Passada uma semana do sequestro do ditador da Venezuela Nicolás Maduro por tropas americanas de Donald Trump, pouco temos de informações concretas sobre o que se passou efetivamente no país vizinho.
A vice de Maduro, Delcy Rodríguez, foi uma colaboracionista do golpe? Até que ponto o colaboracionismo foi fundamental para a derrubada de Maduro? Diante de tamanho fracasso, qual era o real potencial do tropa bolivariano tão bravejado? Qual o papel da incompetência dos militares venezuelanos numa guião tão medonha? São pegrunas que ainda estão por serem respondidas.
O que sabemos até agora é que: 1) Nicolás Maduro foi um covarde; 2) Tropas militares latino-americanas são úteis para oprimir o próprio povo, quase nunca para tutorar a país.
Que fique simples: Maduro era o líder de uma ditadura militar que estava no poder desde que o presidente Hugo Chávez elegeu-se em 1999 e aos poucos foi minando a fragilíssima democracia venezuelana. Há mais de um quarto de século convivemos com o oração bolivariano de goela de que os EUA e o capitalismo são os demônios encarnados.
Em famosa fala proferida em 20 de setembro de 2006 na 61ª Reunião Universal da ONU (Organização das Nações Unidas), em Novidade York, Hugo Chávez disse: “O diabo esteve cá ontem. Ainda cheira a súlfur nesta tribuna onde agora me encontro”, fazendo referência à presença do logo presidente americano George W. Bush no dia anterior.
Chávez e Maduro esmeraram-se por anos em diabolizar a política, interna e externa. Bradaram porquê machões latino-americanos uma luta santa contra o imperialismo extrínseco. Os inimigos internos prenderam, exilaram e torturaram. Eis que quando o imperialismo bateu à porta efetivamente, o que fez Maduro? Se entregou.
Alguns falarão: seus seguranças cubanos foram mortos e a ousada empreitada americana o surpreendeu. OK, tudo isso conta. Mas porquê Maduro não tinha uma arma em punho para viver ou morrer pela pátria bolivariana?
Não se pode proferir que o ditador venezuelano tenha sido surpreendido. Houve tempo, senão para montar uma resistência eficiente, ao menos para bolar um projecto para que sua biografia não fosse pelo ralo. Nesse sentido, Maduro e Bolsonaro mais uma vez se parecem. Ambos são líderes frouxos adoradores de ditaduras militares que na hora H acovardam-se do embate decisivo, imobilizados pelo pavor do momento histórico.
A fraqueza de Bolsonaro diante da tentativa golpista, depois de bradar por anos que seu sonho era derrubar a democracia, levou-o ao limbo mesmo entre seus apoiadores. Não houve sintoma de volume pedindo a liberdade do covarde Bolsonaro.
Com Maduro o mesmo tende a sobrevir. Sua liderança medrosa coloca-o entre os principais fujões da história latino-americana. Alguns poderão discutir que não havia saída para Maduro. Era a entrega ou a morte. Ora, o ônus de ser um líder é esse: quando chegar a hora H que você tanto clamou, que sua última estratégia seja a autoimolação. Getulio Vargas e Salvador Allende, com causas diferentes, não fugiram da raia.
A fraqueza de Maduro ilustra uma questão mais complexa: nossos exércitos latino-americanos não servem para resguardo externa. Nossos militares adoram uma guerra vencida, contra o próprio povo, simples. Contra invasores estrangeiros, colocam o rabo entre as pernas e estão sempre aptos a negociar.
Isto tudo abre outra questão. Convém aos povos latino-americanos ainda terem exércitos? Na invasão de Trump à Venezuela viu-se tamanho descompasso tecnológico entre os dois exércitos que nos perguntamos se vale o dispêndio de manter financeiramente forças armadas covardes que no termo das contas serão usadas somente contra nós mesmos.
Será que não é hora de levarmos à sério o exemplo da Costa Rica? Desde 1948 a Costa Rica não tem tropa. Estaríamos todos reféns do imperialismo sem os exércitos nacionais? Sim, mas com eles tampouco temos grandes chances. E sem exércitos estaríamos livres de uma força interna que ao longo da história latino-americana contribuiu para golpes e lutou contra a democracia.
Sem forças armadas, caberia aos países realmente pacifistas o soft power da silêncio. Qual país seria capaz de invadir quem francamente não oferecerá resistência? Esse é um teste civilizatório para quem se diz urbano.
Desculpem-me o trocadilho infame (sou fã deles): nossas forças armadas estão “maduras” para serem dispensadas.
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