Martin Parr fotografou a classe média de maneira cáustica

Martin Parr fotografou a classe média de maneira cáustica – 07/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Martin Parr é um artista de muitos predicados. Morto neste sábado (6), aos 73 anos, o britânico foi um dos últimos grandes nomes a mudar a retrato de maneira profunda, e em diferentes áreas. Além de fotógrafo de imensa influência, foi curador, pesquisador, presidente da Magnum, a escritório mais mítica entre todas as agências, e alguém com o poder de impulsionar a curso de jovens somente por elogiar um trabalho.

A maioria dos obituários de Parr vai, com certa razão, evidenciar o protagonismo das fotografias que fez em praias por mais de quatro décadas em diversas partes do mundo, da Tailândia à China, do Brasil à Itália, dos EUA ao Japão e, evidente, no Reino Unificado, onde produziu “Last Resort”, uma de suas séries mais conhecidas.

No balneário de New Brighton, Parr fez um retrato melancólico das famílias inglesas da classe trabalhadora, explorando o contraste entre um espaço que deveria oferecer diversão —ou onde há pressão para se divertir— e pessoas que pouco sorriem em meio a lixo por todo lado, poses desconfortáveis e pranto de crianças.

Ali ele já usava o recurso do flash estourado, mesmo em locais ensolarados, uma marca da visão cáustica que definiu sua curso. A luz forçada trazia comicidade às fotos, sem sutilezas, e expunha a situação das classes média e baixa do Reino Unificado que enfrentavam uma economia deteriorada na dez de 1980.

Essa abordagem, evidente, também gerou críticas de que Parr era cruel ao, de certa forma, rir daquele cenário, embora justificasse que seu interesse era menos pelo tema das classes e mais pelo lazer, “das banalidades do dia a dia com as quais todas as pessoas têm de mourejar, uma vez que gritos de bebês e um dia de tempo ruim”.

De veste, nas décadas seguintes Parr expandiu os assuntos que abordou nas praias, focando a indústria do turismo e absurdos estéticos de todo tipo, sempre referto de cores e formas curiosas, uma vez que nas imagens do rosto de uma mulher tomando sol na Espanha com um protetor nos olhos e de uma sunga com a bandeira dos EUA numa bundinha murcha em Miami, dispostas lado a lado na coletânea “Life’s a Beach”, de 2013.

No percurso dos anos, também intensificou o contraste das imagens, e seu flash ficou ainda mais possante. Se nos anos 1980 e no início dos 1990 as fotos eram mais “lavadas”, agora elas apareciam ultravívidas, o que também fez a sátira social perder força frente à abordagem mais pop. Ficou mais fácil de digerir sua obra.

A morte precoce, logo depois de inaugurar uma grande mostra em Nuremberg, na Alemanha, toda baseada em mais de seus 200 fotolivros, deve impulsionar um novo olhar para a curso de Parr, resgatando séries menos conhecidas, uma vez que as do início dos anos 1970, em que curiosamente fotografou em preto e branco.

Zero ali é muito dissemelhante do que fez na sequência. Pelo contrário, explica a gênese do olhar cauteloso ao que é ordinário e que, por isso, muitas vezes passa despercebido. São registros de pequenos gestos e de poses que captam o sem razão do dia a dia. Labareda a atenção uma retrato de 1972, de uma piscina na Inglaterra, da série “Butlin’s by the Sea”, que parece ter sido atualizada numa praia sintético lotada no Japão em 1996.

Ao ser um dos responsáveis por solidificar o fotolivro uma vez que a principal plataforma de espalhamento da retrato, Parr também teve uma atuação prolífica em outras áreas da prática, editando livros, curando exposições e adiante de pesquisas que organizaram ou revelaram a produção de diferentes partes do mundo. Com Gerry Badger, lançou os três volumes de “The Photobook: A History”, grande referência aos interessados no tema.

Sua influência era tão possante que, em 2014, o fotógrafo Lewis Bush publicou “Martin Parr’s Money”, um pilhéria com a glória do britânico no mundo dos fotolivros. De capote dourada e encadernada com fios de ouro, a obra tirava sarro do impulso que artistas ganhavam cada vez que Parr os citava entre as melhores publicações do ano. Ao furar o livro, o leitor encontrava somente uma nota de 20 libras, o que certamente divertiu o seu homenageado, um crítico do consumismo global desordenado e, ao mesmo tempo, alguém que o reforçou.

O legado de Parr ainda repercutirá por anos, pois seu olhar, embora impossível de ser copiado, foi emulado à exaustão por fotógrafos e revistas atuais, que por vezes o repetem sem nem mesmo conhecê-lo a fundo.

Folha

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