Marisa orth e miguel falabella se reencontram em peça

Marisa Orth e Miguel Falabella se reencontram em peça – 25/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Miguel Falabella está com 68 anos. Marisa Orth, com 61. Pode não parecer, já que os trechos de “Sai de Plebeu” circulam sem parar na internet. Mas o programa começou há quase três décadas, em 1996, e acabou há mais de duas, em 2002. Dá para entender, logo, quando Falabella assume um tom mais sentimental ao falar de “Fica Comigo Esta Noite”, peça que circulou em Portugal no ano pretérito e estreia nesta quinta-feira (24), em São Paulo.

“A peça ganha uma dimensão muito formosa e humana com nós dois mais velhos”, afirma o ator, ao lado de Orth, logo em seguida um experiência. “Eu me emociono toda noite. É porquê se eu tivesse me despedindo dela.” “Para de palhaçada”, diz a atriz.

“Fica Comigo Está Noite” foi escrita por Flávio de Souza, um dos mestres da televisão infantil brasileira, pai de “Mundo da Lua” e dos programas “Rá-Tim-Bum”. Na obra que entra em papeleta, se dirige aos adultos ao racontar a história de um morto e sua esposa.

Enquanto o velório ocorre no quarto do parelha, os dois personagens recebem as visitas —invisíveis para o público— que vêm lamentar o termo do defunto, que circula pelo palco, dividindo seus pensamentos com a plateia. Somente na segunda secção da peça, quando os visitantes já saíram de cena, o parelha consegue enfim conversar.

Orth conhece muito essa história. Subiu ao palco com ela em 1988, aos 25, no idoso Teatro Igreja, no Varíola, meio de São Paulo, numa montagem dirigida pelo próprio dramaturgo. Carlos Trigueiro fazia logo o finado marido.

“Foi o meu primeiro invitação profissional importante. Eu lembro que eu morava na moradia dos meus pais, muito moleca ainda. E foi muito fluente, maravilhoso, o maior sucesso. Foi a peça que me revelou.”

Dezoito anos depois, quando ela tinha 43, o ator Murilo Benício e o diretor Walter Lima Jr. a convidaram para uma novidade montagem do texto. Agora, ela volta a sua personagem passados outros 18 anos. “Com 80 eu faço o morto. Eu vou amar.”

Orth diz que sua relação com a peça mudou entre as três montagens. Coisas que a tocavam já não a comovem, e passagens antes ditas da boca para fora ganharam outro peso. “Eu diria que eu valorizava mais o romance, e agora penso mais na morte.”

Quando Falabella conheceu Orth, a atriz se formava na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, no idoso Tusp, o teatro da faculdade, logo no bairro do Itaim Bibi. Para marcar a peroração do curso, sua turma encenava “Garoto Enterrada”, do americano Sam Shepard.

“Tinha uma velha maravilhosa”, o ator afirma. “E eu dizia, ‘mas porquê é que eu não conheço essa mulher?’ Para ser tão boa atriz, deve ter feito muita Tupi. Quando acabou a peça, fomos aos camarins e a velha era uma moçoila de 23 anos.”

Os dois se reencontraram mais tarde nos estúdios da Mundo, no Rio de Janeiro, quando ele atuava para a romance “Mico Preto”, e ela, para “Rainha da Sucata”, ambas de 1990. Se aproximaram a partir daí e estrearam porquê dupla no palco em 1991, com a peça “Algemas do Ódio”.

“Ainda que sejamos muito diferentes, temos uma coisa profissionalmente muito parecida. A gente chega lá e faz. E o público sabe disso”, diz Falabella.

Mas foi o “Sai de Plebeu” que elevou os dois a patrimônio pátrio. Lá, eles eram Caco e Magda Antibes, um parelha ricaço em decadência, reduzidos a moradores do Largo do Arouche em seguida perderem sua mansão pelas falcatruas de Caco.

Hoje, quem vê a série, ou outros títulos antigos da emissora, no Globoplay, se depara com um aviso: “Essa obra pode sofrear representações negativas e estereótipos da quadra em que foi realizada.”

O nome de Caco, o personagem de Falabella, pipocou algumas vezes no recente debate sobre a pena do humorista Leo Lins a mais de oito anos de cárcere por piadas consideradas preconceituosas. O ator, responsável por outros programas controversos, porquê “Sexo e as Negas”, diz que o susto da repercussão das tiradas do programa não é novo.

“Teve confusão quando eu comecei com essa história do Caco Antibes não gostar de pobre, só que foi um sucesso tão avassalador que ninguém mais falou zero”, afirma. Ele, no entanto, não considera que Leo Lins e seu personagem estão na mesma categoria.

“O Caco tinha essa pegada de extrema direita, de um racista violento, mandava a mulher emudecer a boca, mas era feito com muita leveza. E ele era um fodido, né? Não era o que batia, ele apanhava para moca. Se deu mal a vida inteira. Tinha essa válvula de escape.”

Os dois atores dizem que o que viram do trabalho do humorista é muito pobre, e que ele apela para ofensas a grupos minoritários por não ser bom. Mas o pior, dizem, é ter público interessado e pagante.

“Proibir é complicado, eu acho que entramos num terreno muito perigoso”, diz Falabella. “Eu acho que é uma questão de bom siso, de bom paladar, urbanidade. Eu não vou ver o show desse face, porque ele não tem zero para me proferir.”

Uma vez que em sua entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, exibida na semana passada, Orth questiona se multas poderiam ser caminhos melhores para responder a esse tipo de situação. Ela também afirma que discussão é complexa e exige um conhecimento jurídico maior do caso. “Cárcere gera mártires. Coisa chata. Faz piada boa, meu”, diz.

As opiniões de Orth e Falabella sobre o estado do humor se encontram e desencontram ao longo da entrevista.

Uma vez que lembra a atriz, as décadas passadas viram surgir Fabio Porchat, Ingrid Guimarães, Marcelo Adnet, entre outros. “Eu gostei muito dessa valorização do humor que trouxe essa turma. De repente, meu fruto achava o humor chiquérrimo. E os textos melhoraram muito.” Mas o momento já é outro, e ela diz ainda estar tentando entender os novos caminhos da comédia.

Falabella é menos otimista. Ainda que menospreze piadas porquê a de Leo Lins, diz que são tempos difíceis para o riso. O susto de cancelamento atrapalha a geração e ajudou a produzir as grandes salas de roteiro, com muita gente opinando nos rumos de cada história, o que acabaria descaracterizando o texto.

“Você pode gostar ou não do meu trabalho, mas você não pode proferir que eu não sou uma pessoa autoral. Se você tira o Falabella do Falabella, não sobra muita coisa”, afirma.

Para ele, o envolvente do dedo, mais do que revelar novos talentos, abriu uma caixa de Pandora.

“Não há mais dramaturgia, meu querido. Há uma exibição. A minha vizinha é mais comediante do que eu. As pessoas todas ficaram loucas”, afirma. “Sem tirar o préstimo, porque tem muita gente talentosa. Mas é uma histerismo coletiva de todo mundo ter que ser visto.”

Outra face do problema, segundo o ator, é um manifesto emburrecimento generalizado —e nisso ele tem o escora de Orth. “Para se entender e fruir um bom humor, você precisa ter referência, senão você não vai descobrir perdão naquilo que eu estou falando. E que referência você vai ter, se você não sabe zero? As pessoas não sabem mais zero.”

Apesar das questões, Orth e Falabella seguem em movimento. Para além dos palcos, Falabella volta à Mundo pela primeira vez desde o termo de seu contrato, em 2020, para participar da romance “Três Graças”, a próxima romance das nove, em seguida o termo de “Vale Tudo”, em outubro.

É a primeira vez do ator no horário superior das novelas desde 2002, quando participou de “Agora É que São Elas”. Seu personagem do novo folhetim é um varão gay, proprietário de uma galeria de arte com seu marido, personagem do ator Samuel de Assis. Ele diz que, até onde sabe, sua participação será esporádica na trama e que ele terá uma filha adotiva.

“Achei o invitação interessante, até para que as pessoas não achassem que ficou alguma coisa por resolver, porque não ficou”, ele afirma. “Foi bom voltar a ver os poucos remanescentes que ainda tem lá no Projac. Você não pega 38 anos, empacota e não aconteceu zero. Eu passei toda a minha vida ali dentro.”

Também diz gostar da teoria de responder aos pedidos de uma geração mais velha que, em sua leitura, ficou órfã de suas estrelas. “Simples que tem que ter renovação, TV é uma mistureba mesmo, é pop. Mas eu acho que tem o nosso espaço lá, que nós conquistamos ao longo desses anos.”

Falabella diz nunca ter esperado que sua relação com a Mundo fosse vitalícia. Leitor de biografias, afirma saber muito as histórias das estrelas hollywoodianas que em um dia eram sensações mundiais e, no outro, estavam fora dos holofotes.

Em seguida a ruptura, se dedicou a projetos em parceria com plataformas de streaming, porquê o Disney+ e o Prime Video, aos musicais e a sua longeva relação com Portugal. Foi por um invitação de produtores de lá, inclusive, que a novidade montagem de “Fica Comigo Esta Noite” surgiu.

Do mesmo jeito, Orth diz que já tinha visto nos contratos de trabalho com a emissora mais curtos dos últimos anos um sinal de que deveria se organizar para a vida pós-plim plim. “Sempre fiz muito teatro, muita música, sempre tive um pé meio fora. Mas é bom também estar livre.”

Folha

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