Luedji luna busca um jazz só seu em novo álbum

Luedji Luna busca um jazz só seu em novo álbum surpresa – 12/06/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Para a cantora Luedji Luna, o ano de 2024 foi de intensa investigação pessoal. Tão revelador que desaguou não em um, mas em dois álbuns de músicas inéditas. O primeiro, “Um Mar pra Cada Um”, saiu em maio. Já o segundo, “Antes Que a Terreno Acabe”, chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (13), de surpresa, sem aviso prévio aos fãs.

“Por mais que a gente esteja no presente criando, produzindo e se relacionando, somos atravessados pelos traumas [do passado]”, diz a artista. “É necessário tempo e processos terapêuticos para reconhecer que, mesmo inconscientemente, somos movidos por essa moço.”

Nessa jornada, Luedji tentou entender por que mesmo sendo uma cantora bem-sucedida, casada e com um rebento, ainda sentia uma carência que labareda de oceânica. O primeiro álbum registra a procura por esse paixão —seja ele romântico, de amizade, próprio ou divino—, e o segundo, ela diz, mostra “o que fui capaz de fazer para conseguir dar conta dessa demanda”.

Segundo a cantora, são discos que funcionam porquê espelho. “Um Mar pra Cada Um” é mais onírico, denso e profundo, puxado pelos sopros. Já “Antes que a Terreno Acabe” tem uma linguagem direta, maior destaque para a percussão e desde a orquestração de Arthur Verocai na primeira filete, “Apocalipse”, com participação de Seu Jorge, soa mais expansivo. São obras, diz Luedji, espelhadas e geminianas, porquê duas faces da mesma moeda.

Os discos inserem o sotaque brasiliano no diálogo —às vezes literal— com uma cena contemporânea, global e afrodiaspórica, de jazz, neosoul e R&B. A saxofonista britânica Nubya Garcia toca em uma filete dos discos, assim porquê o pianista americano Robert Glasper, possuinte de três prêmios Grammy, e o guitarrista Isaiah Sharkey, da orquestra do cultuado cantor D’Angelo. O saxofonista Kamasi Washington, dos Estados Unidos, e o baterista Yussef Dayes, da Inglaterra, toparam participar, mas não enviaram suas colaborações a tempo.

São também os álbuns mais confessionais da curso da baiana, que já contava com outros três discos de estúdio. “Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Chuva”, de 2020, e sua versão deluxe, com dez músicas inéditas, de 2022, consolidaram seu nome, rendendo prêmios, shows em palcos porquê o do Rock in Rio, e músicas em trilha de novelas da TV Orbe.

Mas agora Luedji quis resgatar o que sentiu ao fazer “Um Corpo no Mundo”, seu álbum de estreia, de 2017. “Todo o resto ali foi lucro —ter reconhecimento vernáculo, ter sido muito recebido pela sátira”, ela diz. “Porque eu estava diante da sensação impagável da felicidade genuína, de ter me tornado cantora.”

É um tanto, diz Luedji, que mudou conforme ela teve que mourejar com as expectativas do mercado, equipe, empresários, fãs, redes sociais e da verificação com outros artistas. “Você vai se deixando encruzar por questões que pouco tem a ver com a música, com o libido inicial daquela moço, daquela jovem, que sempre sonhou em trovar —porque aquilo curava, dava sentido à vida.”

Nascida em Salvador, Luedji não veio de uma família de músicos, mas de funcionários públicos da Petrobrás, segundo ela “a empresa que formou a classe média negra na Bahia”. Foi a primeira filha, a primeira neta da família, a primeira prima, uma moço desejada e “muito dulcinéia”.

Ao ter contato com o mundo exterior, ela percebeu uma incongruência. “De ter porquê referência a experiência do paixão e se deparar com o desamor, a repudiação, a violência”, diz. Notou que a carência insaciável de hoje vinha “desse lugar que me dizia que eu não era formosa, não era digna de receber paixão. Que eu não era humana, né?”

Essa mesma moça começou a inspirar nas cantoras americanas que via na MTV, entre elas Whitney Houston, Mariah Carey e depois Beyoncé. Mas, diz, não conseguia reproduzir aquele estilo pomposo de trovar. Suas referências no esquina foram gente da MPB, porquê Marisa Monte e Adriana Calcanhotto. “Um esquina mais melodioso, mais tranquilo e plácido.”

Luedji ainda estudou recta antes de se mudar para São Paulo, lançar “Um Corpo no Mundo” e estourar nacionalmente com o hit “Banho de Folhas”. Até hoje sua cantiga mais conhecida, ela alavancou o primeiro álbum da artista, estabeleceu sua curso, chegou a entrar no repertório de Ivete Sangalo e virou segmento da trilha sonora de Salvador.

Mas Luedji nunca foi uma cantora pop, e nunca se encaixou no estereótipo da música baiana. Ela se lembra de recusar um invitação para trovar numa sarau pública de Réveillon porque o contratante tinha pedido que ela fizesse um repertório mais dançante, mais entusiasmado. “Desde o início quero dialogar com o mundo”, diz. “Eu já estava rompendo com o que se espera de uma cantora negra e baiana. Não estava fazendo axé ou samba.”

Nos primeiros anos de curso, diz a artista, ela disputava um espaço na MPB, ainda que já buscasse referências na África e na diáspora negra nos Estados Unidos e Europa, para além da afro-baianidade. Hoje, ela se enxerga dentro desse novo jazz, neosoul e R&B feito ao volta do mundo. Mira Solange, Cleo Sol, Janelle Monáe, Jill Scott e Erykah Badu.

Não à toa ela recebeu atenção de plataformas de alcance global onde essa sonoridade é bastante consumida —caso dos canais Colors e Tiny Desk no YouTube. Mas Luedji não quer parecer uma transcrição dos gringos, e o contato com Robert Glasper para a colaboração na música “Outono”, de “Antes que a Terreno Acabe”, foi reveladora do que é valorizado lá fora.

“Tinha uma música que pensei, ‘nossa, isso cá está a faceta do Glasper, tenho que invocar ele’. E aí, por incrível que pareça, a música que mais dialogava com o som dele, ele não topou. Quis fazer uma coisa dissemelhante, um tanto completamente novo, do zero. Eles não querem emular o que eles já são.”

Ao longo de seus discos, Luedji desenvolveu um esquina que emociona sem fazer escândalo, carrega uma Bahia mais Caymmi que Ivete, tem raiz na MPB de Marisa Monte, Luiz Melodia e Milton Promanação e consegue ser sutil e elegante sem toar bossanovista —ainda que ela se arrisque pelo gênero em um dueto com Alaíde Costa no novo álbum. Para os novos álbuns, ela tentou incorporar algumas técnicas de esquina da tradição negra americana, mas sem botar seu estilo a perder.

“Comecei a me interessar e aprender. Você vê que tem um pouquinho de vibrato, um ou outro melisma. Mas estou experimentando para erigir meu próprio jeito de fazer jazz. Sem ser caricato, sem ser uma transcrição leal da música negra americana. Tenho minha própria história —meus pais ouviam MPB, eu não venho da igreja.”

Para ela, cantoras que vêm da igreja, porquê Liniker, que participa de “Um Mar pra Cada Um”, já dominam técnicas porquê os melismas e beltings, que remetem ao gospel americano. Nomes porquê Iza, Majur e Xênia França são outros exemplos de cantoras contemporâneas com essas influências no esquina.

Luedji também defende que ela, e essas cantoras, são muitas vezes rotuladas pelo mercado porquê segmento da MPB, ainda que na prática façam outros estilos —um tanto que a cantora vê porquê uma cena em ebulição, mas ainda sem um rótulo. Ela vê uma linhagem de música negra que segmento do soul de Tim Maia, Cassiano e Sandra Sá, passa por Luciana Mello e Max de Castro e chega hoje a gente porquê Melly, Recém-nascido Salvego, Tuyo e Youn.

Ainda assim, Luedji parece trilhar um caminho mais parecido com Djavan —além de uma das principais referências da cantora, o alagoano também construiu uma curso no Sudeste com uma música desatrelada de movimentos, com inspiração estrangeira mas enraizada no Brasil. Ela dispensa as comparações.

“Fico muito feliz quando fazem esse paralelo com a minha música. Lá no início da curso já faziam essa verificação”, ela diz. “Mas falo, ‘Gente, pelo paixão de Deus, não façam isso, não bota essa responsabilidade nas minhas costas’. É só o ‘luedjismo’ mesmo.”

É uma relação que também encontra repercussão no paixão porquê tema principal de suas letras. Os dois novos álbuns registram Luedji perseguindo aquela humanidade que lhe foi negada quando moça a partir de outras relações. “A gente vai sendo mobilizado por ego, vaidade e carência”, diz. “E nessa farra acaba magoando as pessoas, tendo irresponsabilidade afetiva.”

“Apocalipse”, do disco recém-lançado, diz a cantora, veio porquê uma revelação. “Estou agindo assim, buscando outros afetos, outras paixões, validação social… Esse meu lida por tudo isso é por justificação da da moço lá detrás. Portanto vamos curá-la, deixar ela lá, apoiar e expor que agora está tudo muito. ‘Você é formosa assim, você é dulcinéia assim, você é humana’.”

Folha

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