Luca guadagnino vê guerra woke em filme com julia roberts

Luca Guadagnino vê guerra woke em filme com Julia Roberts – 29/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Quem vê “Depois da Caçada”, do italiano Luca Guadagnino, exibido fora de competição no Festival de Veneza, percebe logo nos créditos iniciais um pouco de familiar. As letras usadas, sob fundo preto, são as mesmas dos filmes de Woody Allen, cuja curso hoje se encontra atravancada, depois que o cineasta foi submetido a um processo de cancelamento público, criminado —sem provas— de molestar sexualmente a enteada.

Haveria, nesse gesto, uma homenagem e um posicionamento político em sua resguardo? Ao que parece, foi essa a intenção de Guadagnino, que faz um filme sobre justamente os paradoxos da sensibilidade moderna diante de escândalos sexuais, discutindo até que ponto nossa sociedade está avançando, com punições a infratores que antigamente sairiam ilesos, ou está criando um mundo sufocante, em que ninguém se sente mais à vontade de fazer zero sem pânico de ser criticado.

A trama se passa na Universidade Yale, nos Estados Unidos. Psique, interpretada por Julia Roberts, é uma professora de filosofia cinquentona de opiniões firmes, muito admirada, que vive um conúbio fixo porém sem paixão. Sua orientanda preferida é Maggie, vivida por Ayo Edebiri, jovem negra de origem abastada que tem dificuldades em concluir sua tese.

Hank, interpretado por Andrew Garfield, é um professor da mesma universidade que suspeita que a dissertação da moça seja um grande plágio e decide testá-la. Certa noite, embriagado, ele se aproxima mais do que devia da jovem e acaba forçando uma intimidade física que ela não desejava.

Maggie decide acioná-lo judicialmente por estupro e pede ajuda a Psique para que a apoie. Mas Hank é colega de longa data de Psique e também suplica que ela o defenda. Embora ao mesmo tempo entenda e condene atos tanto de Maggie quanto de Hank, a professora tenta se lastrar em uma posição ao mesmo tempo leal a suas crenças e antenada aos novos tempos. Mas as pressões são muitas, e as próprias ambivalências de Psique, cedo ou tarde, também virão à tona.

“Depois da Caçada” talvez seja o filme que até o momento enfrente com mais fôlego e dedicação uma das grandes guerras do mundo contemporâneo —aquela travada entre as demandas da chamada geração “woke” e a visão de uma escol cultural de esquerda resistente ao que crê serem excessos dessa juventude, que põe sua militância identitária supra de tudo.

Guadagnino sabe que está pisando em ovos ao mourejar com esse tema, portanto procura mostrar que ninguém nessa história é santo. Mas ele tem sua preferência e, embora exista no filme um manifesto gesto no rumo da conciliação entre as duas vertentes, ele expõe sobretudo o quanto a geração “woke” pode agir com uma virulência relativamente comparável à perpetrada pelos grupos agressores.

Já depois a primeira sessão, o filme encontrou fãs e detratores. “O que senhor nesse filme é que estamos olhando a verdade de cada um. Não tem ali uma verdade maior do que a outra, e elas entram em confronto”, disse o cineasta, em conversa com a prelo.

Indagada sobre uma pretensa visão antiquada do filme, ao mostrar duas mulheres em posições antagônicas diante de uma questão envolvendo doesto masculino, Julia Roberts comentou: “Há muitos argumentos antigos que são revitalizados no filme. E o melhor é que as pessoas saem da sala falando sobre o que viram, que é exatamente o que queríamos”.

A atriz tem uma performance tensa, contida, em um momento muito próprio de sua curso. Mas em alguns instantes parece estar imitando Cate Blanchett em “Tár”, longa de 2022 com uma protagonista poderosa que se via diante de um conflito parecido.

Aliás, “Depois da Caçada” parece uma espécie de progénito de “Tár”, sem a mesma fluidez e poder de síntese do filme de Todd Field, mas que ataca de frente a mesma questão que é a mola propulsora daquele longa.

Há uma cena importante, quando Maggie é confrontada por Psique e diz que não vai mais conversar, porque a interlocução não a faz se sentir confortável. Ao que Psique retruca. “Nem tudo nesta vida acontece para te deixar confortável, Maggie!” A fala diz muito sobre o convívio social, sim, mas também sobre a opção estética de Guadagnino, que realiza um filme propositalmente repugnante, por vezes difícil de escoltar.

Fala-se muito, com argumentos contraditórios, e uma vez que se isso sozinho já não fosse uma dificuldade em si para a seguir o longa, há ainda sempre qualquer elemento intrusivo —um personagem que interrompe do zero o ponto, ou uma música dissonante que o diretor escolhe para o fundo sonoro.

São quase que procedimentos brechtianos em seu poder de distanciamento, mas que também nos força a redobrar a atenção ao que está em cena —é um filme exaustivo, tão incômodo quanto a vida em sociedade atualmente, e a escolha formal do cineasta vem a calhar. Poucas vezes no cinema recente a afetação estilística foi tão congruente com o clima de desconforto que se vive na tela uma vez que em “Depois da Caçada”.

Folha

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