Lô borges afirmou a liberdade como dois tênis surrados

Lô Borges afirmou a liberdade como dois tênis surrados – 03/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Um par de tênis surrados, sujos da terreno que atesta uma história de pavimento percorrido. Neles também se estampa o desprendimento só provável na juventude e, mais principalmente, na juventude que se afirma livre da lógica do mercado, do capitalismo —finalmente, empresários respeitáveis e executivos bem-sucedidos não ostentam tênis sujos.

A foto de Cafi ilustrou, em 1972, a envoltório do primeiro álbum solo de Lô Borges, músico morto na noite deste domingo (2), informalmente batizado de “disco do tênis”. Ela carrega toda uma moral de liberdade, uma fidelidade à dinâmica da vida porquê estrada, dos quais sentido se dá no caminhar. Ideias que alimentaram peregrinos desde a Antiguidade e que, nas décadas anteriores ao disco, serviram de base filosófica para beatniks e hippies.

A imagem —assim porquê as canções do disco que a espelham— marca os primeiros passos da curso do compositor mineiro, portanto um jovem de 20 anos que havia terminado de estrear assinando com Milton Promanação o histórico “Clube da Esquina”. Mas, até por carregar em sua natureza estática o movimento porquê potência, a foto é capaz de simbolizar toda sua trajetória, que se estenderia nas décadas seguintes.

Para além da marcha de Lô, o par de tênis representa também o apelo maior de sua música —uma certeza da liberdade, de seu compromisso com a dimensão mais ambiciosa da existência. Não há porquê negar a força disso num mundo medido cada vez mais por métricas que mal tocam a superfície dos sentidos que Lô buscava em sua obra. Porquê ele costumava proferir, seu objetivo não era sobreviver da música, e sim que a música sobrevivesse nele.

Em vez da horizontalidade massiva do hit, Lô buscou sempre a verticalidade fundíbulo do clássico. Com esse pensamento, emplacou canções —ao lado de parceiros porquê Márcio Borges, Milton Promanação, Ronaldo Bastos, Samuel Rosa e Fernando Brant— presentes na memória afetiva de gerações.

Seja pelas gravações elevadas de nomes porquê Nana Caymmi, Tom Jobim, Elis Regina, João Bosco e o próprio Milton, seja pelas cantorias amadoras em rodas de violão Brasil adentro, repletas de jovens de tênis sujos de terreno.

As canções do “disco do tênis” e os bastidores da gravação do álbum testemunhavam seu tempo. A procura pela ampliação dos horizontes pelas drogas; letras que refletiam a venustidade e a violência do Brasil daquele momento —e que nunca cessam—; e, por termo, acordes e melodias que traduziam e sublimavam esses horizontes amplos, belezas e violências.

Portanto, sobre todo o folclore e mitificação que podia se gerar em torno de Lô, se afirmava naquele álbum, e em tudo que veio depois, um pouco integral —sua musicalidade enorme e original. Não à toa, o maestro soberano Tom Jobim se encantou por “Trem Azul” a ponto de regravá-la com uma letra em inglês de sua autoria, a partir da original de Ronaldo Bastos —um pouco vasqueiro em sua discografia dedicada quase integralmente à sua própria obra.

A lentidão em lançar um segundo disco solo, que chegaria somente em 1979, e a escassez de gravações nas décadas seguintes se deu devido a duas dimensões —uma interna, outra externa. De um lado, seu próprio compromisso existencial com a estrada, sua inadequação à dinâmica formal de uma curso, com uma agenda de gravadora, divulgação etc. De outro, à fanatismo do mercado para uma obra que se recusava a dialogar com o imediatismo da vaga do momento.

Porém, com a viradela para o século 21, a música brasileira começou a se movimentar na direção de Lô, principalmente pelo olhar de artistas jovens. Samuel Rosa e Nando Reis —que já haviam feito “Resposta”, uma melodia em grande medida tributária ao estilo de Lô, porquê reconheceu o próprio Milton, quando a regravou— convocaram o próprio compositor para uma parceria. “Dois Rios” foi gravada pelo Skank em 2003. Samuel e Lô lançariam 13 anos depois um álbum ao vivo juntos.

Lô se aproximou de outros jovens mineiros porquê Samuel Rosa. Com Makely Ka, nascido no Piauí, mas radicado em Belo Horizonte, escreveu as canções do álbum “Dínamo”, em 2020. Já Pablo Castro encabeçou o projeto de uma turnê de Lô lembrando as canções do “disco do tênis”, escoltado por uma orquestra formada por músicos que, porquê Pablo, tinham idade para ser filhos do compositor. O show rendeu em 2018 o disco “Tênis + Clube – Ao Vivo no Circo Volátil”.

Nos últimos sete anos, sua produção foi intensa, com um disco de inéditas por ano. Restabeleceu parcerias com amigos antigos porquê Nelson Angelo, colega dos tempos de Clube da Esquina, e seu irmão Márcio Borges, com quem estava há bastante tempo sem criar, e inaugurou colaborações com amigos novos, porquê Zeca Baleiro, com quem fez seu último álbum, “Firmamento de Giz”, lançado em agosto deste ano.

Em toda essa produção mais recente, Lô seguia leal à sua musicalidade construída sobre lições dos Beatles e de Tom Jobim —e à privilégio anunciada em 1972 naquele par de tênis sujos, plenos de caminhadas passadas e futuras.

É simbólico que “Antes do Termo”, a tira que abre o recém-lançado “Firmamento de Giz”, traga em seus primeiros versos a certeza inequívoca: “Antes que o mundo se acabe/ No incêndio de um vulcão/ Eu sigo o rastro do que me diz o coração”.

Não à toa, ele seguiu até o termo da vida fazendo a mesma dedicatória a todos os fãs que chegavam até ele com um “disco do tênis” pedindo um autógrafo —”Com o pé na estrada, Lô Borges”.

Folha

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