O Michel Leme Trio fará uma apresentação gratuita, na terça-feira (25), entre 20h e 23h, no Bar dos Cravos, no Paraíso, em São Paulo. Veja vídeo no final do texto.
O simpático Bar dos Cravos tem promovido gratuitamente, uma vez por mês, apresentações musicais de cocuruto nível, ao vivo, com exímios instrumentistas. Entre elas a que aconteceu no último setembro com o quarteto de pranto contemporâneo, Pranto Amoroso, liderado pelo pandeirista e compositor Túlio Araujo.
A pilastra Música em Letras entrevistou com exclusividade o guitarrista, professor, compositor e arranjador Michel Leme, seguramente um dos melhores em seu instrumento que ainda tocam no país, pois muitos de seus colegas vazaram das plagas brasileiras dada as parcas condições oferecidas aos profissionais da dimensão.
O músico que formou, em 2023, seu trio com Hugo Fonseca, no contrabaixo acústico e elétrico, e Vinícius Teixeira, na bateria, foi perguntado sobre quais são as características musicais mais latentes dos outros dois integrantes? “Eu vejo o Hugo e o Vinícius uma vez que pessoas em evolução ordenado. Eles entenderam a secção, digamos, complicada da classe músico, uma vez que a competição, a imposição de jerarquia e outras mesquinharias, e esse recato faz com que não reproduzam tais coisas, o que os torna pessoas queridas, com as quais é verosímil conversar e aprender. Quanto à secção músico, esta reflete totalmente quem a pessoa é, uma vez que ela pensa e age, ou seja, se é verosímil conversar sem estar numa disputa, quanto ao som, é só a pessoa estar a termo.”
Quanto à propriedade músico que mais diferencia Michel Leme de outros guitarristas tocando jazz -gênero que será abordado na apresentação no Bar dos Cravos-, o guitarrista, que tem um som peculiar, “sujo” na medida, suingado ao extremo, envolvente “no úrtimo”, repleto de harmonias surpreendentes e com uma destreza que justificação inveja aos mais experientes instrumentistas da sua e de outras gerações, admite de forma modesta e explicativa: “Talvez eu não seja a pessoa pra falar sobre isso, mas comento que cada pessoa tem características únicas, e a música é uma atividade na qual essas características vão se tornando perceptíveis ao longo do processo. Assim uma vez que qualquer pessoa envolvida com música e artes em universal, tenho minha história, minhas metas, meus desejos, meus sonhos sobre uma vez que gostaria de tocar; aí vou pensando e agindo na direção desses horizontes – e inclua-se os perrengues, erros, crises, questionamentos, encanações, só pra não pintar um caminho unicamente florido para a juventude que nos lê. E não tem tática, artifício ou senda nesta procura; vejo uma vez que uma questão de ir fazendo, ouvindo, ouvindo as próprias gravações, conversando com as parcerias, sendo leal ao que percebemos”.
Indagado sobre o que é jazz, Leme respondeu: “Tem várias perspectivas possíveis que me passam. Jazz é uma vocábulo que pode ser interpretada de infinitas formas, dependendo da experiência direta que cada pessoa tem ou teve com a música; sendo assim, o rótulo não me serve de muita coisa. Jazz é uma doação trazida pelo povo preto da classe trabalhadora norte-americana, que colocou a improvisação uma vez que caminho verosímil de frase para quem estiver a termo, independente da estética, gênero músico, CEP, origem etc. Jazz é mais um item favorável pela pequena mediocracia, que transforma essa forma de arte em mais um campo de autoindulgência para a sua profunda mediocridade, gerando produtinhos vagabundos e sem vida, num ecossistema de assédio e lisonja – nenhuma surpresa vindo de quem só conhece a exploração, a burocracia e o elitismo uma vez que formas de mediação. Finalizando, ao invés de usar a vocábulo ‘jazz’, prefiro ser mais exato e invocar [o gênero] pelo nome da pessoa, tipo Alice Coltrane, McCoy Tyner, Hélio Delmiro etc”.
Quais temas o trio pretende tocar na apresentação que haverá no Bar dos Cravos? “Dependendo do contexto, tentaremos tocar temas autorais neste trabalho no Bar dos Cravos. Vou falar de três destes temas que farão secção do nosso segundo álbum, a ser gravado logo depois desta apresentação: ‘Dolores Duran’, um bolero ou chachacha que tem a ver com o que sinto a saudação desta grande artista brasileira; ‘Jagun’, esse com um título provisório, tem uma levada da qual paladar muito e uma estrutura que privilegia o fluxo das ideias e interações; e mais um tema em compasso três por quatro, ainda sem nome, que tem um clima mais introspectivo, e que nos traz outras possibilidades de frase.”
Em que as pessoas devem especificamente prestar atenção no som desse trio? “Se alguém prestar atenção, será muito bom; agradeceremos depois, inclusive. De vestuário, nós, do trio, é que precisamos estar atentos. Digo isto porque a lógica dominante é transmudar música em entretenimento. E, depois de péssimos exemplos na própria música instrumental, faz secção do ‘menu’ incluir gracinhas, dancinhas, alguém regendo o grupo pra mostrar ‘quem é o líder’, puxando palmas ou coro da ‘plateia’. Isto sem recontar a imposição de certas casas para que artistas organizem ‘tributos’, ou seja, a produção autoral que se dane para essa malta que paga grana de bilheteria em 30 ou 60 dias. Por estas e outras, estou e estamos apostando na canseira de martelar em tocar o que estamos a termo e onde for verosímil.”
Sobre o álbum que vocês irão gravar, logo em seguida a apresentação no Bar dos Cravos, o que você pode antecipar para a pilastra Música em Letras? “Nosso segundo álbum ainda não tem nome. Vamos gravar, ouvir, escolher takes (se necessário), mixar e, enfim, ainda temos uma jornada de uns poucos meses até lançar. Lançarei o álbum uma vez que um pacote do dedo, com áudios sem perdas de qualidade, encarte em PDF, com um monte de informações, links, fotos, revestimento grande e partituras dos temas escaneadas dos originais. Vender assim significa tentar restaurar uma secção do que gastamos na produção de um álbum. E se vendermos unicamente uma unidade deste pacote, já estaremos recebendo muito mais do que o monopólio de streaming, seja qual for, iria nos remunerar em dez anos. Costumo anunciar esses lançamentos nas minhas redes, são seis até o momento. Tem pessoas que apoiam, pelo que agradeço muito, e, enfim, vamos em frente, fazendo o que temos que fazer, que é música. Um tema que não comentei na resposta anterior sobre o repertório deste álbum é ‘Radicais Livres’, uma constituição baseada em dois riffs, com as seções de solos sem estrutura pré-definida; uma espécie de heavy metal ‘free’, com a guitarra sem distorção e uma base funk.”
Esta é uma óptimo oportunidade para ouvir um trio extremamente comprometido com sua música, mas que nem por isso desrespeita o sítio onde se apresenta ou quem o frequenta. O Michel Leme Trio faz música pela música para quem ouve música.
Assista, a seguir, ao vídeo no qual o Michel Leme Trio toca um de seus temas autorais sem nome.
APRESENTAÇÃO MICHEL LEME TRIO
QUANDO Terça-feira (25), das 20h às 23h
ONDE Bar dos Cravos, rua Osório Duque Estrada, 41, Paraíso, São Paulo
QUANTO Sem couvert artístico, mas é necessário reservar lugar em
