Walderez de Barros assistia às colegas de elenco, Rosana Stavis e Mariana Muniz, quieta na cadeira. Seus olhos cediam ao sono, mas a artista de 85 anos resistia e aguardava a sua hora de dar vida à “Medea”. Sob direção de Gabriel Villela, com quem falava inferior vez ou outra, ela subiu no palco delicadamente. Ninguém poderia imaginar a intensidade que trazia consigo.
“Vocês não podem imaginar uma vez que é libertador dar um grito! Se eu fizer isso em mansão, me internam”, brinca a atriz pouco depois de a sua voz grave repercutir por todo o galpão de ensaios. Nesta adaptação de Sêneca, filósofo romano que subverteu o romantismo de Eurípides quatro séculos depois da tragédia original, Walderez recita o solilóquio da figura-título, considerado um dos trechos mais dramáticos do teatro.
Por fim, é neste orgasmo que a fúria de Medea recai sobre si mesma. Atormentada pela traição do herói Jasão, por quem matou parentes, ela se divide entre a paixão pelos filhos e o ímpeto de varar os descendentes que teve com o ex-amor.
Não é a primeira vez que Walderez incorpora os dilemas da mulher angustiada. Há quase três décadas, dirigida por Jorge Takla, ela protagonizou uma montagem quase etérea do texto, prestigiada pela forma uma vez que explorou a psique em colapso. Agora, apesar da participação de 15 minutos, a tradutor consagrada por peças e novelas reafirma que não existem papéis pequenos demais.
“Eu sempre fui considerada exagerada. Por isso me sinto muito muito interpretando tragédias. Por outro lado, também sou tímida por excesso, e é difícil provar que tenho essa voz trágica e consigo ir além do drama burguês. À exceção de autores uma vez que Tchekov e Ibsen, o teatro burguês é um pé no saco. Na TV, logo, é puro naturalismo, com tom pequenininho. Uma vez que resolver a voz dentro de você?”, questiona ela.
Redescoberta durante o Renascimento, a “Medea” de Sêneca passou anos sem encenações por divergir de normas teatrais do Poderio Romano e da Idade Média. Por um lado, historiadores insistiam que o ideal era preservar as obras do dramaturgo em recitais. Por outro, a violência dos temas abordados resultaram num retiro —fosse pela dificuldade em trasladar os sentimentos em imagens, fosse por instituições, uma vez que a Igreja, que consideravam a abordagem imprópria.
No teatro do Sesc Consolação, onde estreia nesta quinta, Gabriel Villela mostra que a narrativa pode sim ser dimensionada por corpos humanos —no caso da protagonista, três deles, num esforço coletivo entre Walderez, Mariana Muniz e Rosana Stavis. Quem inicia o espetáculo é a última, que se esconde numa envoltório grossa, uma vez que um casulo, e usa um tecido transparente no rosto.
Enquanto não revela a sua face, a apresentação é tomada pelo coro, com reflexões que provocam o moralismo do público. De início, seus integrantes vestes máscaras barrocas, típicas do repertório de Villela. A certa fundura, quando dão a rostro a maltratar, os atores se locomovem uma vez que seres de outra espécie.
Os movimentos estranhos reforçam a assinatura lúdica do diretor, que Walderez classifica uma vez que uma gincana. Em 2011, os dois brincaram em ambientes não realistas ao montar “Hécuba”. A tragédia de Eurípides foi a primeira irrupção do encenador pelo gênero e preserva a proteção que as mães nutrem pelos filhos —a ira da vez, da rainha de Troia, vinga justamente a morte de suas crias.
Hoje, as túnicas de penugem espessa, os brasões de metal reluzente, os tecidos coloridos, as caveiras que tomam o cenário, os rostos pintados de branco e as bocas vermelho sangue voltam ao palco. São elementos que reúnem a tradição circense, que inspirou outras produções de Villela, e alegorias políticas, uma vez que a disputa retratada em “Ubu Rei”.
“Não há registros das vozes que se escondem por trás dessas máscaras. Logo, as vozes gregas podem também simbolizar as vozes brasileiras, e a supressão do realismo nos permite simbolizar atrocidades de outros períodos”, afirma o diretor. Ele inclui os governos do ex-presidente brasílico Jair Bolsonaro, do presidente americano Donald Trump e do líder iraniano Ali Khamenei entre “barbáries atuais”.
“Podemos somar tais atrocidades aos vulcões, uma vez que o Etna, mencionado na peça, que estão em erupção no momento. São manifestações do interno da terreno, um eructação de lavas que surge do verbo dessas criaturas e que pode denunciar ataques atuais à sociedade brasileira.”
Quem faz coro à teoria dos fenômenos naturais é Muniz, que assume Medea quando a protagonista recorre ao misticismo para produzir venenos. Ela descreve a colaboração com Stavis e Walderez uma vez que um tipo de simbiose. “Sinto e me maná das vozes delas uma vez que forças para impulsionar minha personagem. Não só isso, mas me guio sobretudo pela noção de estar representando a revolta da natureza contra ela mesma.”
A bailarina critica a ruína ambiental e diz que a trilha sonora do espetáculo invoca os seus sentidos. Essa sensibilidade se destaca na passagem em que Medea afoga os dois filhos —cá representados por peças de tecido, imersas em jarras d’chuva. As mortes são executadas por Stavis, mas são as expressões e os contorcionismos de Muniz que transmitem os arrependimentos.
Descrita por estudiosos uma vez que princesa de sangue divino, a assassina é vista uma vez que estrangeira. Antes que seja expulsa da terreno de Jasão, ela derruba o sistema desse varão mítico. “Todos estão ao lado dos guerreiros, mas surge essa figura, meio bicho e meio gente, que desafia a imagem monolítica da mulher uma vez que ser que gera e cuida”, explica Stavis, que afirma encarregar na imaginação do público e na suspensão de seus julgamentos.
Seja pela subversão de estigmas diversos —que vão da loucura associada ao feminino até o etarismo—, seja pela rigidez ao encenar integralmente o texto de Sêneca, a equipe vê o projeto uma vez que exceção numa cena tomada por espetáculos comerciais e redes sociais que reduzem a atenção da plateia.
Reconhecida por coadjuvantes de peso, que viveu em novelas uma vez que “O Rei do Manada” e “Laços de Família” —figuras de temperamento variável, enriquecidas pela voz impostada dos palcos—, Walderez diz não ver mal na popularidade da televisão e do streaming. O problema, segundo ela, é quando o entretenimento vira regra, o raciocínio empobrece e os gritos desaparecem.
“As pessoas tem extinto as suas emoções, que também devem ser vistas uma vez que forças sociais. Quantas revoluções deixaram de ocorrer pela falta de um grito?”, questiona ela, que foi casada por mais de 20 anos com o dramaturgo Plínio Marcos, cujas peças foram censuradas pela ditadura militar.
“A sociedade está sendo destruída. A besta que governa os Estados Unidos, por exemplo, vai ultimar com a cultura que viemos construindo a duras penas. Vai ver é o projecto de Deus ultimar com tudo e debutar de novo.” Apesar das angústias, reforça os planos para seguir atuando.
“Pensei que não subiria no palco outra vez com minha idade. Meu corpo e meu raciocínio ainda funcionam muito e sou muito grata. Não posso mais gritar, pois sou feliz. Pronto, perdi o meu grito trágico.”
