Malu Galli vive mãe de Édouard Louis depois de 'Vale

Malu Galli vive mãe de Édouard Louis depois de ‘Vale Tudo’ – 16/01/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Meses detrás, quando o remake de “Vale Tudo” chegava ao término, a personagem de Malu Galli reforçou sua função de figura materna ao alojar a sobrinha, vivida por Paolla Oliveira. Na idade, a mana e a filha de Odete Roitman não só acreditaram na morte da magnata —vilã que, enfim, reviveu nos últimos instantes da versão da autora Manuela Dias—, uma vez que ainda estiveram entre as principais suspeitas do caso.

Esses últimos capítulos fortaleceram tia Celina uma vez que espécie de mãe postiça e levaram os espectadores a questionarem os limites que aquela mulher seria capaz romper. Apesar do contexto menos inevitável, “Mulher em Fuga”, em edital no Sesc 14 Bis, nasce de uma incerteza similar —e revê a vocação de Galli para explorar a maternidade.

A relação conturbada com os pais também é um dos tópicos que o gálico Édouard Louis, hoje um dos expoentes da literatura de autoficção, aborda ao dissecar sua sexualidade. Ele provou ser tendência entre os brasileiros dois anos detrás, em sua vinda à Flip, e voltará ao Brasil em março para estrelar uma montagem do seu “Quem Matou Meu Pai”, durante a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp.

A dramaturgia de “Mulher em Fuga” nasce justamente da junção de dois de seus livros —”Lutas e Metamorfoses de uma Mulher” e “Monique se Liberta”— e desenha as disputas sociais e psicológicas de Monique, a mãe do responsável, que Galli encarna entre a intimidade e a universalidade do papel.

“Ainda muito que ninguém cá conhece Monique”, diz a artista sobre a mulher que se separou de três maridos abusivos. “Tenho certeza absoluta de que interpreto outra pessoa. Esta é a minha taxa para essa história e não posso me distanciar de minhas experiências. Sempre busco um ponto de encontro entre a personagem e quem eu sou.”

Em 2013, quando estrelou a peça “Oréstia”, Galli disse que histórias de mães e filhos ressoam em qualquer lugar e tempo. Na ocasião, ela voltava a fazer trabalhos mais alternativos depois alguns anos dedicada à TV.

Sua jornada nas telinhas ganhou força com a minissérie “Queridos Amigos”, de 2008, que tornou ela numa psicóloga que colapsa depois desvendar a traição do marido. No mesmo ano, fez “Três Irmãs”, sua primeira romance, uma vez que figura solar e devota aos filhos. Mais tarde, seria uma mãe desconstruída em “Aline”, seriado que equipara os desejos da adolescente-título aos da genitora.

Viveu também Tubaroa, a advogada ambiciosa de “Cheias de Charme”, e foi do lixo ao luxo entre as novelas “Totalmente Demais” e “Paixão de Mãe”. Se na primeira deu vida a uma mãe superprotetora de classe baixa, na segunda reproduziu o vazio de uma socialite assombrada pela morte do fruto.

Nessa trajetória, Galli levou tempo até encontrar sua primeira protagonista, mas reuniu coadjuvantes que desafiaram uma vida pessoal reservada. Agora, depois a repercussão de tia Celina, ela diz dividir com Monique não só os 54 anos de idade, uma vez que os sonhos e bloqueios de uma mesma geração de mulheres.

“Posso não ter vivido o que Monique viveu, mas o silenciamento é o que a grande maioria das brasileiras vive. A urgência dessa narrativa alimentou meu envolvimento”, afirma ao denunciar questões uma vez que o feminicídio, que no ano pretérito atingiu novo recorde na capital paulista, com um totalidade de 58 casos.

Na peça, as violências retratadas são quase sempre verbais, simbólicas —a informação entre Édouard, vivido por Tiago Martelli, e Monique é impraticável. Ainda que no mesmo espaço e na mesma mesa, que os separa com o tamanho enorme, mãe e fruto parecem tolerar de forma solitária. E a intersecção de vários períodos, num vai e vem entre casamentos e o prolongamento de Louis, só ressalta essa intervalo.

A sentimento é que ambos só podem segredar suas angústias ao público. Prova disso é a cena em que Galli caminha sobre a mesa com um aspirador de pó. O som invade a sala pouco depois de Édouard, que narra boa segmento do enredo, entrar com sangue na camisa. Ele fala de seus trejeitos femininos e desabafa sobre o bullying que sofre na escola. A resposta une o fragor e um pedido imperioso de Monique —o garoto precisa se arrumar para que eles saiam a tempo de reivindicar a cesta básica.

Entre obstáculos financeiros e estigmas de gênero, situações uma vez que essa guiam a peça e alimentam um ciclo de violências. Martelli afirma que, nas obras, Louis reflete sobre as agressões da mãe e expurga a agressividade que ele mesmo herdou.

“Louis diz que a violência atravessa os corpos e que eles são vetores dessa violência. Nenhum corpo é produtor, só reproduzimos e somos atravessados”, diz Galli, cuja tradução vai da estaticidade, em trechos de rendição, à eletricidade, uma vez que quando se permite dançar ou mesmo derrubar paredes num furioso solo de bateria.

Esse estrondo reflete outra crise da família Louis. Em 2023, quando “Lutas e Metamorfoses” chegou às livrarias, Monique detestou a exposição de seus demônios internos. Ela aceitaria melhor a literatura do fruto no ano seguinte, com a publicação de “Monique se Liberta” e o sucesso que financiou a sua fuga.

Para Inez Viana, diretora de “Mulher em Fuga”, essa tensão complexifica as lutas dessa mulher, que pode simbolizar todas as outras. O choque entre o público e o privado também reflete a atualidade de Galli.

Antes mesmo de “Vale Tudo”, ela viu Violeta, sua primeira protagonista em novelas, de “Além da Ilusão”, virar um símbolo feminista e se aproximou dos cinéfilos com títulos uma vez que o horror cult “Propriedade”. Agora, além da peça, já com sessões esgotadas, se prepara para lançar “Querido Mundo”, filme que troca a densidade emocional pelo otimismo de uma mulher tentando reiniciar a vida.

“O público reconhece a minha trajetória e não sou reduzida a uma personagem ou outra que bombou. Mas não quer expor que estou com o jogo lucro”, diz ela antes de rir de si mesma. “Tenho susto de descobrirem que sou uma impostora a cada novo trabalho, mas vivo hoje o meu momento mais feliz.”

Sobre a repercussão do remake de Manuela Dias, ela comenta a falta de cerimônia na televisão. “A TV invade a moradia das pessoas. O personagem te vê no meio da sala, no quarto, fazendo sei lá o quê. Surge essa falsa teoria de que ele pertence ao público. É difícil, mas essa intimidade faz segmento desse trabalho.”

Folha

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