Imagens trêmulas e chuviscadas de gente dançando numa boate abrem os episódios da série “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Maquinalmente”. Analógicas, elas parecem retiradas de fitas VHS há muito tempo esquecidas, embora sejam peças de ficção, filmadas hoje para emular a efervescência da noite queer carioca dos anos 1980.
Foi justamente para não olvidar a liberdade que surgia naquele horizonte, na ressaca da redemocratização e de uma dezena de 1970 marcada por mudanças comportamentais, que as cenas foram recriadas. Mas aí veio a epidemia de Aids, e a população LGBTQIA+ foi novamente empurrada para dentro do armário.
Ou foi o que tentaram fazer. “Máscaras de Oxigênio” conquista o desistência, o silenciamento e o preconceito que amplificaram o massacre provocado pela doença, mas procura lampejos de alegria em meio à dor. Seus personagens não são movidos pelo pânico da morte, mas pela vontade de viver, um tanto que vem sendo frisado pela equipe da novidade série vernáculo da HBO Max.
“O Brasil tinha saído de uma ditadura, as pessoas viviam uma euforia, uma liberdade, e a epidemia chegou na contramão disso tudo”, diz Carol Minêm, que dirigiu os cinco episódios ao lado de Marcelo Gomes. “Escolher a perspectiva da vida é uma maneira de contrapor o estigma e a violência da estação. É aí que a série se atualiza, de alguma forma”, diz Johnny Massaro, que vive o protagonista Nando.
O título, “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Maquinalmente”, sintetiza muito o descaso do governo, dos órgãos de saúde, das igrejas e da sociedade porquê um todo em relação à Aids. Porquê a ajuda não chegava, foi preciso produzir uma rede de base entre aqueles diretamente afetados pelo vírus HIV –principalmente homossexuais e mulheres trans, mas não só.
A série faz questão de povoar sua trama com vítimas não óbvias da doença, chamada à estação, com muito sensacionalismo e irresponsabilidade, de “cancro gay”. Há a dona de mansão traída, o juvenil heterossexual tomado pelos hormônios e por aí vai.
Mas eles são secundários numa trama que retrata um capítulo inseparável dos livros de história queer. E, por isso, o protagonista de “Máscaras de Oxigênio” é um varão gay que trabalha porquê comissário de bordo da fictícia Fly Brasil. Ele rebola pelos corredores da avião e dá “tratamento VIP” a pais de família no banheiro, porquê brinca uma amiga.
Todo mundo quer ter a vida que eu tenho, diz Nando. Quando pousa em Novidade York, ele adiciona homens à sua coleção de peguetes internacionais e compra muamba para depois revender; quando retorna ao Rio de Janeiro, faz planos para o horizonte com um jogador de futebol enrustido e se diverte na pista de dança da boate Paradise.
Nos ares, ele tem a companhia de Léa, a atenciosa melhor amiga interpretada por Bruna Linzmeyer, que vive um namoro às escondidas com o piloto do avião. Em solo, encontra aconchego em Raul, personagem de Ícaro Silva que faz performances porquê drag queen e é o mais consciente em relação ao progressão da Aids.
Porquê é de se esperar, Nando é diagnosticado com a doença logo no primeiro incidente e acredita ter recebido uma sentença de morte. Sua médica, porém, fala num novo medicamento ratificado pelos órgãos reguladores americanos, mas proibido no Brasil. Logo, o trio protagonista monta um esquema de “contrabando do muito”, trazendo o antirretroviral AZT para Nando e outras pessoas na bagagem dos comissários.
Inspirada em fatos reais, a teoria veio a Thiago Pimentel, da Morena Filmes, depois de ver um documentário, “Epístola para Além dos Muros”, e ler uma reportagem do jornalista Leandro Machado na BBC Brasil. Um longo processo de pesquisa veio em seguida, envolvendo comissários da Varig, infectologistas e Márcia Rachid, referência no tema no país.
“O coletivo é sinônimo de um poder, de uma alegria, de um fôlego. É uma coisa com a qual a comunidade queer se identifica”, diz Ícaro Silva, ressaltando a rede de base que se criou no período, em face do desistência que muitos diagnosticados sofreram. “Na série temos o contraponto daqueles que não estão em comunidade e, por isso, acabam morrendo silenciosamente, por conta de preconceito e desinformação.”
A violência causada pelo desistência, em “Máscaras de Oxigênio”, talvez seja mais brutal que aquela da morte em si. Para balancear essa melancolia, os diretores apostaram em cenas de boate, praia e sexo para ressaltar que aqueles personagens, apesar de tudo, continuavam vivos, inclusive para amar.
Assim, a câmera encontra venustidade na seiva que Nando deixa escorregar até a boca do namorado ou no movimento da chuva de uma piscina enquanto ele prende a respiração e se delicia com o rosto colado às nádegas do outro. Não é promiscuidade, vocábulo ainda generalidade ao falar de Aids, mas intimidade e carinho, porquê diz Bruna Linzmeyer.
“A gente entende essas cenas de sexo porquê segmento da dramaturgia. Há camadas desses personagens que a gente não vê no bar, no trabalho. A pessoa mostra outras coisas quando estamos entre quatro paredes”, diz a atriz. “Sexo é vida. A gente tem que abraçar isso com alguma naturalidade ao racontar as nossas histórias”, completa Massaro.
É uma teoria também presente em outros filmes nacionais que retrataram o período nos últimos anos, porquê “Varão com H”, sobre a vida de Ney Matogrosso, e “Os Primeiros Soldados”, protagonizado pelo mesmo ator. Sempre com um jeitinho brasílio, por mais que tome produções estrangeiras porquê referência –a britânica “It’s a Sin”, da mesma HBO, vem à mente a todo momento ao ver “Máscaras de Oxigênio”.
São várias as referências a figuras porquê a agitadora cultural Eloína dos Leopardos, presente em cena na figura de Pantera, uma performer na boate Paradise, e Betty Faria, que se torna uma atriz fictícia que também usa sua notabilidade para conscientizar.
“Temos, na série, a influência da música e do que acontece lá fora, mas com um olhar brasílio. Temos Blondie e temos a Gretchen”, diz Marcelo Gomes. “Porquê diria o Caetano [Veloso], queríamos mostrar a dor e a delícia de viver no Brasil dos anos 1980.”
