Medalhões levam ao palco histórias do teatro brasileiro 29/08/2025

Medalhões levam ao palco histórias do teatro brasileiro – 29/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Não é uma peça. É um caso. A montagem “Haddad e Borghi: Cantam o Teatro Livres em Cena”, que chega ao Sesc Consolação em seguida temporada de sucesso no Rio de Janeiro, é a materialização de uma amizade de 70 anos e da história viva do teatro brasílico. Pela primeira vez, Amir Haddad e Renato Borghi dividem o palco uma vez que protagonistas, em um formato que foge do convencional para comemorar a trajetória de dois grandes atores.

A teoria do espetáculo surgiu de forma tão orgânica quanto seu desenvolvimento em cena. “Ah, foi em um dia de comilança!”, revela Borghi. “Fomos jantar na morada do Barata. Porquê sempre, era um festival de comida… O Barata nos viu conversando e disse: ‘Nossa, tenho que botar esses dois em cena’”. O diretor Eduardo Barata confirma a anedota e acrescenta: “A diferença cá é que a trajetória deles seria contada no palco por eles mesmos, de uma forma cênica, teatralizada, não uma vez que uma palestra”.

O que o público encontra é uma roda de conversa que promiscuidade memórias, causos e reflexões profundas sobre o ofício, pontuada por canções e textos de autores uma vez que Guimarães Rosa e Clarice Lispector. A direção de Barata optou por um roteiro que serve mais uma vez que um planta do que um script rígido.

“Existe uma ordem. É um roteiro que surgiu depois de dez ou 12 encontros de conversa com eles… Eles são provocados pelos quatro atores que estão em cena”, explica o diretor. Esses atores —Débora Duboc, Duda Barata, Élcio Nogueira e Sumo— atuam uma vez que anjos da guarda, guiando a narrativa.

A dinâmica entre os mestres no palco espelha suas personalidades distintas. “Eles são muito diferentes”, observa Barata. “O Renato é muito organizado, disciplinado… O Amir é anárquico, é o ‘não teatro’. O Renato estuda o roteiro, já sabe o que vai falar. O Amir, não. O Amir é no momento”. Essa imprevisibilidade é secção crucial do espetáculo, que se renova a cada apresentação.

O encontro revisita momentos fundadores, uma vez que a geração do Teatro Oficina. Borghi relembra: “O Amir fundou o Teatro Oficina e dirigiu a primeira peça do Zé Celso”. Haddad complementa, rindo: “Acabei me tornando diretor porque não havia lugar de ator para mim. Eles disseram: ‘Portanto você dirige’. Fui jogado na direção e nunca mais saí”.

O espetáculo não se furta a revisitar os anos de chumbo da ditadura militar, um período que moldou a coragem e a inventividade do teatro brasílico. Renato Borghi, à idade no Teatro Oficina, viveu na pele a repressão direta do regime. Ele narra a perseguição sofrida: “Vivíamos sob a vigilância do Dops… Invadiram ‘Roda Viva’, espancaram atores”. Seu relato expõe a violência crua e a intimidação que grupos teatrais institucionalizados enfrentavam, sujeitos à repreensão prévia e a ataques brutalmente organizados.

Em contraponto a essa experiência, Amir Haddad desenvolveu uma estratégia de resistência tão genial quanto traste. Ao fundar o grupo Tá Na Rua, ele se tornou inapreensível para a máquina censória. “Quando eles chegavam, a gente já não estava mais lá”, explica Haddad, com a sagacidade de quem usou o espaço público uma vez que trunfo. “Nunca censuraram o espetáculo. Nunca mandei o texto para a repreensão.”

Sua tática era a rapidez e a surpresa. Ao não ter um endereço fixo, ele tornou o teatro um ato fantasma, impossível de ser cerceado pelos mecanismos tradicionais de controle. Juntos, no palco, suas narrativas complementares ilustram as múltiplas frentes de luta e sobrevivência artística em um dos períodos mais sombrios do país.

Se as memórias da ditadura ilustram uma repreensão explícita e violenta, o espetáculo também lança um olhar crítico sobre os obstáculos contemporâneos à geração artística. A conversa no palco evolui para os desafios do presente, identificando uma novidade forma de cerceamento, mais sutil porém também eficiente: a pressão econômica e o patrocínio uma vez que filtro criativo. O diretor Eduardo Barata aponta essa mudança de paradigma: “Acho que hoje temos um tipo de preocupação similar, mas de outra forma: a repreensão do patrocinador”. Ele elabora sobre uma vez que grandes empresas condicionam financiamento a espetáculos inócuos, “leves, quase ‘Cinderela’ para adulto”, privilegiando uma cultura mercantilista em detrimento da ousadia artística.

Nesse contexto, a luta pela sobrevivência econômica emerge uma vez que a principal forma de repreensão moderna. Barata contrasta a verdade de diferentes cenas: “São Paulo é dissemelhante porque tem o Sesc… No Rio de Janeiro, não temos zero disso”.

A trajetória de Haddad e Borghi, que sobreviveram por sete décadas “sem uma instituição por trás, sem patrocínio, sem ter mudado a estética ou a linguagem”, torna-se, em si, um ato de resistência. É por isso que o diretor conclui, com persuasão: “Por isso, para mim, o espetáculo significa liberdade. Esses dois significam liberdade”. A liberdade da qual fala não é exclusivamente política, mas a liberdade de fabricar com autonomia, longe das amarras do mercado e da conveniência, um testemunho vivo de que a arte pode, de traje, se sustentar por sua força e sua verdade.

É essa liberdade e essa resistência que o espetáculo exalta, servindo de inspiração para novas gerações. O juízo de Borghi é direto: “Tudo leva você a desistir. Não desista. Vá em frente. Batalhe”. Haddad é ainda mais enfático: “Fazer o que você tem vontade é a coisa mais importante da vida… Se você fizer outra coisa, será infeliz pelo resto da vida”.

“Haddad e Borghi: Cantam o Teatro Livres em Cena” é mais do que uma retrospectiva; é um testemunho vivo de que o teatro é, supra de tudo, uma questão de existência. Porquê define Barata, “esses dois são referências e sempre quebraram padrões, nunca aceitaram o que era imposto”. E agora, essa história de resistência e paixão se encontra em cena, para todos verem.

Folha

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