De tempos em tempos é preciso reapresentar às novas gerações os valores do pretérito. Em seu mais novo livro, o intelectual baiano Antonio Risério reapresenta ninguém menos que Pelé, o rei do futebol. Havia premência?
Sou professor universitário e convivo com a juventude ligada 100% na internet. É incrível porquê para eles o mundo começou com o chegada das redes sociais. Poucos conhecem o rock para além do Queen, que teve a sorte de ser resgatado do limbo com um filme que convenceu os jovens de sua valor. A recente série sobre Ayrton Senna trouxe de volta o herói das pistas. Mas Beatles, Roberto Carlos e até mesmo Pelé perecem em um manifesto limbo entre a juventude.
As redes sociais estão cheias de vozes jovens que afirmam que Messi e Cristiano Ronaldo são melhores que Pelé (foi-se a idade em que o debate era com Maradona). Uma vez que as redes são dominadas pela soberba da juventude quase sempre ignorante, os gênios do pretérito são logo obliterados pelo presentismo simplificador. Some-se a isso a ronda que esquerdas e movimentos negros fizeram contra Pelé por décadas, considerando-o “demente”, e temos o caldo perfeito para a simplificação da trajetória do rei.
É aí que o mais recente livro de Antonio Risério mostra seu valor. Publicado pela editora Topbooks, “Pelé: o negão planetário” é uma explosivo. Apesar de o responsável negar ser uma biografia, é provável lê-lo assim, tamanha a riqueza de detalhes da vida do rei. Mas é porquê um tentativa que o livro mostra todo seu valor.
Nas linhas de Risério, Pelé torna-se o personagem meão para entendermos o Brasil e o mundo da segunda metade do século 20. O livro começa com um tentativa intitulado “A escola brasileira de futebol”. Trata-se da ampliação de um capítulo do mais importante livro de Risério, “A utopia brasileira e os movimentos negros”, lançado em 2007, obra infelizmente desprezada por nossa intelectualidade identitária, hegemônica nas universidades e mídias supostamente progressistas.
Em seguida, nos ensaios sobre o rei, o detalhismo do antropólogo labareda a atenção. Ao responsável não escapam o topete inalterável de Pelé, nem sua mania de usar a terceira pessoa para se referir a si. As mazelas da puerícia pobre, os comerciais e as parceiras famosas e desconhecidas. Risério não foge dos temas espinhosos: a questão racial, o Pelé ministro (primeiro preto da história do Brasil), o Pelé empresário, a frase “o povo não sabe votar” (supostamente dita pelo rei), a relação com a ditadura e muito, muito mais.
Risério é um intelectual de antigamente, no bom sentido da vocábulo. Sabe que o pensamento precisa de lastro, mas sobretudo de muita vela para velejar por mares que demandam coragem. Pelé é seu cavalo de guerra contra a pasmaceira do debate intelectual pátrio, que trocou a anfibologia do pensar pelo bom-mocismo das causas justas e inócuas.
Diante de um texto tão mordaz, a editora Topbooks merecia ter oferecido mais atenção à obra. Uma foto na revestimento, por exemplo, ajudaria o livro a chegar a um público maior. Finalmente, trata-se da primeira obra de peso sobre Pelé posteriormente sua morte. Escrito de forma direta, porquê numa conversa informal, os ensaios fluem resgatando uma idade em que o Brasil era farol cultural do mundo ocidental, espécie de soft power dos desvalidos do planeta, e Pelé nosso emissário. Risério resgata nosso homem-mito, que sempre foi rei não por legado de sangue, mas por simbolizar intimamente nossas ambições, limitações e desejos.
Nas palavras de Risério, “Pelé fundiu a racionalidade do futebol europeu com o afro-barroco mestiço-popular da escola brasileira de futebol”. Para o responsável, o rei do futebol representa o “cartesianismo mágico, movendo-se entre a objetividade e a imaginação, entre o pragmatismo e a fantasia, mesclando esses polos até eles se tornarem indiscerníveis um do outro”.
O Pelé de Risério é nosso, um repercussão do Brasil dúbio, que não se reduz a explicações exógenas tão em tendência na tarifa identitária. Até quando teremos vergonha de sermos quem somos? —é a pergunta que ecoa posteriormente terminar a leitura deste livro necessário.
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