Matheus nachtergaele: há uma nova censura na tv aberta

Matheus Nachtergaele: Há uma nova censura na TV aberta – 14/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em um terreiro de umbanda, Exu Capote Preta, no corpo de um sacerdote, conduziu Matheus Nachtergaele pela mão até o meio de uma roda. Matou uma pomba e derramou o seu sangue no solo. O ator sentiu um calafrio e começou a tremer, reação ansiada pelos presentes. “Era um pouco verdade, mas também um pouco patranha, uma vez que no teatro. Uma verdade poética, que auxilia a cerimônia e a catarse”, diz ele.

Eram os anos 1990, e Nachtergaele ainda cursava a faculdade de dramaturgia. Naquela tarde, aprendeu as regras do jogo cênico, do qual era sujeito ativo e, ao mesmo tempo, segmento congruente de um ritual. Oriente é o sentimento que espera de seus trabalhos, afirma o ator, aos 57 anos, enquanto gotas de suor escorriam de sua testa. O calor no Parque Novo Mundo, na periferia da zona setentrião de São Paulo, onde aconteciam as gravações da segunda temporada de “Cidade de Deus”, era de 35ºC em novembro do ano pretérito.

Nos episódios, previstos para o segundo semestre deste ano, na HBO Max, Nachtergaele voltará a viver Sandro Cenoura. O traficante gente fina foi rival de Zé Pequeno no filme de Fernando Meirelles, que lançou as bases do bangue-bangue brasílico no cinema deste século.

Não foi sua única reencarnação recente —ele voltou a ser João Grilo em “O Auto da Compadecida 2”, personagem que coroou sua popularidade no Brasil inteiro na minissérie de Guel Arraes, em 1999. O longa que se tornou a segunda maior bilheteria vernáculo pós-pandemia no primórdio do ano, e Nachtergaele disputa o Grande Prêmio do Cinema Brasílico de melhor ator. No dia a dia, ele ainda aparece na TV uma vez que Poliana, leal escudeiro de Raquel em “Vale Tudo”.

Em geral, os três personagens são figuras de origem humilde, que não protagonizam as narrativas —pelo menos não de forma tradicional—, e ainda assim roubam a cena com seu carisma. É o caso do próprio João Grilo, sertanejo pobre que aplica pequenos golpes em Taperoá e divide as encrencas com Chicó, dupla eternizada por Selton Mello.

“Na TV e no cinema, fui dragado para simbolizar o povo brasílico”, diz Nachtergaele, sobre a trajetória de 55 filmes e mais de 30 folhetins, em outra conversa, por videochamada, entre um trago e outro do cigarro. Os personagens sem um bom orientação repentino, veras próxima a grande segmento dos brasileiros, se soma a traços físicos simpáticos e um humor onipresente.

Na série “Cine Holliúdy”, mesmo o seu prefeito Olegário Maciel tinha certa perdão, por mais terrível que fosse. “Tenho características de um varão muito simples, sem grandes atributos físicos, mas com uma verve que combina violência e delicadeza. Sempre fui palhaço, e a boa palhaçaria é trágica e faz chorar. Isso cabe muito para a representação de muitos tipos comuns no Brasil”, afirma. São atributos compartilhados com grandes nomes populares da dramaturgia vernáculo, uma vez que Lima Duarte, Grande Otelo, Ary Fontoura e Paulo José.

Poliana, de “Vale Tudo”, é mais um de seus coadjuvantes que conquistou um lugar ao Sol. Possuinte de um bar no subúrbio carioca no início da trama, ele acolhe Raquel, vivida por Taís Araújo, que chega ao Rio de Janeiro com uma mão na frente e outra detrás depois levar um golpe da própria filha, Maria de Fátima. Em uma trajetória com muitos baixos, Raquel e Poliana conseguem penetrar um restaurante.

A dupla batalhadora dá a sensação dejá vu. Em uma toada parecida, Araújo e Nachtergaele viveram Preta e Helinho em “Da Cor do Vício”, folhetim de 2004 e o primeiro de muitos trabalhos da atriz uma vez que protagonista na TV ensejo.

Não ser sempre o meio das atenções, apesar da curso extensa, não o incomoda. “Não tem personagem protagonista ou coadjuvante. Existem personagens de bons ou maus atores. Fico muito feliz quando, por estarem comigo, atores brilham. Não penso numa curso no padrão hollywoodiano, ‘ou o meu nome vem primeiro ou eu não vou’”, afirma.

Um de seus sets favoritos ainda é o de “Cidade de Deus”, tanto do filme quanto da série, porque grande segmento do elenco é formado por atores no início de curso ou não atores —pessoas que não estão viciadas no mercado ou no estrelismo da nomeada, segundo ele.

Nos tablados, porém, o ator coleciona protagonistas solitários. Nascido em uma família de classe média e progénie belga na zona sul de São Paulo, foi na companhia Teatro da Vertigem, de método colaborativo, que ele iniciou a curso.

Estreou “O Livro de Jó” em 1995, e ganhou seu primeiro Prêmio Shell e uma passagem só de ida para a televisão —ainda que nunca tenha deixado o teatro, uma vez que prova a temporada de “Molière” em 2023, peça que reapresenta desde o sucesso original, em 2018, e na qual ele encarna o célebre dramaturgo gálico.

Na telinha, seu primeiro papel foi uma vez que a travesti Cintura Fina, na minissérie “Hilda Furacão”, que quebrou tabus na viradela do milênio ao mostrar Ana Paula Ambrósio, com sua formosura angelical, deixar a vida burguesa para se prostituir.

Em uma das cenas mais ousadas que gravou na era, Cintura Fina colocava a mão dentro da braguilha de um cliente para masturbá-lo. Os movimentos de vai e vem foram ao ar na TV ensejo. “Havia um comando universal de libertação, para tratar de temas não usuais. Eu queria isso mesmo, fazer personagens corajosos”, diz Nachtergaele.

Mesmo “Vale Tudo” era uma referência de coragem, lembra o ator. Quando foi ao ar em 1988, logo depois a redemocratização do país, a romance desafiava as convenções da televisão com uma filmagem ousada —muitas cenas na mansão Roitman, por exemplo, eram iluminadas exclusivamente pela luz das janelas— e com um roteiro que acusava a moral e os bons costumes para expor as desigualdades entre os muito nascidos e os menos afortunados no Brasil.

Hoje, porém, os tempos mudaram. “Existe uma repreensão novidade na TV ensejo, que não havia quando eu fiz ‘Hilda Furacão'”, diz o ator. “O Brasil se provou, de alguma forma, conservador. A emissora [Globo] optou por não apoucar os parafusos mais incômodos para uma boa segmento da população”, diz Nachtergaele.

Se antes o impacto das telenovelas sobre o público era mais eterno, hoje ele se dissipa rapidamente depois de alguns memes. “Os assuntos vêm à tona e somem na mesma velocidade estonteante. Os personagens duravam mais tempo. Eu ainda sou o João Grilo nas ruas”, diz. No exterior, ele é Sandro Cenoura. No metrô de Paris, chegou a ser chamado de “carotte”, ou cenoura, em gálico.

Existem pontos positivos, porém. Nos novos folhetins, uma vez que o próprio remake de “Vale Tudo”, os arquétipos dos personagens são menos engessados —mocinhos podem falhar, e vilões têm um lado humano. Ele comemora, também, a introdução de temas pouco explorados na TV, uma vez que acontece quando Poliana se descobre assexual.

“Atuar não é tão importante quanto a medicina, quanto a ciência, mas é muito importante para a sanidade de um povo. O ser humano precisa dos atores para se ver, para purgar, rir junto, saber os meandros do ser humano. E também para amar a variedade e comprar moralidades, porque cada história tem sua fábula moral. A televisão é onde a maioria do povo brasílico tem entrada à arte, e fazer romance ainda é uma maneira muito viva de ser ator”, diz.

O cinema, ele diz, ainda tem seus desafios pela frente. Além de uma crise nas bilheterias que só melhorou com “Minha Mana e Eu” e “Ainda Estou Cá”, no ano pretérito, o país ainda deve regulamentar o streaming.

“Você vê a loucura quando um filme nosso chega no Oscar. Nós somos uma espécie de galpão fornecedor de matéria-prima e de mão de obra barata, para multinacional penetrar filial cá e produzir. Tem que ter muito peito para ser o Lula e aumentar o salário mínimo e fazer uma queda de braço com gente poderosa de fora”, diz o ator.

Sua fala aconteceu exclusivamente uma semana antes de Donald Trump impor uma taxação de 50% sobre produtos brasileiros. Ainda não se sabe uma vez que a medida pode afetar o mercado audiovisual, ou quais normas da lei da reciprocidade o governo brasílico irá utilizar.

Também não é a primeira vez que Nachtergaele acompanha de perto a via crúcis do cinema vernáculo. Enfim, ele foi figura praticamente onipresente em filmes da retomada, nos anos 1990 —somado a “Cidade de Deus”, compôs o elenco de “O Que é Isso, Companheiro?”, indicado ao Oscar em 1998, “Medial do Brasil”, “O Primeiro Dia” e “Bicho de Sete Cabeças”. Também foi diretor em “A Sarau da Rapariga Morta”, aplaudido no Festival de Cannes de 2008.

Guiar de novo não está em seus planos a pequeno prazo. “Tenho muita coisa para fazer uma vez que ator, e não tenho pressa. Os atores, muitas vezes, não são considerados autores. Mas se você retirar o fio de todos os personagens, você tem uma narrativa contada. Você fica vivo sendo ator”, diz, satisfeito. Em breve, pretende transpor de cena por um tempo —dar uma “paradinha”, para lembrar o sentido das coisas.

Folha

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