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A pilastra Música em Letras não ficou de fora da sarau e publica cinco entrevistas realizadas com músicos que participaram das jam sessions das Folhas.
No dia 5 de dezembro de 2025 completou-se 65 anos da primeiraJam Session das Folhas, evento que realizava audições musicais nos anos 1960, sempre nas primeiras segundas-feiras de cada mês, no auditório do jornal. O evento principiante teve grande repercussão, com o espaço lotado, e sua primeira apresentação foi registrada, ao vivo, no álbum “Jam-Session das Folhas”, no formato de Long Play (LP), lançado em 1961.
Entre os artistas que se apresentaram nas jam sessions das Folhas estavam o pianista e cantor Farnésio Dutra e Silva, sabido porquê Dick Farney (1921-1987), Eliana Leite da Silva, 80, conhecida pelo nome artístico de Eliana Pittman, seu pai, o clarinetista e saxofonista norte-americano Booker Pittman (1909-1969), e a cantora e compositora Rita Lee (1947-2023), além de vários músicos excepcionais, alguns ainda na ativa.
Entre esses exímios instrumentistas, que ainda brilham na arte de economizar os sons, figuram o guitarrista, arranjador e compositor Heraldo do Monte, 90; o trompetista Magno D´Alcântara, 88, o Maguinho; o saxofonista, arranjador e compositor Roberto Sion, 79; o pianista e compositor Edmundo Villani-Côrtes, 95; e o pianista Luiz Mello, 88.
Leia, a seguir, a entrevista concedida por Luiz Mello à pilastra Música em Letras.
Ao lembrá-lo, em entrevista à Folha, de que havia participado das jam sessions das Folhas, sendo uma delas com um grupo formado por Meirelles (1940-2008) nos sopros, Maguinho, 88, no trompete, Rubinho Barsotti (1932-2020) na bateria, e Hector Costita, 90, no sax tenor, o pianista Luiz Mello, 88, disse ter participado do evento “umas três vezes”.
O músico seguiu dizendo que o pouco que se lembra é que sua formação foi com “um grande músico brasílio, o Casé, que foi um puta músico”, referindo-se ao saxofonista, clarinetista, arranjador e compositor mineiro de Guaxupé (MG), José Ferreira Godinho Fruto, o Casé (1932-1978), com quem Luiz Mello dividiu um quarto na juventude.
“Nasci no dia 18 de maio de 1937, em Monte Superior, em Minas Gerais, mas morei com o Casé dividindo um quarto na cidade de Assis. Foi ele quem me ensinou muito sobre música e me mostrou, pela primeira vez, um disco do Dave Brubeck, o que me deixou interessado por aquele tipo de jazz [cool jazz]. Não fui autodidata porque, de certa forma, quando eu tinha alguma incerteza, eu perguntava pra ele [Casé] e ele, que viu alguma coisa em mim, me dava muita dica, só dica boa. Ouvíamos muitos discos, aprendemos muito ouvindo”, disse o músico que é reconhecido por ter um brilhantismo harmônico único, principalmente ao seguir instrumentistas e cantoras porquê Dolores Duran (1930-1959).
Extremamente solícito com relação à simetria, Mello carrega a nomeada de ser um pianista difícil de trabalhar por seus pares. Perguntado por qual razão, o pianista explica: “Principalmente por, primeiro, tocar tudo claro. E a segunda razão é a questão harmônica mesmo. Tem que ter um acorde legítimo. Tocar, acho que é isso, é ter acordes muito feitos”.
Fruto de dentistas, Mello iniciou sua paixão pela música tocando gaita, quando ainda era uma menino. “Tocava músicas sertanejas com uns amigos de puerícia, mas acho que depois que conheci o Casé é que comecei a tocar de verdade e profissionalmente, com 17 anos, no Clube de Paris, um inferninho que tinha cá no núcleo de São Paulo. Depois, fui tocar na boate Michel e na Teteia, que também eram inferninhos daqui do núcleo de São Paulo, além do Avenida Dancing [casa famosa na esquina da Av. Rio Branco com a Rua Aurora, onde funcionava um “taxi-dancing”, local onde homens pagavam para dançar com as mulheres]. Nessa eu já tocava de tudo, né? Tipo dança, jazz, bolero, samba e o que pedissem, mas eu já gostava mais do jazz.”
Já nos anos 1960, o pianista passou a trabalhar em outras casas noturnas de supimpa reputação porquê A Taverna e o Paddock do núcleo de São Paulo, revezando seu grupo, a cada meia hora, com outros. “Nessa quadra ganhávamos muito. Era melhor do que trabalhar registrado em uma loja. Era porquê trabalhar em qualquer lugar, empregado mesmo [registrado]. Era muito remunerado. Eu lembro que eu ganhei bastante quantia. Eu tinha sempre um coche do ano, né?”
Na ocasião, a carteira da Ordem do Músicos era uma exigência para que os instrumentistas pudessem trabalhar nos conformes com a lei. “Eu tirei a minha logo que eu vim para São Paulo. Fui na Ordem dos Músicos e tirei. Estava eu e o Meirelles do Despensa 5 [grupo de samba jazz composto por J.T. Meirelles (saxofone), Manuel Gusmão (baixo), Luiz Carlos Vinhas (piano), Dom Um Romão (bateria) e Pedro Paulo (baixo)], que era músico do Rio de Janeiro, mas que estava cá nessa quadra. A gente saía muito junto, conversávamos muito. Nós ficávamos lá no Ponto dos Músicos [lugar conhecido pela classe artística, que nos anos 1960 se reunia em busca de trabalho na extinta lanchonete Jeca, na esquina das avenidas São João com a avenida Ipiranga, no centro de São Paulo] Nesse dia, nós ficamos no Ponto dos Músicos até as oito horas da manhã, pra poder fazer o inspecção e tirarmos a carteira definitiva da Ordem. Ficamos a noite inteira acordados, porque não dava para pactuar cedo, né? Trabalhávamos muito durante a noite e dormíamos o dia inteiro.”
Sobre as jam sessions das Folhas, o músico recorda que foi convidado pelo baterista Rubinho Barsotti para tocar no auditório do jornal. “O Rubinho que cuidava dessa segmento. Ele fez isso com várias pessoas, não só comigo. Não lembro se foi com o Chu Viana [contrabaixista] ou com o Sabá [contrabaixista], mas não foi com o Chu…Não foi o Chu, não foi…”, disse o artista sendo interrompido por levante repórter que informou ter sido Luíz Chaves o contrabaixista que o acompanhou.
“Você assistiu isso aí?”, perguntou Luiz Mello. “Não, não assisti. Foi em 1960, nasci em 1963”, informou o repórter. “E isso foi gravado?”, indagou o pianista. “Sim, eram jam sessions e vocês tocavam standards de jazz. Quais eram os standards?” “Olha, você está perguntando coisas para mim, mas eu sou completamente tapado de tudo. Não lembro de zero, mas eu acho que são os mesmos [standards] que a gente toca até hoje. Lembro que muita gente ia presenciar, ficava referto. Era um lugar bom para se apresentar.”
Entretanto duas “canjas” [apresentação surpresa feita por um músico ou cantor em um local onde sua presença não é esperada] que aconteceram fora das jam sessions das Folhas continuam na memória de Mello, que não tem por hábito dar “canjas”, mas sim receber colegas de profissão para tal.
“Tem dois músicos que eu não chamei para dar canja, mas quiseram tocar comigo. Um deles foi o Jim Hall [célebre guitarrista norte-americano (1930-2013)] e o outro o Ray Brown [contrabaixista norte-americano (1926-2002), considerado um dos melhores do mundo]. Na ‘canja’ do Ray Brown, ele ficou me ouvindo tocar antes, igual ao Jim Hall, e depois que pediu para tocar comigo não queria parar mais. Deixamos os garçons da lar onde estávamos putos porque eles queriam ir embora e nós ficamos tocando até de madrugada, sem parar. Os dois adoraram tocar comigo”, disse o músico que é famoso por “preparar a leito” para instrumentistas e cantores deitarem e rolarem mostrando seus talentos.
Mas nem todos os ícones do jazz agradam os ouvidos exigentes de Mello, que preferiu primeiramente elencar artistas de quem não gosta antes de revelar de quem gosta. “Do John Coltrane [saxofonista norte-americano (1926-1967)] e do Dexter Gordon [saxofonista norte-americano (1923-1990)] nunca gostei. Sabor do Lee Konitz [saxofonista norte-americano (1927-2020)]. Do Dave Brubeck [pianista e compositor norte-americano (1920-2012)] também nunca gostei, gostava do estilo de jazz dele. De quem eu palato mesmo é do pianista McCoy Tyner [pianista e compositor norte-americano (1938-2020)].”
E dos músicos brasileiros, de quem o Luiz Mello é fã? “Olha o Dick Farney eu não gostava porque ele imitava os outros. Ele nunca foi um músico criativo. Tocando mesmo, eu palato de mim. O pessoal sempre aplaudiu bastante”, disse rindo o músico.
Sobre o jazz e o improviso, Mello é taxativo provando que palavras não são suficientes para definir o tão célebre gênero. “O improviso é assim, você começa… Não é que você começa lento de propósito, você vai…É uma coisa oriundo, né? Você sai do tema e não vai já tocando tudo o que sabe. Você tem que edificar um solo, né? A gente começa, vai construindo, vai crescendo, vai crescendo, tem um auge, depois tem mais um pouquinho de crescente e o término. Já o jazz…O jazz para mim foi formação, né? É uma maneira boa de tocar, né? Uma maneira de tocar muito, fazendo alguma coisa. E eu porquê compositor não sou um…Olha não tem zero que eu goste que eu compus, entende? Deve ter uma ou duas músicas só. Portanto eu era um tradutor de jazz, de outras coisas. Quer proferir, a minha veia de imaginar era improvisando sobre qualquer tema. O jazz é uma constituição, o jazz é uma forma de constituição. Você toca e vai fazendo variações, que não têm zero que ver com o tema, às vezes, só a simetria que é a mesma. O jazz faz você ser um compositor de momento.”
O que era difícil durante as jam sessions? “O problema é que quando acontece uma jam session, os caras [músicos], principalmente os ‘bicos’ [gíria para músicos que tocam mal] abusam, eles não param de tocar. Sabe, tem tanta música pra tocar, o rostro pega uma música e toca meia hora a mesma música. Porra! Enche o saco do rostro que está tocando com ele, enche o saco do público e enche o saco dele também, né? Tem que saber a hora de tocar e de parar”, disse o instrumentista ladeado por duas guitarras, que atualmente lhe servem de companheiras, mais do que o piano. “Tocar guitarra exige menos de mim fisicamente do que o piano. Estou estudando muitas músicas nelas para conseguir tocar porquê palato, de maneira correta.”
