimento para a gente entender e não desistir. Foi o público que também não deixou a gente desistir de jeito nenhum. A gente só tem a agradecer!

Teatro Faap – rua Alagoas, 903 – Higienópolis, região oeste. Sex. e sáb., 20h. Dom., 17h. Até 3/8. Duração: 75 minutos. A partir R$ 70 (meia-entrada) em faap.br/teatro/peca/a-lista/

Folha

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