Maguinho: trompetista relembra jazz em São Paulo 19/02/2026

Maguinho: trompetista relembra jazz em São Paulo – 19/02/2026 – Música em Letras

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Nesta quinta-feira (19), a Folha completa 105 anos. Acesse folha, 105, página que reúne textos históricos dos 105 anos do jornal, além de eventos, vídeos, bastidores das notícias e debates sobre o horizonte do jornalismo.

A pilastra Música em Letras não ficou de fora da sarau e publica cinco entrevistas realizadas com músicos que participaram das jam sessions das Folhas.

No dia 5 de dezembro de 2025 completou-se 65 anos da primeira Jam Session das Folhas, evento que realizava audições musicais nos anos 1960, sempre nas primeiras segundas-feiras de cada mês, no auditório do jornal. O evento incipiente teve grande repercussão, com o espaço lotado, e sua primeira apresentação foi registrada, ao vivo, no álbum “Jam-Session das Folhas”, no formato de Long Play (LP), lançado em 1961.

Entre os artistas que se apresentaram nas jam sessions das Folhas estavam o pianista e cantor Farnésio Dutra e Silva, divulgado uma vez que Dick Farney (1921-1987), Eliana Leite da Silva, 80, conhecida pelo nome artístico de Eliana Pittman, seu pai, o clarinetista e saxofonista norte-americano Booker Pittman (1909-1969), e a cantora e compositora Rita Lee (1947-2023), além de vários músicos excepcionais, alguns ainda na ativa.

Entre esses exímios instrumentistas, que ainda brilham na arte de economizar os sons, figuram o guitarrista, arranjador e compositor Heraldo do Monte, 90; o trompetista Magno D´Alcântara, 88, o Maguinho; o saxofonista, arranjador e compositor Roberto Sion, 79; o pianista e compositor Edmundo Villani-Côrtes, 95; e o pianista Luiz Mello, 88.

Leia, a seguir, a entrevista concedida por Maguinho à pilastra Música em Letras.

Magno D’Alcântara, 88, é um dos músicos que participou das jam sessions das Folhas. No dia 2 de julho de 1961, um domingo, a capote do jornal Folha de S.Paulo anunciava que os pianistas Pedrinho Mattar (1936-2007) e Luiz Mello se apresentariam na jam session das Folhas, no dia seguinte.

O encontro músico era o oitavo da promoção que o jornal estava realizando, com grande vitória, sempre nas primeiras segundas-feiras de cada mês. As apresentações aconteciam no auditório do jornal com o propósito de difundir, em São Paulo, o popular ritmo americano.

Embora o pianista Luiz Mello tenha sido tratado pela material uma vez que “new star” e um dos mais promissores jazzmen do Brasil, um dos integrantes de seu quarteto ganhou destaque no texto uma vez que “revelação”: o trompetista autodidata Magno D’Alcântara, logo com 23 anos.

“Nasci em Uberlândia no dia 2 de março de 1937, mas só fui registrado, no dia 21 de abril, porque meu pai era mineiro, patriota, fã do Tiradentes, e deu uma ajeitada para me registrar nesse dia”, disse o músico em entrevista à Folha.

Ainda segundo a material publicada na Folha, o instrumentista havia despertado a atenção da sátira especializada, a qual o considerou a maior revelação do trompete, em 1960: “Valor jovem somente há poucos anos começou a despontar no cenário artístico do país”.

Formado por Luiz Mello, ao piano, Luiz Chaves (1931-2007), no contrabaixo, e pelo baterista Rubinho Barsotti (1932-2020) -os dois últimos viriam a formar, em 1964, o Zimbo Trio, com o pianista Amilton Godoy-, Magno D’Alcântara, o Maguinho, uma vez que é divulgado artisticamente, já ocupava o lugar de primeiro trompete do conjunto do pianista, compositor e cantor Farnésio Dutra e Silva, mais divulgado pelo nome artístico Dick Farney (1921-1987).

Maguinho chegou em São Paulo, em 1958, vindo do interno do estado onde tocava em bailes. Sua experiência adquirida durante o tempo em que integrou a filarmónica de seu pai, entre outros grupos, fez com que ele descolasse vários lugares para “guerrear” em São Paulo. O músico tocava na boate Oásis, que funcionava no porão do primeiro prédio modernista da cidade, o Prédio Esther, ocupado por um misto de apartamentos residenciais e escritórios, na rossio da República, quando, segundo ele, sua vida “mudou para melhor”.

O lugar oferecia atrações musicais muito muito selecionadas e era frequentado, entre outros, pela pintora Tarsila do Amaral (1886-1973), autora do “Abaporu”; pelo arquiteto Flávio de Roble (1899-1973), que em 1956 desfilou de saia no Viaduto do Chá; pelo historiador social da Folha, Tavares de Miranda (1916-1992); pelos escritores Sérgio Milliet (1898-1966), um dos participantes da Semana de Arte Moderna, e Mario Donato (1915-1982), responsável de “Presença de Anita”; além de vários músicos e instrumentistas em procura de uma “boca” para “guerrear” e mostrarem sua arte.

“Eu e o pessoal do quinteto que atacava comigo, na Oasis, estávamos de aviso prévio quando apareceu na porta da garagem da boate um faceta magrelo, tá, assim, muito magrinho mesmo, mas muito tá e muito falante. Ele disse: ‘Quem é o Maguinho cá?’. Aí eu me apresentei e ele falou: ‘É o seguinte, eu estou com um grupo cá perto, na Tenda [boate famosa nos anos 1960, na praça Roosevelt, área central da cidade] e preciso de um naipe de sopro’. Aí contei a história, né? Que estava de aviso prévio, coisa e tal. Nessa, ele disse que a grana não era muito boa, pois pagavam só 40 milénio cruzeiros. Uma vez que eu ganhava só seis na Oasis e estava de aviso prévio, topei na hora”, lembra Maguinho que aceitou a proposta feita pelo contrabaixista Luiz Chaves.

O trabalho era para “guerrear” com o pianista Dick Farney, que já era divulgado e abocanhava 120 milénio cruzeiros de cachê, enquanto outros integrantes do grupo, uma vez que o contrabaixista Chu Viana (Manoel Luiz Lameira Viana) e o baterista Rubinho Barsotti, mordiam por volta de 30 milénio cruzeiros. “O Rubinho era legista e não precisava de grana. Era um negócio muito bom, atacávamos às seis, sete da noite, tipo happy hour, até umas dez da noite. Depois entrava uma outra turma que ia das 11h até as três, quatro da manhã.”

Uma vez que o trabalho rendia um bom “troco”, possibilitando a compra de vários ternos e dando ao músico mais tempo, o trompetista passou a tocar em outras casas noturnas, realizar várias gravações em discos e a participar de vários programas de rádio e TV, na ocasião providas de orquestras que tocavam ao vivo. “Só na Record tinha três orquestras. Dava para a gente viver muito. Porque aí a gente fazia uma gravaçãozinha cá, outra ali, além de levantar sempre um cachezinho extra substituindo quem não podia comparecer, né? Nessa idade, São Paulo tinha trabalho para todo mundo na música. Era jazz e samba em todos os lugares, mas dependendo da moradia era só jazz”, disse o trompetista que, entre outras, participou das orquestras de Osmar Milani, Sylvio Mazzuca (1919-2003), Enrico Simonetti (1924-1978) e com o rei Roberto Carlos. “A orquestra do Simonetti foi a melhor orquestra de São Paulo”, disse o instrumentista.

Convites para tocar “Stella by Starlight”, entre outros temas manjados de jazz, nas jam sessions das Folhas foram vários. Maguinho lembra que participou do evento entre sete ou oito vezes, em várias formações. “Quinteto, dueto, trio, quarteto…Geralmente as formações eram pequenas para caracterizar melhor o jazz.”

Com relação ao público, o músico se recorda das filas homéricas que eram formadas na rua Barão de Limeira para que as pessoas conseguissem os ingressos. “Ia muita gente, lotava. Eu morava muito perto do prédio do jornal, na rua Pirineus, e ia a pé até lá com o instrumento na mão. Nessa idade, eu era magrinho, pesava 55 quilos, mas nunca mexeram comigo, não tinha tanta violência, assalto e essas coisas na cidade.”

Entretanto já havia drogas. “Tinha muito fumo e Pervitin”, disse o músico citando o nome mercantil dos comprimidos vendidos nas farmácias que continham metanfetamina e eram usados por jovens recreativamente e por trabalhadores noturnos para ficarem alertas. “Eu não tomava e nem fumava zero dessas coisas que davam barato porque meu pai sempre foi muito conservador em relação a isso. Sabíamos quando um faceta que estava tocando tinha usado, mas não falávamos zero para não prejudicar o colega.”

Maguinho está emérito e por questões de saúde há muito não toca. Perguntado se sente falta da atividade, respondeu usando gírias de seu tempo de juventude. “Bidu, parei no som, mas acho que vou dar muita chinesa”, disse rindo, referindo-se às notas musicais consideradas erradas, que soam de maneira estranha geralmente por estarem fora da simetria.

Folha

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