Martinho da Vila revisita 'melhor disco de samba já feito'

Martinho da Vila revisita ‘melhor disco de samba já feito’ – 11/12/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em julho de 1974, Martinho da Vila falou à prelo em um evento antes de viajar à Europa. Ele tinha deixado um álbum pronto, a ser lançado em setembro. “É uma sarau, garanto que é o melhor trabalho que já se fez em disco no Brasil”, disse, segundo reportagem da Folha.

O sambista falava de “Canta Canta, Minha Gente”, um dos álbuns mais importantes de sua curso, e da música popular brasileira, que completou cinco décadas no ano pretérito com celebrações tímidas. Agora, Martinho da Vila apresenta um show devotado ao disco no estádio Mangueirão, em Belém, porquê uma das atrações do festival Psica, que acontece entre sexta (12) e domingo (14) na capital do Pará.

“Eu disse isso mesmo?”, ele ri, aos 87 anos, em seu apartamento na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. “Se fosse pensar mais um pouquinho, não diria aquilo. Mas na verdade foi o melhor disco de samba feito no Brasil. Só me esqueci [de falar] a termo ‘samba’.”

Tanto quanto ao repertório poderoso —de músicas porquê “Disritmia”, “Renascer das Cinzas”, “Visgo de Jaca” e a faixa-título—, Martinho se refere ao esmero com que o trabalho foi feito. Tem a ver com a gravação em 16 canais, sob o produtor Rildo Hora, com músicos porquê Rosinha de Valença e Manoel Conceição, o Mão de Vaca, nos violões, a célebre envoltório azulada feita por Elifas Andreato e a própria teoria de fabricar um LP de samba que fosse mais do que um conjunto de canções.

“Os discos de samba eram feitos só na base de violão, cavaquinho e ritmo. As capas eram feitas pelos departamentos de arte das gravadoras, sempre aquela foto do artista. Mas era o que mais vendia”, ele afirma. “Os artistas que não vendiam eram mais prestigiados. Faziam álbum duplo, tinham aqueles encartes bonitos.”

Mesmo popular, o samba não era prioridade para a indústria fonográfica —basta lembrar que Cartola só foi lançar um disco com mais de 60 anos, por um selo pequeno. Desde o término dos anos 1960, Martinho era um dos principais responsáveis pelo sucesso do ritmo em termos de vendas de discos. Sentiu que tinha cacife para um projeto mais ousado.

“Falaram que isso é coisa de artista que não vende. Tinha que ser aquela coisa —disco de venda”, diz. “Falei que eu tinha liberdade de fazer o que quisesse por contrato. E eu queria fazer esse álbum”. Pela grande demanda, ele diz, “tiveram que parar tudo na fábrica”. “Era mais complicado, com envoltório dupla e a cor azul. E foi um dos mais vendidos daquele ano.”

“Canta Canta, Minha Gente” trouxe uma sonoridade encorpada e uma riqueza nos detalhes que eram inéditos para um álbum de samba. Demorou para permanecer pronto, diz Martinho, que recorda da teoria do produtor de ir introduzindo um a um os instrumentos na música “Renascer das Cinzas” até atingir um vértice grandioso.

É desse álbum a música “Disritmia”, uma de suas mais emblemáticas. “Eu bebia muito nessa estação”, diz. “É um pouco disso, estou falando de mim mesmo naquela frase, ‘vem logo, vem tratar seu nego que chegou de porre lá da boemia’. Eu era boêmio. Era a verdade que eu estava vivendo.”

Foi uma das músicas do álbum que renderam problemas com a ditadura militar. A cantiga foi vetada por culpa da termo “porre”, e Martinho foi pessoalmente discutir a letra com os censores.

“Os artistas tinham horror, eram inimigos, não iam lá. E eu cheguei assim ‘oi, pessoal, cá é o Martinho, tranquilidade? Queria saber da música que vocês vetaram, será que é provável?’”, ele diz. Um dos agentes afirmou que até gostou da cantiga, diz o cantor, mas “porre” estava em uma lista de palavras proibidas. O militar disse ainda que havia uma restrição a artistas que incentivassem o consumo de bebida alcoólica.

Martinho alegou que “Disritmia” não incentivava a bebida e pediu para ver as palavras vetadas. “Não tinha ‘porre’ na lista, e a música foi liberada”, diz. “A melhor maneira de enfrentar o inimigo não é provar que tu não gosta dele, que se pudesse matava. É ir vagarosamente, fazer camaradagem. Aí você consegue tudo que quer. Você desmancha o face que ia te hostilizar. Com jeitinho se faz tudo.”

A tira “Tribo dos Carajás”, que soa mormente atual depois da COP30 realizada em Belém, também incomodou o regime. Martinho se inspirou nos povos originários da Amazônia, onde ele se apresenta neste término de semana, para ortografar um samba para a escola da qual é hoje presidente de honra, a Vila Isabel.

“A Vila bolou um enredo sobre a região amazônica, e eu quis falar do índio amazônico, porque tem muitos lá. E temos sempre que lembrar que a maioria dos índios do Brasil foram dizimados pelos bandeirantes”, ele diz. “O samba pegou na quadra. Todo mundo dizia que ia lucrar. Mas cortaram antes da final. Fiquei para morrer.”

Martinho depois soube que teria havido uma instrução para um diretor da escola varar a música da competição. A Vila Isabel desfilou um tema sobre a rodovia Transamazônica —obra do regime militar feita sob o pretexto de conectar a Amazônia ao resto do país. “Era um samba caidão, só para deleitar o governo.”

Na letra de “Tribo dos Carajás”, Martinho faz uma denúncia de que os povos indígenas estavam “sumindo da face da Terreno” posteriormente a chegada do varão branco “para erigir, para progredir, para desbravar”. “Não lembro qual foi exatamente, mas na gravação troquei uma termo dessas [da versão original], porque estava um pouquinho potente”, afirma.

Apesar disso, Martinho costumava não expor sua oposição à ditadura militar. Outros artistas, diz, já levantavam essa bandeira. “Não preciso dessa, tenho que empunhar outra”, afirma. Ele inclusive tinha sido sargento, e se via numa posição incomum —era tido porquê infiltrado do tropa por segmento da classe artística e ao mesmo tempo visto porquê comunista pelo regime.

Hoje o cantor diz que estava mais para comunista do que militar. “Tinha ido a Angola, Moçambique e à Rússia”, diz. “Pelas minhas andanças, achavam que eu era muito mais comunista do que sou, que eu tinha qualquer aparelho, alguma reunião de comunistas. Mas não acharam zero, e para prender um artista tão popular tinha que ser muito justificado.”

Uma das marcas da curso de Martinho é registrar em disco músicas tradicionais do Brasil. “Madalena do Jucu”, sucesso em sua voz, veio posteriormente uma pesquisa sobre folclore. E muita gente achava que foi ele tinha inventado o partido eminente só porque foi um dos primeiros a gravá-lo.

Em “Canta Canta, Minha Gente”, Martinho gravou e cantou uma colagem de pontos de umbanda em “Sarau de Umbanda”. Seu interesse, ele diz, era expor aquela musicalidade ao ouvinte que comprasse um disco de samba.

“Fui a um núcleo, fiquei lá desde o início da sessão até tarde. E gravei. Era exclusivamente para ter um registro, só que virou um dos maiores sucessos do disco”, afirma. Martinho conta que chamou os percussionistas que ouviu naquele dia para o estúdio. “Ficou mais ou menos porquê eu tinha escutado, com exclusivamente alguns retoques”, diz. “O potente ali é a batida. Disse para eles tocarem à vontade.”

De sua pesquisa nasceu também “Calango Vascaíno”, que além do time de futebol traz no título o nome de um ritmo pouco divulgado. Martinho sabia do calango da zona rústico carioca onde ele nasceu, em Duas Barra, e levou a sonoridade ao estúdio.

Há em “Canta Canta, Minha Gente” uma sugestão de procura da felicidade em meio adversidades. É um tanto presente na faixa-título, na cantiga sobre o Vasco da Gama, na resistência indígena de “Tribo dos Carajás” e principalmente em “Renascer das Cinzas”.

Essa música, diz Martinho, veio para levar autoestima à portanto rebaixada Vila Isabel. “Quando cantei ela no terreiro, até varão feito chorava, foi uma coisa incrível”, diz. “Eles adoraram o refrão. Ficou todo mundo emocionado.”

O disco de 1974 tem ainda “Patrão, Prenda Seu Mancheia”, chula raiada —estilo de samba idoso— dos anos 1930 do que Martinho labareda de santíssima trindade da música popular brasileira, Pixinguinha, Donga e João da Bahiana. Também uma seresta —”Malandrinha”, com toques de bossa novidade—, e uma reflexão sobre a negritude —”Nego Vem Sambar”, em que ele encoraja os negros a entrar na universidade.

Além de tudo, o álbum encapsula o estilo tranquilo e malandreado de Martinho. “O samba era símbolo de alegria, portanto o sambista cantava o samba sempre vertiginoso”, ele afirma. “Desacelerei porque sou mesmo vagarosamente. Não foi de propósito, é meu jeito.”

“Canta Canta, Minha Gente” chega ao Psica, mais de 50 anos depois, ainda reverberando na música brasileira. Mas Martinho prefere não elaborar muito. “Tudo que faço é porque paladar. Se esquina um tanto e tem mais dois que gostam, vai um abrindo um leque e daqui a pouco toma tudo.”

Folha

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