Loucura oficial inspira nova peça de Gerald Thomas 26/11/2025

Loucura oficial inspira nova peça de Gerald Thomas – 26/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Não pergunte a Gerald Thomas sobre o teatro contemporâneo. “Não, eu não vou”, ele corta, sem nenhuma possibilidade de indagar os espetáculos em papeleta. “Fico olhando, meu Deus, aquela bambolina está fora do lugar. Eu estou vendo o contrarregra”, explica, sobre a escassez nos espaços cênicos.

O diretor, de 71 anos, também conta não sentir prazer nas próprias criações. “É compulsão”, define. Nos hotéis em que se hospeda, não fica entusiasmado na hora de ir para o trabalho. “Mas quando eu chego, pronto, cheguei.”

E, portanto, não para. Morador de New Paltz, a 134 quilômetros de Novidade York, Thomas tem três peças no repertório atual e um projeto para o ano que vem no Brasil, onde está desde julho.

Uma delas, “Sabius, Os Moleques”, que estreou na quarta-feira (26) no Sesc 14 Bis, tem uma vez que inspiração o “regime da loucura solene” do mundo atual. Não tente fazê-lo falar sobre o espetáculo. “Não sei falar, rendimento. ‘Oh, my God,’ vêm essas perguntas. Se faço uma peça, é porque faço no palco. Não sei falar sobre ela.”

Ele escreveu e dirigiu “Sabius”, encenada pela Cia. de Ópera Seca. Na trama, o planeta Terreno sucumbe à humanidade, comete suicídio e cai de sua trajectória em uma cratera de outro mundo, onde cinco sábios de eras distintas discutem e são interrompidos por fragmentos de coisas preciosas perdidas no espaço —música, pintura, literatura.

“Os sumérios, os mesopotâmicos, as civilizações antigas, por que desapareceram? São tão avançadas, sofisticadas. Por que uma engole a outra?”, ele questiona.

Thomas não vê sentido no acúmulo de conhecimentos, chega a manifestar que não adianta zero. O mundo de cabeça para reles, e vulnerável, angustia o diretor. “Eu sou americano. Estou testemunhando na pele esse poderio caindo. Donald Trump está implodindo deliberadamente o próprio país”, diz.

O diretor compara o presidente dos Estados Unidos ao imperador Nero e diz estar perplexo com o base de segmento da população americana a “um faceta que quer ser rei”. “Ele não se pinta de laranja. Ele se pinta de ouro.”

Há outros espantos em sua trajetória. Em 2001, ele escrevia um texto para a Folha diante da janela de seu apartamento, em Novidade York, quando viu o atentado às Torres Gêmeas. “Notei que o avião [o primeiro] estava reles demais. Olhei e pensei ‘não é provável isso’ —e, de repente, ‘boom’.”

A voz, até hoje rouca, ele diz, é revérbero dos dias em que trabalhou nos escombros dos prédios para ajudar as vítimas. Aspirou poeira tóxica e precisou mourejar com o estresse pós-traumático.

Os fragmentos da loucura do mundo estão desde sempre na dramaturgia do artista e “Sabius” leva ao palco o pós de tudo —guerras, sacrifício, lucro, supremacia branca, hétero e masculina. “É o encontro do que sobrou.”

No espetáculo, a globo apelidada de Zé Celso, uma das preciosidades, celebra o fundador do Teatro Oficina, morto no ano retrasado. “É uma homenagem que presto ao maior encenador, pensador, revolucionário e inconformista teatral desse país”.

Na dezena de 1990, Zé Celso puxou o camarada da arquibancada do Oficina, na encenação de “Ham-Let”, o abraçou, apontou o dedo em sua faceta e disse “eu sou o fantasma do teu pai”. “Foi risonho. Eu gostei do espetáculo”, lembra.

A morte de Zé Celso está entre as dores recentes de Thomas, assim uma vez que a do psicanalista e noticiarista Contardo Calligaris, em 2021, e a de Gal Costa, dirigida por ele no show “O Sorriso do Gato de Alice”, em 1994.

“Na minha opinião, aquilo não está evidente. Tem alguma coisa errada ali”, arrisca sobre a morte da cantora, em 2022, aos 77 anos, vítima de um infarto. “Era minha amiga mais antiga”.

Na juventude, os dois quase morreram em uma corrida de carruagem na curva do Calombo, na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Segundo o diretor, Gal dirigia um Gurgel e parou com a “folgança” em seguida o carruagem escadeirar no meio fio e entortr.

Muitos anos depois, Gal o convidou para a direção do show e os dois levaram aos palcos a cena antológica da cantora com os seios de fora enquanto interpretava “Brasil”, de Cazuza.

Outra relação afetuosa é com Fernanda Montenegro, amiga e ex-sogra. Os dois conversam quase diariamente pelo WhatsApp, inclusive nas madrugadas. O diretor mostra, sem revelar o teor, a longa lista de troca de mensagens, áudios e vídeos. “São conversas muito pessoais”, diz.

A atriz assistiu recentemente ao espetáculo “Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente” e elogiou Danielle Winits pela atuação solo em uma peça sobre as contradições humanas e por ter sobrevivido à experiência de ser dirigida por Thomas.

Disse saber o que é isso. A veterana foi conduzida por ele em “The Flash and Crash Days”, de 1991, peça que chamou a atenção por uma cena em que a filha, Fernanda Torres, se masturbava na sua frente e sob o seu incentivo.

Com Torres não há nenhum tipo de relação. “Nenhuma termo”, diz o diretor. Afirma que não viu “Ainda Estou Cá” e que não se entusiasmou com a torcida brasileira pelo Oscar. “Não acho o Waltinho [Salles] nem um pouco genial. Eu estava, simples, torcendo pela Nanda, não tenha incerteza. Fiquei muito desesperançado porque ela estava uma vez que a mãe, com 25 anos de diferença.”

Ex-funcionário da Anistia Internacional, Thomas conhece muito a história de Rubens Paiva e acha que não precisa ver o filme para recordar o rumo trágico do ex-deputado na ditadura militar.

Ele próprio diz saber o que é sobreviver a si mesmo. Em setembro de 2009, desiludido e perdido, publicou um texto de despedida dos palcos, em seguida um colapso enquanto observava um autorretrato de Rembrandt, com quem se identificou, aos 55 anos.

“Todo mundo acha que aquilo foi um truque. Mas truque para quê?”, ele questiona. Foi um esgotamento, uma vez que se já tivesse feito tudo o que podia. Mas a pausa durou pouco. Em Londres, onde morava, criou uma companhia e montou a peça “Gargólios”. “Não aguentei muito tempo fora do teatro.”

Agora, além de “Sabius” e “Choque!” —que fez temporada no Rio de Janeiro e estreia no ano que vem em São Paulo—, tem no repertório em circulação a peça “Traidor”, com Marco Nanini, e prepara “Queima Cimeira – Work Progress”, com texto da atriz Ana Cecília Costa.

Em uma madrugada de insônia, ele viu a atriz na série “Submersos”. “Que mulher incrível”, pensou, diante dos olhos verdes e expressivos de Ana.

“Queima Cimeira”, adaptada de um texto que já estava pronto, “Shame”, aborda a origem indígena do próprio diretor, comprovada em 2017. O avô, conta, era da etnia pueblo, formada por nativos americanos, e foi sequestrado e criado uma vez que judeu.

O novo espetáculo terá uma montagem linear, com primórdio, meio e término, um tanto zero generalidade na curso do artista. “Quando a coisa é de verdade, faço de verdade. Quando é metafórica, faço metafórica. Essa é uma história muito comovente.”

Thomas usa grudar e pulseiras da etnia e diz ter 34% de origem indígena. Além do teste de ancestralidade, relata ter pretérito por vistoria de toque no rosto, feito por uma liderança pueblo. “O director da tribo ficou me apalpando, e eu tremendo de susto de ser rejeitado. Pensei ‘está tudo inverídico cá’. Ele falava uma língua que não entendo. De repente, todo mundo abre um sorriso. Foi um momento muito emocionante”, diz, descrevendo uma cena que parece feita para o palco.

Foi dramático também o incidente em que jogou segmento de seu ror no lixo, há dois anos, em seguida o fracasso de negociações para a venda a uma instituição brasileira. Ele caminhou até uma caçamba de lixo de New Palt e despejou uma mala de papéis do registro de cinco décadas de teatro.

O que sobrou está guardado em um espaço alugado para armazenamento de documentos e objetos.

Afirma que o compositor americano Philip Glass, parceiro em trabalhos, o explica melhor do que ninguém. “Muitas das peças do Gerald são um escândalo. São escandalosamente engraçadas, vulgares e românticas. E parece que ele se sente confortável vivendo escandalosamente também”, declarou, em 2009, um sorridente Glass. Gerald Thomas concorda.

Folha

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