Mercantilização da filosofia é um processo sem volta 17/08/2025

Mercantilização da filosofia é um processo sem volta – 17/08/2025 – Luiz Felipe Pondé

Celebridades Cultura

Somos mesmo uma raça de desesperados, uma vez que diz o filósofo e sociólogo teutónico Max Horkheimer no seu “Eclipse da Razão”. Fazemos qualquer negócio para mitigar esse desespero. Nascente se constitui numa das maiores commodities para a produção de teor no mundo, sejam livros, cursos, palestras, programas de TV, engajamento em mídias sociais, políticas públicas, marketing, enfim, não sobra zero.

O campo da cultura que sempre cuidou desse desespero estrutural foi a religião. Grande secção das raízes das religiões repousa na solidão cósmica decorrente desse desespero —ou vice-versa. Freud já havia identificado no seu “Porvir de uma Ilusão” que a manadeira da religião é o desamparo. Desespero, solidão, desamparo, susto, os motores dinâmicos e estruturais da espírito. O resto é migalha e poeira.

A solidão cósmica alimenta quase tudo na história da cultura e da religião. Ter um Deus, deuses ou demônios —melhor um deus cruel do que a pura contingência— tem se mostrado importante para nós, desde a pré-história. Ao longo do século 19 muitos desistiram desses deuses e passaram a amar a história, a política, a ciência e, mais recentemente, os hormônios. Deram com os burros n’chuva. Crer em Deus ainda é mais elegante.

O mundo contemporâneo tem preguiça do transcendente. A fúria pela eficiência e por resultados matou o Deus transcendente. Agora, ou Deus é meu assessor de sucesso e meu consultor nas horas em que esse desespero estrutural vem à tona e inunda a minha espírito ou o demito.

Essa morte de Deus o filósofo e filólogo Friedrich Nietzsche não podia ver claramente, porque a dinâmica da boçalidade moderna ainda não estava plenamente instalada em nossa espírito. Deus hoje é um dos nossos “colaboradores”. Desde a cruz, Jesus Cristo deve ser meu “coach”.

Com o final do século 20 e adentrando já a antessala do coração do século 21, cada vez fica mais simples que não haverá lugar para uma filosofia —e derivados, porque todo o conhecimento é uma derivação da arte filosófica— que não seja de cepa autoajuda ou motivacional.

O “varão psicológico” de Philip Rieff se transformou no varão motivacional. A “cultura do narcisismo” de Christopher Lasch se vestiu com o véu da autoajuda. E não há saída para esse cataclisma da perceptibilidade, porque a única outra opção de cultura do pensamento é o lixo da esquerda.

A política não salva zero, quando funciona, somente consegue evitar a erupção vulcânica que é a psicose estrutural do sapiens.

A mercantilização da filosofia e derivados é um processo sem volta porque todo mundo tem que deleitar ao público para remunerar boletos. E a vida intelectual fora do mercado é um ninho de ratos. E, no mercado, a vida intelectual é um enxame de hienas e chacais, uma vez que diria o príncipe de Salinas do livro “O Leopardo”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, acerca da revolução social moderna.

Apesar de a estudo da commoditização do pensamento ser consistente e indiscutível, para além dela, ou melhor, antes dela, persiste o desespero uma vez que substância da exigência humana. Da religião ao exposição motivacional, não saímos da mesma rota do susto, do desamparo, da solidão.

Por isso eu disse cá que o desespero dinâmico e estrutural da exigência humana no século 21 se tornará uma commodity, assim uma vez que a saúde mental. Daí que a tendência dos profissionais da saúde mental é ou assimilarem a “política uma vez que a verdadeira clínica” —e se fazerem uns chatos ideológicos— ou se tornarem profissionais da cultura motivacional, mesmo que sob o véu de um exposição que imita a ciência, que, por sua vez, não escapará desse vaticínio.

O coração da “novidade religião motivacional”, na qual Jesus se transforma num “colaborador na gestão da vida”, é a promessa de felicidade cá e agora. Dane-se a vida eterna. Lembre a preguiça da transcendência. A felicidade eterna deve ser cá e agora ou estou fora. A tendência à direita desse processo é inevitável porque há, essencialmente, um caráter empresarial nessa religião do mercado religioso. O empreendedorismo da fé veio para permanecer.

Somos seres medicantes do guarida. Sempre fomos. A questão a se pensar é se haverá sobrevivência para a atividade originada na filosofia quando o filósofo, e seus derivados, devem pensar para deleitar, engajar, seduzir, fidelizar, sendo todas categorias da ciência do marketing. Com a passagem das gerações e a vocação proveniente das novas à fé no marketing, alguma forma de perceptibilidade sobreviverá?

Quando olho à minha volta, tenho dúvidas. A fúria da felicidade nos destrói a todos. Ninguém precisa da perceptibilidade sintético para silenciar a perceptibilidade.


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Folha

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